Arte e Cultura

Sexta-Feira, 03 de Fevereiro de 2017, 08h:35 | Atualizado: 05/02/2017, 10h:14

Slam poetry cresce e expande o poder da literatura falada em Cuiabá

Ilustração

Slam poetry

Slam poetry é uma modalidade artística performática que surgiu na década de 80 em Chicago, EUA

A seguir o velho adágio judaico de que no princípio era o Verbo, os adeptos do slam poetry promovem encontros de poetas cujo objetivo é apresentar seus textos de maneira recitada, em performances onde se prioriza o poder da palavra enquanto som e significado.

É uma modalidade artística performática nascida nas ruas de Chicago, em meados dos anos 1980, por obra e iniciativa de um grupo de trabalhadores da construção civil norte-americana.

Diferentemente do que acontece em Cuiabá e no Brasil, essa é a maior proximidade da arte com o rap.

A variedade dos temas também é uma marca nos países onde ela é praticada, como Alemanha, França, Bélgica Irlanda, Inglaterra, Austrália, Zimbábue, Madagascar, Israel, Singapura, Polônia, Itália e mesmo os Estados Unidos. Enquanto aqui a maior parte do que é falado envereda pela denúncia social, nos outros países se canta de tudo: da efemeridade das horas ao inferno da depressão. Há denúncia social, mas o gênero não reduz-se ela - veja vídeos.

Na Capital, uma das primeiras reuniões de slammers aconteceu sábado (28) passado e seguiu o modelo norte-americano: com regras definidas, os recitadores competiam entre si e submetiam sua performance e textos ao escrutínio popular. Dois dos promotores do evento, eles mesmos também poetas, Emily Almeida, 22 anos, e Luís Guilherme Raeder, 21, contaram ao que começaram a praticar as recitações por meio do rap. “Sou de Minas Gerais, mas morava em São Paulo, onde há muito slam. Aqui, há uma grande gama de MCs que fazem slam”, explica Emily.

Ela e Raeder entendem e praticam o slam poetry como uma espécie de esporte de poesia falada. Para os dois, é “uma grande celebração coletiva, uma verdadeira zona autônoma da palavra, onde o sagrado direito à expressão é exercido e o tempo cronológico é suspenso e substituído por um tempo poético”, conforme escreveram na página deles (Slam do Capim Xeroso) no Facebook. Esclarecem, entretanto, que muito além do aspecto competitivo, o poetry slam ganha espaço e popularidade no mundo exatamente por causa de seu caráter comunitário e inclusivo.

Para se ter uma ideia, um evento acontecido em outubro de 2016 em Hamburgo, Alemanha, reuniu nada menos que 15 mil pessoas, entre competidores e slammers, segundo matéria do site Deustche Welle.

Gilberto Leite

Poeta  Emily Almeida

Emily Almeida avalia que poetry slam ganha espaço e popularidade no mundo por causa de seu caráter comunitário

A diversidade de origens, idades e crenças encontram unicidade na celebração da poesia enquanto ato. E, paradoxalmente, chamar esse ato de poesia também é o motivo pelo qual muitos rappers que também são slammers cuiabanos tenham dificuldade de se reconhecer enquanto poetas, argumenta Emily. “No nosso primeiro encontro, só um MC participou exatamente por causa dessa dificuldade em se reconhecerem poetas”, conta.

Raeder observa que o objetivo é manter ao menos uma vez por mês uma competição/apresentação de slam na rua Ricardo Franco, nas imediações da Praça da Mandioca, a exemplo da ocorrida sábado passado. Ele e Emily mantêm o projeto Slam do Capim Xeroso com objetivo de “fomentar literatura e arte” onde estiverem. Assim como ela, Raeder chegou ao slam pela cidade de São Paulo.

Em todos os eventos as únicas regras são as das edições dos slams internacionais: todos os poemas devem ser de autoria de quem o vai recitar, com no máximo três minutos, e a proibição explícita de acompanhamento musical, figurinos ou adereços.

Como a intenção é celebrar a rua e a vivência nela, essa exaltação da palavra em performance parte do princípio de que todo indivíduo é capaz de emitir uma opinião válida sobre arte, sem necessidade de formação acadêmica ou técnica para isso. É o motivo de os cinco juízes serem selecionados entre os membros da plateia. E estes também devem se submeter a regras específicas, com uma tabela de penalidade, inclusive ao slammer que exceder, por exemplo, o tempo de apresentação.

Emily e Raeder buscam agora meios de viabilizar a ida dos vencedores das várias etapas que vão realizar na Mandioca ao longo do ano para a competição nacional, em São Paulo, a ser promovida pelo coletivo Slam Resistência. “Vamos tentar mandá-los com no mínimo passagem e hospedagem”, conta. Quem venceu a edição passada foi a poeta Pacha Ana.

“Sempre vamos fazer uma edição a cada final de semana na quebrada, intercalada com as edições aqui na Mandioca. Neste sábado (4), vai acontecer lá em Várzea Grande, depois vamos fazer no CPA e por fim no Pedra 90, antes de trazer de volta aqui para a Praça da Mandioca. As edições daqui serão realizadas no último sábado de cada mês, porque a intenção é trazer a cultura e a periferia para o centro”, esclarece Emily. 

Além deles dois e pelo menos outros 10 slammers ligados ao grupo deles, quem também resolveu militar na causa da recitação sem música ao microfone é a escritora e imortal Luciene Carvalho. Ela e o marido, Mano Raul chegaram a participar, ano passado, da Festa Literária das Periferias (Flupp), na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro.

Slam Resistência - Mariana felix

 

Patrick Roche - "21"

Neil Hilborn - "Me, But Happy"

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