Fernando Ordakowski

Carlos Abicalil recebe respaldo, em forma de retribuição, do presidente Lula por ter ajudado a enterrar a CPI dos Correios e, numa dobradinha com Ságuas Moraes, candidato a deputado federal, sonha com a cadeira de senador
Quatro anos depois de ver "enterrada" a CPI dos Correios, que corria risco até de "matar" o seu governo, o presidente Lula prometeu retribuir, com apoio político e eleitoral, todo esforço do deputado Carlos Abicalil, candidato do PT ao Senado. Abicalil foi sub-relator da CPI dos Correios, criada em maio de 2005 com o objetivo específico de investigar as denúncias de corrupção nas estatais, mais especificamente, nos Correios. Seu foco, no entanto, foi deslocado pouco depois para a investigação da existência do mensalão, o pagamento mensal a parlamentares da base aliada pelo governo.
Governista de carteirinha, Abicalil atuou como defensor intransigente do Palácio do Planalto e foi um dos principais responsáveis pela isenção do governo do escândalo, que surgiu com a revelação da uma fita de vídeo, que mostra o ex-funcionário dos Correios Maurício Marinho negociando propina com empresários interessados em participar de uma licitação. No vídeo, o funcionário dos Correios dizia ter o respaldo do então deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ). Este, por sua vez, abriu o jogo e revelou detalhes do esquema do mensalão.
Na sub-relatoria da CPI, Abicalil ignorou provas sobre o esquema e enfrentou desgaste perante a opinião pública por causa desse posicionamento. Até hoje é chamado de engolidor de provas. Agora, Lula, em conversa com o próprio deputado mato-grossense, avisou que sua eleição para o Senado é prioridade. Primeiro, porque ambos são amigos e o presidente entende que Abicalil possui perfil ideal para representar o PT no Congresso Nacional, principalmente a partir da próxima Legislatura, já que o partido terá desfalques em seus quadros, como, por exemplo, de Aloizio Mercadante, candidato ao governo do Estado de São Paulo. Segundo, considera quase uma obrigação ajudar o parlamentar como espécie de moeda de troca e recompensa pela contribuição deste na salvação do governo dos escândalos.
Lula vai gravar mensagem de apoio a Abicalil para o horário eleitoral. Orientou também à direção nacional a contribuir financeiramente com a campanha do aliado. A tendência é que o deputado usufrua de grande estrutura logística. Foi a partir do respaldo de Lula que o empresário Altevir Magalhães, do grupo de Supermercado Modelo, aceitou entrar na chapa como candidato à primeira-suplência.
Dobradinha e escândalos
Abicalil está no segundo mandato de federal. Depois de derrotar Serys Marly nas prévias, num processo interno tumultuado e que deixou sequelas, tanto que a senadora não o apoia, decidiu concorrer a uma das duas cadeiras ao Senado, numa dobradinha eleitoral com o ex-governador Blairo Maggi (PR). Presidente regional do PT, Abicalil conduz também as negociações de bastidores para privilegiar a candidatura do amigo e da mesma tendência Ságuas Moraes, que concorre a deputado federal. Para fechar a chapa privilegiada petista, Abicalil faz campanha também para o amigo Alexandre Cesar. O grupo quer se manter no poder a qualquer custo, mesmo enfrentando desgaste. É acusado de manchar a imagem do PT por causa de escândalos, como o do dossiê antitucanos e do caixa 2 na campanha à Prefeitura de Cuiabá, em 2004.