Cuiabá, 28 de Março de 2017

Arte e Cultura

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Sexta-Feira, 10 de Fevereiro de 2017, 08h:20 | Atualizado: 12/02/2017, 04h:41

Rosylene mostra convicção na força do amor com sutil intensidade

Cada bancada tem altura para os cadeirantes e os cegos podem tocar obras em seus vários estágios

Gilberto Leite

rosylene pinto

Rosylene Pinto faz sua primeira exposição individual. Trabalho usa como base a cerâmica cuiabana

A artista plástica Rosylene Pinto estreou recentemente sua primeira exposição individual na Galeria de Artes do Sesc Arsenal.

Intitulada Toda Forma de Amor Valerá, a exposição segue aberta à visitação gratuita até 24 de março.

Nela, é possível observar as obras produzidas essencialmente em cerâmica tradicional cuiabana, feita a partir do barro.

 O objetivo da mostra, como o próprio nome entrega, é representar toda e qualquer forma e espécie desse sentimento que a humanidade tenta definir desde a pré-história, em pinturas rupestres, tomou a cabeça da maioria dos filósofos da antiguidade, foi “desconstruído” (pra usar um termo contemporâneo) por gente como o alemão Arthur Schopenhauer, mas jamais deixou de ser urgente, inescapável, na vida de todos.

Cuiabana de 48 anos, Rosylene revela que seus passos em torno da arte começaram ainda com os primeiros na vida. Desde criança a aptidão e apreço se manifestava por meio da observação de seu pai, desenhista autodidata; sua avó, ceramista.

Esses laços familiares, a primeira manifestação de amor conhecida por todos, é bastante representada na mostra. Há pais, mães, filhos e avós. Há também amor fraterno, mas o que toma conta mesmo é o amor de Eros, lá representado em aceitação a todas suas manifestações. Livre, entre mais de duas pessoas, na expectativa jamais silenciosa dos relacionamentos que começam, no coração partido daqueles que decepcionam.

Mas a palavra de ordem é sempre o recomeço, pois é sentimento sem fim e, portanto, também sem início. Perene em seu fluxo constante.

É a sensação cuidadosamente calculada por ela – sua formação acadêmica talvez dê uma pista do porquê: é engenheira – para arrebatar o visitante. Logo na entrada é possível ver uma verdadeira nuvem de corações pendurados ao fundo. Bem ao lado da porta, quem recebe é a própria artista e o gato dela, Dengo.

Galeria: Toda Forma de Amor Valerá

“Cada bancada tem uma altura proporcional para os cadeirantes, porque sempre quisemos dar a eles o campo de visão adequado conforme o tamanho da escultura”, explica Rosylene, explicando o cuidado específico com a acessibilidade total à sua primeira exposição.

Nessas mesmas bancadas os nomes delas são escritos, além de português e inglês, em Braille. No último cômodo da exposição, os deficientes visuais podem tocar as obras em seus vários estágios: enquanto barro somente esculpido, depois de queimado, após queimado e pintado e, por fim, em sua força criadora, o fogo.

Caminhando pela galeria, Rosylene vai descrevendo as várias estações do amor de acordo com o concebido nas obras construídas especificamente para a mostra (e que estão com 85% já vendidas). “Tudo começou a partir da frase de uma música do Milton Nascimento, Paula e Bebeto, que diz assim: Qualquer maneira de amor vale aquela/ Qualquer maneira de amor vale amar/ Qualquer maneira de amor vale a pena”. Devido ao suporte utilizado na mostra – porque Rosylene também trabalha com xilogravuras, fotografia, pintura em tela e desenho – esculturas em cerâmica, ela subverteu o verso para colocar forma no lugar de maneira.

E subverter percepções apressadas, preconceituosas, também foi objetivo de primeira hora, conta a artista, ressaltando a preocupação com a acessibilidade e a representação, por exemplo, do amor religioso em mesma medida que amores homoafetivos, poliamores, solidário, à natureza e fraterno.

Trajetória

Gilberto Leite

rosylene pinto

Rosylene Pinto mostra seu trabalho ao Rdnews. Ateliê de artista plástica fica na sua residência

A carreira da artista começou em 1999, quando ela juntou-se a um grupo de artistas orientado pela professora Vilmali. Naqueles tempos, pintura em tela. Quatro anos depois, começou com as esculturas em cerâmica figurativa. Os outros suportes, xilogravura, desenho e fotografia vieram na sequência.

Rosylene já participou de diversas exposições coletivas com destaque para a Mostra de Arte Contemporânea dos Artistas de Mato Grosso, sob a curadoria de Divino Sobral (2013), em Cuiabá-MT; Salão de Artes de Mato Grosso, com a obra “Conectados” (2014); Mostra Inaugural coletiva da Galeria Mirante das Artes (2014); Salão Naif da ACUBÁ (2014), na Galeria N’Artes; Exposição Coletiva Pintando sobre a Copa e as Belezas de Mato Grosso (2014) MACP/UFMT; Exposição Coletiva de Arte Fecundo Cerrado (2014);  Exposição Coletiva Prova de Artista, Xilogravura (2015), foi convidada a participar da exposição Poesia do Corte e da Linha, de Lasar Segall, com gravuras em metal e xilogravuras, exposição coletiva Cidade em Arte, com os artistas Clovis Irigaray, Victor Hugo e Rafael Jonnier (2016), na inauguração da Galeria de Arte Luiz Beccari  e exposição coletiva Natureza Substantivo Feminino.

A curadoria de Toda Forma de Amor Valerá é das doutoras Imara Quadros e Ruth Albernaz. Sobre ela, escreveram as duas, “sua memória afetiva traz a materialização de pequenos gestos que podem ser interpretados como manifestações do amor, os quais a artista nos oferta um dinamismo na composição que é fruto de novas experimentações e aprendizado que engendra a matéria-corpo, um figurativismo. Sua escultura parece ser matéria para um imbricado de percepções antropológicas e sociais numa tríade corpo-escultura-mundo”. 

A galeria do Sesc Arsenal fica aberta à visitação de terça a sábado, das 14 h às 21h, e domingo e feriados das 15h às 21h.

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