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Quinta-Feira, 07 de Julho de 2016, 13h:00 | Atualizado: 07/07/2016, 13h:06

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Nós ficamos apavorados, diz agente sobre ataques e rotina nas unidades

Mário Okamura

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 Sistema carcerário de Mato Grosso é superlotado e o trabalho realizado pelos agentes é considerado muito estressante

Após dias de tensão e desespero entre agentes penitenciários do Estado, devido aos ataques criminosos oriundos de facções de dentro dos presídios, a sensação hoje é de incerteza. A “agepen”, que prefere ser identificada como Roberta e atua na área há 17 anos, afirma que em todo este período nunca houve situação ofensiva como aos fatos ocorridos no início de junho.

“Se ficamos preocupados? Ficamos com medo não só por nós, mas pela família. Ora, você está lá na sua casa, de repente começam a atirar. Teve agente em que (bandidos) tiraram a grade do trilho da casa para entrar, o filho foi correndo e fechou a porta. Nós ficamos apavorados. Muito medo”, relata Roberta ao .

Ela conta que depois dos primeiros ataques, os agentes evitaram a sair, principalmente a noite, e evitavam certos lugares. “Eu penso que esses colegas que foram baleados e mortos estavam fazendo bico em certos lugares, daí reconheceram (bandidos) e não pensaram duas vezes”.

A agente se refere ao ex-agente socioeducativo Sidney Carlos da Silva Alves, de 40 anos, que foi baleado em 18 de junho, quando trabalhava fazendo uma escolta no bairro Sucuri. Além dele, o agente penitenciário do Centro de Ressocialização de Cuiabá, Aldo Halik, de 51 anos, foi assassinado, no bairro Jardim Florianópolis, na Capital.

Roberta ressalta que já atuou na Cadeia Pública de Várzea Grande, conhecida como Capão Grande, e na Penitenciária Central do Estado, antigo Pascoal Ramos. “Sempre que a gente faz paralisação tem as retaliações dos reeducandos, a gente toma sempre muito cuidado, mas dessa forma como ocorreu, nunca teve”.

Ela explica que antigamente os presidiários mandavam dar susto no agente em casa, mas sem nada de bomba ou armamento. “Geralmente jogavam algum lixo ou escreviam de alguma forma no muro da casa, mas desse jeito, com tiro, botar fogo em veículos, nunca vivenciamos”.

Rotina

Roberta relata que ao chegar à unidade avalia como foi o plantão anterior, checa se houve alguma denúncia e confere o armamento. Ela afirma que existe um setor de inteligência no sistema de Justiça, que colhe todas as informações com a direção e verifica se houve alguma denúncia de rebelião ou motim. “Porque eles têm o aparelho dentro das unidades para identificar”.

Depois entra na unidade e libera os raios onde ficam os presos. Em seguida checa o café, os remédios controlados, e libera o reeducando que estuda ou sair para fazer trabalhos fora da unidade, denominados “extra muro”. Roberta detalha que quando é necessário levar o reeducando para dentista ou médico, a condução é feita dentro da própria unidade.

“Só em caso de emergência e urgência, ou cirurgia que o médico marca, que a gente leva pra fora. Este trâmite leva o dia todo, advogados, juízes, promotores e policiais, familiares, assistente social, psicólogo, tudo nós temos lá. A gente coordena toda essa saída, o dia inteiro. Aí chega o jantar às 17h, e depois recolhemos e trancamos”.

Reprodução

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Imagem aérea da PCE mostra momento do banho de sol dos detentos

Tratamento

A agente conta que a única diferença em lidar com homens e mulheres detidos no sistema penitenciário, é a questão de superlotação. “Tem diferença sim, na Penitenciária Central do Estado (PCE) é superlotado. No cubículo que cabe 10 presos, tem 50. Então são vários dentro de um ala, muitos presos. Como tem 2 mil dentro da unidade, você trabalha por local, então dificulta muito”.

Segundo Roberta, no presídio feminino é menos complicado, tendo em vista que são 200 presas, sendo, muitas, esposas dos que estão na PCE. Quanto à intimidação em relação ao convívio com detentos, ela diz que isso não ocorre, porque existe a presença de outros agentes, além do mais, os presos a respeitam. “Eles não falam nada, não fazem nenhuma gracinha”.

Facilitadores

Questionada se passou pela situação de ser tachada de “facilitadora” para a entrada de objetos proibidos na unidade, Roberta explica que hoje existe um sistema de mercado dentro da unidade. “A quantidade de dinheiro já é estipulada para entrar e o dia determinado para isso. Tudo o que tem nos mercados fora da prisão, há dentro da unidade, inclusive cigarros. Eles compram tudo”.

A agente afirma que a família é quem leva o dinheiro para os detentos. No presídio feminino a cota é de R$ 150 por semana. No masculino, Roberta não soube informar a quantidade estipulada. Apesar disso, conta que a categoria sofre constrangimento. “Porque falam que o agente facilita. Mas se isso acontece, todos são fiscalizados, e se descobrem são exonerados, sem direito nenhum. Existe uma sindicância para isso”.

Sindicato

O Sindicato dos Servidores Penitenciários do Estado (Sindspen) foi criado em 2010, tendo João Batista como presidente desde então. Segundo o presidente, o Estado comporta 58 unidades prisionais, sendo seis penitenciárias, três Centros de Detenção Provisória (CDP) e 49 cadeias.

A população carcerária hoje é de 12 mil presos, que cumprem regime fechado. Destes, 2,5 mil se encontram em regime semiaberto e são monitorados, com tornozeleira eletrônica. Atuam no Estado 2,5 mil agentes penitenciários, contudo, outros 500 profissionais dão suporte, como médicos, psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, dentistas e setor de administração.

Sempre que a gente faz paralisação tem as
retaliações dos reeducandos, a gente toma
sempre muito cuidado, mas dessa forma
como ocorreu, nunca teve, relata agente

Em Cuiabá, são mil servidores e em Várzea Grande são 200 profissionais. Segundo João Batista, a demanda é insuficiente. Para se ter ideia, ele diz que a PCE comporta atualmente 2.114 presos para 800 vagas disponíveis, sendo 200 agentes designados para coordenar as ações na unidade. “Lá dentro é uma cidade, são cinco torres ocupadas, escolta, e movimentação diária de 300 presos”.

João Batista destaca que esta é a segunda profissão mais estressante do mundo, conforme apontam estudos. “A falta de investimento culmina no fato de ser uma profissão estressante”. Ele explica que as forças policiais não levam uma vida comum, por isso, muitos servidores são ameaçados.

O sindicalista relata que em Barra do Garças três agentes foram alvos de coquetel molotov, e em Sinop houve caso de um agente ter a casa incendiada. “Não tem qualidade de vida, vive assustado, tem a rotina totalmente alterada. Precisa ter vocação pra isso”.

Novas unidades

Hoje estão em construção duas novas unidades, sendo uma penitenciária em Várzea Grande, e que tende a ser a maior do Estado. A expectativa, segundo João Batista, é de que em seis meses 2 mil presos já estejam instalados na unidade, que deve comportar 1 mil vagas.

Segundo dados da secretaria estadual de Segurança Pública (Sesp), existem 12 mil mandados de prisão em aberto não cumpridos, devido não haver lugar para comportar os presos. Conforme o sindicalista, do início do ano até agora, segundo a Sesp, foram presas 2,5 mil pessoas. “Nem todos estão no sistema penitenciário, porque nas audiências os juízes acabam liberando os acusados, por não ter vaga para atender a demanda”.

Diante destas novas unidades, João Batista afirma que o governo já autorizou a abertura de inscrições para concurso público, para 714 vagas para agente penitenciário e 58 para PNS, que são profissionais de nível superior. Segundo ele, a comissão do concurso está em fase de contratação da empresa que fará o edital. “Até o mês que vem é para sair o edital”, conclui.

Galeria de Fotos

Credito: Gilberto Leite/Rdnews
Presidente do Sindspen João Batista
Credito: Gilberto Leite/Rdnews
Presidente do Sindspen João Batista
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Presidente do Sindspen João Batista
Credito: Gilberto Leite/Rdnews
Presidente do Sindspen João Batista
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Presidente do Sindspen João Batista
Credito: Gilberto Leite/Rdnews
Credito: Gilberto Leite/Rdnews
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Comentários (1)

  • Dorileo Mattos | Quinta-Feira, 07 de Julho de 2016, 13h08
    0
    0

    O importante é que o secretário diz que está tudo bem.

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