Cuiabá, 28 de Março de 2017

Gastronomia

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Sábado, 04 de Fevereiro de 2017, 09h:00 | Atualizado: 07/02/2017, 12h:39

Prestes a completar 118 anos, Feira do Porto tem de tudo - veja fotos

Uma verdadeira paleta de cores existe há 118 anos na região do bairro mais antigo da Capital. Com uma pequena realocação de poucos metros (ocorrida há 22 anos, em 1995, pelas mãos do então prefeito José Meirelles), o Mercado do Porto – antiga Feira do Porto – abriga ingredientes, especiarias, todo tipo de carne e vegetais, mas não só. Modernizada, tem até barracas de roupas e produtos eletrônicos made in China. E também, óbvio, gente, muita gente.

Os 26.480 metros quadrados da área do antiquíssimo Campo do Bode abrigam hoje três dezenas de açougues, pelo menos duas dúzias de bancas de peixes de todos os tipos (advindos das ricas águas mato-grossenses ou de criadouros), além de outras três dúzias de barracas e quiosques de queijos, doces, aves abatidas, cereais e especiarias.

Galeria: Feira do Porto

Hortaliças, frutas  e uma de raízes completam a superlatividade dos números, odores e sabores, pois estas ultrapassam a centena. Também há artesanato e confecções.

Redescoberta há poucos anos pelas novas gerações, hoje é point dos mais diversos tipos de frequentadores locais e turistas. Gente que chega da balada às 05h, 06h atrás dos caldos de mocotó, feijão e outros lá servidos ou para tomar mais uma e esperar a sempre farta hora do almoço comendo um pastel e bebendo uma garapa (pros de fora, caldo de cana) em qualquer uma das 14 lanchonetes e restaurantes ali localizados.

Comida típica de boa qualidade e feita ainda em sistema caseiro, apesar do maquinário moderno. Lá, continuam sendo as dezenas de cozinheiras a se encarregar de fazer sofrer quem pra lá se dirige com fome, no meio de uma manhã de céu estourado de azul e nuvens encapeladas, com uma verdadeira sinfonia composta pelas notas do cheiro da comida sendo feita a tomar conta do lugar.

Gilberto Leite

 Reiko Funakawa, dona Laura

Reiko Funakawa, dona Laura (nome brasileiro), vende especiarias há 33 anos na feira do Porto

É nesse cenário que passou a maior parte das horas de 33 de seus 85 anos de vida a dona Reiko Funakawa, uma japonesa nascida na mais fria ilha do Japão, Hokkaido, mas que o destino e gosto tornaram cuiabana. Vendedora de todo tipo de tempero e especiarias, dona Laura (nome brasileiro, um costume adotado por todos os japoneses que no Brasil vivem), como é conhecida, faz questão de ainda hoje tocar ela mesma o comércio de sua família.

Ativa, bem disposta, não pensou em parar nem mesmo quando a vida fez daquelas que faz com todos, levando embora seu marido, morto no começo do ano passado.

Gosta de acordar cedo – às 04h, para tomar café, se aprumar e abrir a barraca às 06h.

Resume tudo, momentos bons e difíceis, à frase usada para descrever como foi que começou, há mais de três décadas, a trabalhar ali. “Tem que trabalhar, né? Eu tinha vindo para Cuiabá com meu marido lá de Maringá, no Paraná. Aqui, não tinha trabalho. Eu saía caminhando pela cidade, procurando. Aí um dia eu andava pela feira antiga e vi uma barraca com uma placa de vende-se. Compramos e daí em diante só trabalhei com isso”. Da lida na barraca viu nascer as netas, filhas da filha que a ajuda.

Quem por lá também vê dançar a existência e de lá retira o sustento há mais de três décadas é seu Isidoro Almeida, 50 anos, o raizeiro do lugar. Para muitos, o cura tudo da feira. A especialidade com as raízes, garrafadas e misturas conta já 23 anos. “Mas antes, durante dez anos, vendia condimentos e especiarias”, coisas que, considera, são muito próximas.

Ele explica ter remédio natural pra praticamente tudo. Como faz isso desde que se lembra por gente -- “meu pai também é feirante. Cresci embaixo de uma banca de feira” --, criou amizades e cultivou clientes fieis. Vende inclusive para outros feirantes. 

Gilberto Leite

Ariana-porto

Ariana revela que vende cerca de 50 kg de serenadas, 300 kg de carne e outros 150 kg de linguiça

No lugar, como tudo na vida, há também os jovens em início de navegar. É o caso de Júnior, 24 anos, e Caroline Marques, 23.  Eles têm uma barraca de frutas. A surpresa vem da profissão dele – engenheiro civil, e não tanto da dela, engenheira também, mas de alimentos. Eles contam que o marido trabalhou durante dois anos em outra barraca, como empregado, como maneira de ajudar a manter-se enquanto estudava. Há um ano, comprou a própria banca. Os números em quilos dos produtos impressionam: em média vendem duas toneladas de laranja, outra de melancia e pelo menos 500 quilos de frutas diversas por semana.

Outro casal cuja meio de vida foi encontrado ali é formado por Ariana e Josimar. Eles são donos de um dos açougues do lugar. Especializados em carne suína, ali trabalham há 10 anos. Uma das especialidades, além das linguiças, é a carne serenada. Vendem, em média, 50 quilos das serenadas, outros 300 de carne de porco, mais 150 de linguiças diversas.

Como eles, acompanhar as idas e vindas dali é o que faz dona Verônica, proprietária de um quiosque de queijos, doces, grãos, licores, massas para pastel e pizza há 33 anos. Ela explica à reportagem que algumas figuras ilustres, como os ex-governadores Dante de Oliveira e Jayme Campos, costumavam ser seus clientes. Diretos ou indiretos. “Dante gostava muito da rapadura de cana e da de massa. Quando não vinha comprar, pedia para a Dona Nilda, da Peixaria Popular, comprar e levar para o restaurante, para ele comer de sobremesa", expõe.

"Cresci embaixo
de uma banca
de feira" - Isidoro

“Cheguei a vender duas mil rapaduras de cana e de milho nos velhos tempos, da feira antiga. Hoje, nem há mais quase quem as faça”, lamenta Verônica. Ela explica que daqueles velhos tempos, alguns dos clientes ilustres se mantiveram, como Roberto França e o agora governador Pedro Taques, que costumava frequentar o Mercado até pouco tempo. “Roberto França continua vindo à feira direto”.

Todos, conhecidos ou anônimos, vão em busca de, talvez, momentos de alívio, guardados, quem sabe, no pastel e garapa vendidos na Pastelaria Takinami há bons 30 anos. Uma das trabalhadoras do lugar, dona Lindinalva, acabou de fazer dois anos em meio à rotina dali.

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Há 33 anos na Feira do Porto, Verônica diz que entre os clientes ilustres da sua banca estão os ex-governadores Dante de Oliveira (já falecido) e Jayme Campos

Ela explica que o segredo do sabor dos salgados lá vendidos (saem quase mil pasteis/dia no sábado e domingo), além das centenas de outros salgados de segunda a sexta, é o frescor e a produção diária. “Nada fica para o outro dia, tudo que fazemos (os assados ficam prontos ainda de madrugada, pois começamos às 03h) é consumido no mesmo dia. Tudo é feito com ingredientes bem frescos”, esclarece. 

Um gosto de mãos atentas e vontade de fazer o melhor compartilhado também por dona Jucélia Rodrigues, localizada poucos metros à frente, numa barraca de queijos, salames, doces, castanhas, molhos de pimenta de pequi, biscoitos, doce de banana sem açúcar. “A maioria do que vendemos é de produção artesanal, própria ou terceirizada, mas sempre artesanal, não industrial”.  Esse cuidado maior com as horas por parte dos trabalhadores termina por proporcionar a quem frequenta momentos de diversão, lazer e, óbvio, boas compras.

O Mercado do Porto fica localizado às margens do córrego Oito de Abril, perto de seu fim, já quase às margens do rio Cuiabá, a cerca de 50 metros de onde era localizado antigamente, ainda como feira livre, no largo do Mercado do Peixe, hoje, Museu do Rio, bairro do Porto.

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Comentários (4)

  • Catherine | Quarta-Feira, 08 de Fevereiro de 2017, 11h01
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    Excelente matéria! Tudo bem que tem que reformar, mas temos que cobrar da prefeitura. La tem gente batalhadora que esta lutando pelo ganha pão da familia. Gosto de fazer compras no fim de semana e ver o movimento e calor humano. Tudo fresquinho e selecionado.

  • LUCIO ALMEIDA | Segunda-Feira, 06 de Fevereiro de 2017, 11h53
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    Na realidade, a feira do porto deveria ser melhor cuidada ; passar por reforma geral ; ter bancas melhores estruturadas ; banheiros adequados ; é lugar muito agradável e ,por isso mesmo,deveria ter tratamento mais adequado.

  • Lázaro | Segunda-Feira, 06 de Fevereiro de 2017, 09h29
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    Bonita a reportagem ao falar das coisas boas. Agora falta melhorar algumas situações como o estacionamento ,por exemplo. Aquilo ali tá parecendo o trânsito na Índia. Tenho observado também a sujeira no telhado. Poeira e teias de aranha. Entretido com o que vai comprar ninguém olha para cima.

  • Robert Moreira | Sábado, 04 de Fevereiro de 2017, 12h10
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    Falta fazer uma estrutura adequada em contraste a nova Orla do Porto. Ficaria show. Falta também, terminar aquela obra interminável la do corrego 8 de abril.

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