Cuiabá, 28 de Março de 2017

Arte e Cultura

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Sexta-Feira, 27 de Janeiro de 2017, 08h:08 | Atualizado: 27/01/2017, 15h:54

13 produções elevam audiovisual mato-grossense para novo patamar

O audiovisual mato-grossense acaba de receber um grande aporte de recursos para novas produções. Talvez o maior da história para criação de novas obras – excetua-se aqui volumes voltados à criação de mostras ou exibições, por exemplo – a partir de 2016.

Segundo divulgado pela secretaria de Estado de Cultura (SEC), serão investidos R$ 5 milhões a serem gastos ao longo deste ano. Desse montante, R$ 4,5 milhões serão oriundos do concurso para seleção de Projetos Audiovisuais, uma parceria da SEC, Agência Nacional de Cinema (Ancine) e Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), lançada ano passado.

Reprodução

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Dupla cuiabana de comediantes Nico e Lau faz parte do elenco de um dos filmes contemplados

Recursos estes a serem destinados a nove projetos contemplados em diferentes tipografias, divididos entre o R$ 1,5 milhão aportado pela SEC mais R$ 3 milhões pelo FSA. Essa contrapartida federal, afirma a comunicação da SEC, é inédita ao dobrar o valor investido por Mato Grosso.

Muito em termos locais, mas pouco quando se observa o volume movimentado pela cadeia produtiva do setor audiovisual no Brasil. Esse o mercado injetou, há dois anos, nada menos que R$ 24,5 bilhões na economia brasileira, de acordo com recorte de um estudo da Ancine. O setor vem crescendo gradativamente e a tendência é aumentar a partir deste ano. Para se ter uma ideia da curva ascendente, eram US$ 8,7 bilhões em 2007 e hoje é quase três vez mais.

De volta à produção em Mato Grosso neste ano, as nove obras em desenvolvimento são de curta, média e longas-metragens ficção e animação, telefilme documental e pilotos de produtos para a TV. O edital agora contemplado foi lançado em julho do ano passado e viabilizado por iniciativa da SEC, via chamada pública de Desenvolvimento de Projetos de Obras Audiovisuais, também inédita no Estado, lançada no final de 2015.

Entre os 44 trabalhos inscritos, cinco foram selecionados para receber recursos no valor de R$ 100 mil cada um, totalizando R$ 500 mil em investimentos.

Conforme o titular da SEC, Leandro Carvalho, o setor de audiovisual da pasta procurou contemplar projetos que trouxessem “abordagens variadas para múltiplos temas, alguns contemporâneos e outros que fazem parte da história dos que vivem em Mato Grosso”.

Mas houve espaço também para realizadores que procuraram se aprofundar em conceitos filosóficos para falar sobre relacionamentos e a percepção da vida, enquanto rito de passagem, em viés mais artístico, menos documental.

Assim, há de tudo um pouco no meio de 13 obras escolhidas via processo mais recente (o dos tais R$ 5 milhões). Há uma obra baseada na pretensa vida de Adolf Hitler pós Segunda Guerra, em Nossa Senhora do Livramento, mas há documentários sobre uma tragédia que matou crianças queimadas num barraco em Várzea Grande, as muitas celebrações populares até a biografia da poeta cuiabana Luciene Carvalho.

Angela Coradini

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Cena da produção Risos na Madrugada 2 que também será contemplado com recursos

Obras em pré-produção

Entre os mais artísticos e cabeçudos há Loop, um longa-metragem de ficção que pretende abarcar o eterno retorno, axioma desenvolvido pelo filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche, a partir do pensamento de outro alemão, Arthur Schopenhauer. A sinopse resume a história a uma viagem no tempo em busca de uma segunda chance.

Outro projeto contemplado é A Batalha de Shangri-Lá, a ser produzido pela Moleira Filmes. O roteiro abordará preconceito, rancor e perdão. O rumo é em torno de uma busca por identidade em meio aos preconceitos sociais e opressão masculina. O texto venceu o Desarrollo de Proyectos Cinematográficos Iberoamericanos 2015, da Fundación Carolina, da cidade de Madri, capital espanhola, e isso proporcionou aos criadores orientação de Karim Ainouz  e do roteirista argentino Tomàs Aragay.

O Anel de Eva, da Latitude Filmes, parte da morte do patriarca de uma família em uma pequena cidade do interior. Os conflitos dessa família e o encontro de objetos originários da Alemanha nazista são o entremeio. O filme será baseado na dissertação de mestrado da historiadora Simoni Renée Guerreiro Dias, para quem Adolf Hitler teria morrido no Brasil, mais especificamente em Nossa Senhora do Livramento, aos 95 anos, casado com uma negra, usando o nome de Adolf Leipzig e apelidado de Velho Alemão.

Há, ainda, dois documentários, Quem Tem Medo de Luciene Carvalho, da Leão Film, sobre vida e obra da poeta cuiabana, primeira negra da história a fazer parte da Academia Mato-grossense de Letras. Devem ser abordados a infância no Porto e o período difícil de tratamento de transtornos mentais, entre outras polêmicas. O outro é de uma produtora de Chapada dos Guimarães, Mata Grossa. A ideia é resgatar parte da memória feminina de Mato Grosso; na percepção deles, sempre contada pelos homens e, portanto, machista. É, portanto, meio de afirmar a participação feminina desde o nascimento até o desenvolvimento de Mato Grosso.

Outro filme da Leão Film, responsável pelo documentário sobre Luciene Carvalho é Aquele Disco da Gal, um curta-metragem de ficção previsto para durar 15 minutos (o tempo de exibição pode mudar na edição, sabemos todos) e pretende abordar as novas configurações familiares, com ênfase no vínculo entre pai e filha.

O média-metragem Alma Negra é uma ficção de autoria d’A Produtora Filmes e é inspirado na trágica história de três crianças que acabaram por perder a vida carbonizadas em um incêndio ocorrido em maio do ano passado em Várzea Grande. A mãe saía para trabalhar cedo e, para protegê-las, as deixava trancadas sob a tutela da irmã mais velha, de sete anos, que não conseguiu abrir a porta a tempo de salvar a si e seus irmãos de um e dois anos. O fogo fora causado por uma vela utilizada por elas para iluminar o pequeno barraco, pois este não tinha energia elétrica.

O outro curta-metragem de ficção é Juba, da Molera Filmes. O trabalho pretende refletir sobre as necessidades de milhares de jovens obrigados a fazer escolhas precoces que vão reverberar no futuro delas. A protagonista é uma artista de rua que sonha com a vida artística mas é mãe adolescente de baixa renda que é obrigada a fazer escolhas difíceis situadas entre arte e necessidade.

A mesma Molera Filmes também será responsável pelo curta Teodora Quer Dançar, sobre as lendas urbanas de Cuiabá. O texto dá ênfase nos conflitos de Álvaro, jovem e brilhante advogado que sempre priorizou a carreira e, de repente, se descobre profundamente apaixonado por uma jovem misteriosa que ele conhece na Praça da Mandioca. O filme reconta uma das mais famosas lendas urbanas da Cuiabá antiga, num viés contemporâneo, apresentando a cidade e os personagens como eles são hoje.

Reprodução

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Filme premiado sobre o mato-grossense Aroldo Maciel, que prevê terremotos e escreve a respeito

Bala Perdida, curta da MT Okamura, é ficção baseada em fatos verídicos. Segundo a SEC, o “pano de fundo” são “cenas extraídas da vida periférica da sociedade” tornadas mais leves com a “presença dos humoristas Nico e Lau”.

Por fim, há três pilotos de programa de televisão. Ciranda, da Leão Film, é obra ficcional seriada que engloba as questões de identidade de gênero e orientação sexual em 13 episódios com 14 diferentes relações afetivo/sexuais em cadeia. Há personagens cisgênero (pessoas que se identificam com o gênero físico de nascimento) e transgênero (pessoas que não se identificam com o gênero físico de nascimento) com diferentes orientações sexuais:  heterossexual, homossexual e bissexual.

Fé e Tradição, da Latitude Filmes, retrata as festas tradicionais mato-grossenses, como a Cavalhada, a Dança dos Mascarados e as festas de santo, entre outras.

Tem Que Ser Agora, da Latitude Filmes, última contemplada, é uma série ficcional com 13 episódios focados nas relações sociais e acadêmicas entre cinco protagonistas, seus professores e o universo estudantil. Ambientada em uma universidade federal que, com a expansão dos processos seletivos, reúne cada vez mais pessoas com diferentes bagagens e criadas em contextos diversos. A existência dos jovens, suas relações sociais, questão de gênero, relacionamentos profissionais e sexuais no meio acadêmico de uma grande universidade. Pretende relatar os jovens como eles mesmos se vêem.

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