Tenho relutado para escrever sobre os acontecimentos recentes em nossa cidade. Fico pensando se vale a pena expressar opinião sobre um assunto que já existe decisão. Realizar ou não o 30º Festival Internacional de Pesca Esportiva de Cáceres – FIP 2009, a meu ver já está decidido há um bom tempo. Senão vejamos.
Em meados de abril ou maio, na SEMATUR - Secretaria do Meio Ambiente e Turismo do município -, uma discussão pautava as reuniões: deveria reduzir ou não o número de dias do festival. A justificativa para tal atitude era de que reduzindo o número de dias iria diminuir o custo do evento além de contribuir na preservação do ambiente. Mas nada disso era verdade. Procurava-se, isso sim, maneira de justificar deficiência na gestão para captar recursos quer no Ministério do Turismo, quer na iniciativa privada. Deu início a política do pânico social também na área do turismo. Comecei a entender, então, o porquê se busca primeiro fragilizar uma sociedade. Entendo que realmente quando se ganha um jogo fora das regras, fica difícil ter compromisso com quem quer que seja.
A política do pânico social pode se alastrar em diversos segmentos sociais. Não menos perigoso a ação irresponsável de dirigente que detém a responsabilidade de gerir empresas, instituições, autarquias, fundações, etc. Podem trazer sérios prejuízos socioeconômicos. A decisão coletiva em audiências públicas duvidosas referenda atos autoritários e intempestivos, prejudicando ainda mais a qualidade de vida das pessoas.
Quando a atual gestão municipal decidiu privatizar o sistema de tratamento de água do município, mais uma vez a política do pânico se instalou. Publicou-se um decreto de emergência sem pé e sem cabeça. Os critérios não foram observados e algumas “autoridades” embarcaram na ideia, tudo pelo cooperativismo. Até o termo privatizar foi mudado para gestão compartilhada. O pânico social já estava instalado. Muitas pessoas procuraram informação, várias com orçamento precário sacrificaram ainda mais o orçamento familiar, passaram a comprar água mineral para suprir necessidade fabricada ou duvidosa. Ouviu-se nos quatro cantos da cidade que “a água está imprópria. Cuidado! Você pode morrer". E, assim, sucessivamente. Foi-se construindo um cenário propício para privatizar uma empresa que dava lucro para os cofres do município além de ser nossa.
Agora para completar e ratificar a política do pânico social, o gestor municipal atual resolve cancelar o maior Festival Internacional de Pesca Esportiva do mundo, o FIP, o orgulho de todos nós cacerenses e mato-grossenses.
Sob pretexto da gripe suína, cancela-se oportunidade de emprego, sacrifica a rede hoteleira, barcos-hotéis, restaurantes, bares e similares. Reduz a movimentação financeira em todos os setores econômicos. Pescadores do município não mais poderão prestar serviços de piloteiros aos turistas que participam da competição, deixando de ganhar uma diária alta, sem falar da venda de artigos de pesca, iscas etc., que não mais acontecerá. Descarta o esforço de vários anos de várias pessoas na condução de inserir o município como indutor de turismo. É mais um engodo empurrado goela abaixo para encobrir a falta de planejamento, incompetência administrativa, truculência, vaidade, etc. Equipe empossada por imposição jurídica e não pela vontade popular. Ingredientes indispensáveis no exercício da nova política que se instala: Política do Pânico Social.
Para finalizar, gostaria de expressar o amor que sinto por essa cidade. Mesmo ouvindo de pessoas esclarecidas que ter ou não o FIP é um problema de saúde e literalmente lavam suas mãos não com álcool como alguns; mesmo sendo desrespeitada no pleito de outubro, sigo acreditando em nossa gente e na nossa terra. Um dito atribuído ao filósofo romano Sêneca afirma: “Não há vento a favor a quem não sabe a que porto quer chegar”. Talvez sirva aos nossos dirigentes no momento de reflexão.
Patrícia Siqueira é ex-secretária de Meio Ambiente e Turismo de Cáceres, bacharel em Turismo, especialista em Planejamento, Gestão e Marketing/MBA em Gestão e Direito Ambiental