Arte e Cultura

Sexta-Feira, 03 de Fevereiro de 2017, 08h:35 | Atualizado: 05/02/2017, 10h:13

CARNAVAL

Escola do RJ defende enredo e vê erro de interpretação do agronegócio

Valéria Del Cueto

Cahê Rodrigues

Carnavalesco e autor do enredo, Cahê Rodrigues aponta interpretação errônea das palavras da música

Uma vez mais Mato Grosso se vê em meio à polêmica envolvendo um samba-enredo de escolas da elite do Carnaval carioca.

O coro dos aviltados começou depois da divulgação do samba-enredo da escola de samba Imperatriz Leopoldinense, Xingu, o Clamor que Vem da Floresta, e a reação indignada de setores da sociedade local - mais notadamente ligados ao agronegócio-, que resolveram se manifestar fortemente contra a letra - conheça no fim da matéria.

Antes, o problema ocorrera em torno do enredo encomendado pela Prefeitura de Cuiabá à escola de samba Estação Primeira de Mangueira a um custo de R$ 3,6 milhões, mediante contrato assinado no fim de 2012 com o então prefeito Chico Galindo (PTB) e que chegou até mesmo a ser investigado pelo Ministério Público Estadual.

Produtores locais e defensores deles nas assessorias técnicas e de comunicação se apressaram em manifestar repúdio contra os versos “Sangra o coração do meu Brasil/ O belo monstro rouba as terras dos seus filhos/ Devora as matas e seca os rios/Tanta riqueza que a cobiça destruiu/Sou o filho esquecido do mundo/ Minha cor é vermelha de dor/ O meu canto é bravo e forte/ Mas é hino de paz e amor” - veja este e outros enredos no vídeo abaixo.

A repulsa dos primeiros interessados foi viralizada via mídias sociais. Sob o título “Escola de samba do RJ vai criticar agro na Sapucaí”, várias entidades de produtores, um canal de televisão de agropecuária e outros geraram milhares de comentários, compartilhamentos, reações. Sobraram adjetivos não muito amigáveis ao estilo de vida carioca, dos carnavalescos e todos envolvidos (de acordo com pensadores e haters).

Não houve espaço - como lembrou a jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval Valéria Del Cueto, que cobre, acompanha e estuda a festa no Rio de Janeiro há 11 anos - para lembrar de outros anos, quando o agronegócio foi exaltado e rendeu até mesmo título de campeão a uma escola, como aconteceu no mais recente, em 2013, sob o nome de A Vila Canta o Brasil, Celeiro do Mundo, patrocinado pela gigante alemã de produtos químicos e, por consequência óbvia, defensivos agrícolas Basf.

Também foi esquecido o enredo Parábola dos Divinos Semeadores, de 2011, da escola Mocidade Independente de Padre Miguel (CNA) ou o vice-campeonato do ano passado, para a Unidos da Tijuca e seu Semeando Sorriso, a Tijuca Festeja o Solo Sagrado. No desfile da Unidos da Tijuca, aliás, havia alas onde eram representados a derrubada das matas, aviões agrícolas aplicando defensivos, colheitadeiras, arados.

Mário Okamura

enredo_1

 Conheça, acima, a íntegra da música que tem provocado polêmica em Mato Grosso

“E, sim, uma fantasia similar a uma das que estão causando protestos. As composições de carro com lindas larvas do último carnaval reaparecem numa ala chamada Fazendeiros e Seus Agrotóxicos. Mas lá podia”, lembra Valeria. “Olhos da Cobiça e Doenças e Pragas, fantasias de alas comerciais, são apresentadas como provas cabais de que com o enredo de 2017 a Imperatriz é inimiga mortal do agronegócio. Três fantasias num universo de mais de 30 alas, num total cinco mil componentes fazem o link megalômano”, critica a especialista.

Para ela, houve pressa e erros de interpretação quanto ao cerne do enredo da escola de Ramos. “Serão todos os agricultores do Brasil os vilões citados no samba enredo que diz que o belo monstro rouba a terra de seus filhos, devora e seca as matas e seca os rios, tanta riqueza que a cobiça destruiu? Ou seria Belo Monte, a usina hidrelétrica? O que será pior: quem veste a carapuça de destruidor do meio ambiente ou quem deveria reconhecer que, por não ter feito a lição de casa, novamente a nota de interpretação de texto não dá pra passar de ano?”, ironiza Del Cueto.

O carnavalesco e autor do enredo da Imperatriz Leopoldinense, Cahê Rodrigues, atribui o problema a mera interpretação (errônea) das palavras compostas por ele. “Desde o início o objetivo desse tema foi exaltar os povos do Xingu dando voz a esses índios que lutam durante tanto tempo, tantas décadas, em prol da sua liberdade, do respeito com a sua terra, pela sua cultura, pelo seu povo. A proposta do enredo da Imperatriz é uma exaltação aos índios do Xingu. Eu realmente não esperava uma repercussão negativa na área do agronegócio”, defende-se.

Rodrigues também esclareceu que o enredo deste ano não foi patrocinado e foi escolhido entre três outras ideias por causa do apreço pessoal dele pelo tema do Xingu e os povos que lá vivem. “Era um desejo meu um dia poder exaltar os índios em algum dos meus enredos”. Ele, como Del Cueto, lembra que o agronegócio sempre recebeu homenagens muito bem sucedidas por parte das escolas de samba cariocas.  “A própria Imperatriz, no último carnaval, fez uma homenagem à vida do sertanejo, à vida do caipira. Exaltou o trabalho do agronegócio, dos agricultores, na figura do caipira, do homem do campo, e com muito orgulho levou essa história para o sambódromo”, argumenta.

O carnavalesco garante que seu trabalho é de exaltação e respeito ao ser humano, independente de raça ou origem , feito para exaltar não só os índios do Xingu, mas todo indígena brasileiro. “A proposta do enredo não é agredir ninguém, mas eu não vou omitir nem vou deixar de mostrar na avenida aquilo que de fato agride, sim, a vida do índio”, aponta com firmeza.

Para ele, o clamor da floresta a ser levado pela Imperatriz à avenida é para que todos possam olhar para as nações indígenas do Brasil “com o respeito e o carinho que eles merecem”.

Outro lado

Procurado para falar sobre o assunto, o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), Normando Corral, informou por meio de sua assessoria de comunicação que a entidade não vai se manifestar sobre o assunto. Foi enviada, então, uma nota, transcrita como chegou à redação.

Veja, abaixo, a nota

  • Entidades do Agro de Mato Grosso e Aprosoja Brasil se posicionam sobre samba-enredo da Imperatriz Leopoldinense
  •  O Brasil já foi reconhecido internacionalmente como o país do futebol e do Carnaval. Hoje a realidade é outra: também somos reconhecidos como grande líder na produção de alimentos de forma sustentável, destacando-nos fortemente frente a outros países no mundo. Conquistamos estas posições graças ao talento, à criatividade e ao trabalho do povo brasileiro.
  • Por respeitar a manifestação cultural do Carnaval e reconhecer seu poder em divulgar a cultura e a história brasileiras, as entidades que representam a agricultura e pecuária de Mato Grosso e a Aprosoja Brasil vêm a público manifestar sua preocupação na forma com que a Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense irá abordar a atividade agropecuária no seu samba-enredo deste ano, cujo tema é “Xingu, o Clamor da Floresta”.
  • Preocupa-nos sobremaneira a forma como a escola contextualizou o samba-enredo e as fantasias abordando negativamente alguns dos aspectos da produção, como a ocupação das terras e a utilização de defensivos.
  • Se não fosse a evolução tecnológica que conquistamos ao longo dos anos, certamente não chegaríamos à produção sustentável que temos hoje, que permite elevar a produção de alimentos na mesma área, sem a necessidade de novas aberturas.
  • Como disse o ganhador do prêmio Nobel da Paz em 1970, Norman Ernest Borlaug, referindo-se à agricultura mundial: “Para aqueles cuja principal preocupação é defender o ‘ambiente’, vamos olhar o impacto que a aplicação da agricultura baseada na ciência teve sobre o uso da terra. Se a produtividade dos cereais de 1950 tivesse permanecido em 1999, teríamos precisado de 1,8 bilhão de hectares adicionais de terra da mesma qualidade, em vez dos 600 milhões que foram usados”.
  • Respeitamos a licença poética dos carnavalescos, mas esperamos que a criatividade artística não reforce opiniões preconceituosas e errôneas sobre a atividade agropecuária com informações que não correspondem à realidade de quem vive o campo.
  • Somos o único país com 61% das espécies nativas resguardadas em terras indígenas, unidades de conservação da biodiversidade, Áreas de Preservação Permanente e Reserva Legal. Somente 27,7% do território brasileiro é [sic] destinado [sic] à agropecuária. O Agro brasileiro é obediente a uma das mais severas e rigorosas legislações sociais e ambientais do mundo.
  • O Agro também é motivo de orgulho. 
  • Famato, ACRISMAT, AMPA, APROSMAT, Aprosoja e Aprosoja Brasil 

Galeria de Fotos

Credito: Valéria Del Cueto
Carro lagarta agrotóxico combate
Credito: Valéria Del Cueto
Ala fazendeiros e seus agrotóxicos
Credito: Valéria Del Cueto
Ala fazendeiros e seus agrotóxicos
Credito: Valéria Del Cueto
Carnavalesco e autor do enredo da Imperatriz Leopoldinense, Cahê Rodrigues

Postar um novo comentário

Comentários (2)

  • Alex | Sábado, 04 de Fevereiro de 2017, 07h35
    1
    0

    Luiz, se nós brasileiros não explorarmos nossas riquezas, alguém irá explorá-la. Não podemos comprar essa ideia de que o agronegócio faz mal ao Brasil, quando sabemos que não faz. O ambientalismo foi plantado na cabeça dos brasileiros para impedir o desenvolvimento do país. Sugiro à você ler o livro "Máfia Verde" de Lorenzo Carrasco.

  • luiz | Sexta-Feira, 03 de Fevereiro de 2017, 10h36
    4
    3

    Parabéns pelo enrendo, já passou da hora da sociedade discutir e alertar sobre distruição das florestas e rios e animais esses barãoes do agronegocio é pior que praga destroi tudo que estiver em pé. mato grosso hoje devido estas ações chamar de mato fino. diretas ja

Matéria(s) relacionada(s):

Leitão ainda é incógnita ao Senado

nilson leitao curtinha   Nilson Leitão (PSDB) não está convicto de que será candidato ao Senado. Vai manter o projeto até o final de maio. E, caso não se viabilize, mesmo tendo duas vagas em jogo, buscará o terceiro mandato como federal. Assim como para o Senado, Leitão enfrentará...

Candidatos para todos os gostos

O cenário que se desenha, com os principais nomes a governador, é que o eleitor terá candidatos para todos os gostos. Os nomes colocados, até agora, já foram testados no Executivo e/ou Legislativo. Os mais notáveis são Taques (PSDB), Wellington (PR), Rossato (PSL) e Pivetta (PDT), que tende a substituir Mauro (DEM). O primeiro foi senador e, agora, apresenta os resultados de seu primeiro mandato como chefe do Executivo estadual. Pivetta foi...

Binotti critica "jogo de cena" de Jiloir

binotti curtinha lucas   Assim como fez com os demais que comandaram a prefeitura, o presidente da Câmara de Lucas do Rio Verde, vereador Jiloir Pelicioli (PDT), passou a criticar de forma dura o prefeito Luiz Binotti (foto), do PSD. Em sessão nesta semana, disparou de novo a metralhadora giratória, afirmando que Binotti...

Aliados de Suelme entregam cargos

corgesio albuquerque curtinha   Mais uma confusão no Palácio Paiaguás em meio a conspirações e brigas por cargos e espaço político. O governador decidiu tirar do 1º escalão a recém-nomeada Vanessa Queirós da pasta de Agricultura Familiar e Assuntos Fundiários para...

Alguns ex-aliados fora do manifesto

fabio garcia curtinha   Nem todos da lista de fortes aliados da gestão Taques e que, gradativamente, foram se distanciando do Palácio Paiaguás assinaram o manifesto contra o projeto de reeleição do governador do PSDB. Eis dois exemplos: os deputados federais Fábio Garcia (foto), do DEM, e Adilton Sachetti...

Ex-aliados em dura reação a Taques

carlos favaro curtinhas   Nunca na história deste país se juntaram tantas lideranças que eram aliadas e que agora estão contra o projeto de reeleição do governador Taques. Nada menos que 31 assinaram manifesto, expondo as razões de terem pulado do barco, entre eles 4 ex-prefeitos, como Mauro Mendes...

Blairo "lava as mãos" sobre o PP-MT

ezequiel fonseca curtinha   O senador licenciado e ministro Blairo Maggi (Agricultura) "lavou as mãos" em relação ao PP-MT, hoje tocado no Estado pelo deputado federal Ezequiel Fonseca (foto). Em algumas reuniões internas, o ex-governador defendeu que o partido abrisse as portas para novos filiados, independente destes...

Suplente se articula para cassar Diego

demilson nogueira vereador curtinha   O suplente de vereador Demilson Nogueira (foto), dirigente do PP de Cuiabá, está se articulando nos bastidores para derrubar o titular da cadeira Diego Guimarães, do mesmo partido. Ele juntou documentos, fotografias, discursos e registro de solenidade para tentar cassar o mandato de Diego....

Governo veta Maldonado à Unemat

adriano silva caceres curtinha   O suplente de deputado Adriano Silva (DEM), ex-reitor da Unemat, com sede em Cáceres, está revoltado com governador Taques. Enquanto atuava como deputado, substituindo o dono da cadeira Botelho, Adriano apresentou neste ano um projeto, aprovado em duas sessões, "rebatizando" a Unemat como...