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Sexta-Feira, 23 de Dezembro de 2016, 07h:45 | Atualizado: 25/12/2016, 10h:48

Tradições

Imigrantes celebram o Natal em Cuiabá e tentam manter tradições

Gilberto Leite

Dukson Jacques

Dukson Jacques diz que haitianos, em época de muita fartura, celebram o Natal com bastante carne

Talvez devido à sua fama de cidade hospitaleira, Cuiabá vem se tornando cada vez mais uma cidade multicultural. Às conhecidas colônias italiana, alemã, árabe e japonesa - que por aqui chegaram há quase um século - juntaram-se também senegaleses, congoleses, bolivianos, dominicanos, cubanos e, especialmente, chineses e haitianos.

Os dois últimos são facilmente perceptíveis após uma simples volta no centro velho da cidade, pois boa parte se dedica ao comércio formal e informal.

Apesar de longe de casa, todos fazem de tudo para manter as tradições sob as quais viveram até mudarem-se para cá. Mais incorporados à rotina da Capital devido ao grande número de moradores (algo em torno dos dois mil nos dias de hoje, mas que já passou dos 2.500 na época de maior euforia, quando da realização da Copa da Fifa), os haitianos são vasta maioria.  

Diferentemente dos chineses, essencialmente trabalhando com lojas de praticamente tudo no centro, e da família síria, cujo pai é médico de formação, os haitianos trabalham na construção civil ou, como boa parte dos africanos (senegaleses e congoleses), tornam-se camelôs. Em comum entre todos eles, a comemoração do Natal (entre os africanos, os que são cristãos, pois a maioria é muçulmana e portanto não comemora o nascimento de Jesus Cristo) é feita de acordo com a tradição de cada povo.

Os sírios também são muçulmanos.

“Entre nós, haitianos, é uma época de muita fartura. As famílias se reúnem e comem muita carne frita”, explica o presidente da Organização de Suporte das Atividades dos Imigrantes no Brasil (Osamb), Ducson Jacques, 33 anos, em português fluente. Ele conta ter chegado há quatro anos no Brasil, mais de dois em Cuiabá.

A ceia haitiana também é composta de refogados e sopas, “no dia 1º de janeiro, todo mundo toma sopa de abóbora”, mais ou menos como as pessoas por aqui comem lentilhas. No caso do fruto, isso se deve ao fato de o vegetal ser considerado nobre entre eles porque proibido durante a colonização francesa, explica Jacques. “Quem ousava colher e comer abóbora era enterrado até o pescoço próximo a formigueiros, depois a abóbora era cozida com melado e esparramada sobre a cabeça de quem havia comido a abóbora”.

"Quem ousava colher e
comer abóbora era
enterrado até o pescoço
próximo a formigueiros,
depois a abóbora era
cozida com melado e
esparramada sobre a
cabeça de quem comeu"

Tentativas de integrá-los à vida local – como imigrantes, pois Ducson Jacques rejeita o rótulo de refugiados – estão sendo feitas há mais de um ano, inclusive com anuência e apoio da Ordem dos Advogados do Brasil em Mato Grosso (OAB|), que participou da criação da Osamb com a regularização legal da entidade. “O objetivo é zelar pelos direitos de todos os migrantes concedendo a eles CNPJ, registro em cartório e meios de propiciar administração direta, para funcionarem legalmente”, explica o advogado e representante da OAB, Flávio Ferreira.

O apoio da OAB também se traduziu no cadastramento de migrantes africanos, dominicanos, cubanos e haitianos em programas sociais como o Bolsa-Família e o Cadastro Único Para Programas Sociais. Também são encaminhados para o Sistema Nacional de Emprego (Sine). Mesmo assim, a partir do segundo trimestre deste 2016, a Osamb notou uma espécie de diáspora inversa, com muitos buscando retornar para seus países de origem devido à crise e à diminuição das ofertas de emprego.

Gente como Jeancy Anousse, 46 anos, Erique Max, 43, e Eugene Nio, 55. Os dois primeiros são haitianos, só falam creole e francês; o último é domenico-haitiano, fala espanhol, entende bem português. O primeiro conta que procura emprego há três meses, desde que chegou, mas ainda não teve muita sorte. Erique já procura há um pouco mais de tempo, tem três anos de Brasil e quatro meses de Cuiabá, e Eugene respira nossos ares há seis meses. Todos evitam dizer, mas demonstram certa decepção com o andar das coisas por aqui.

Gilberto Leite

Osamb

Presépio montado na sede de organização, sediada em Cuiabá, criada para dar suporte aos imigrantes

Anousse comenta a alegria de ter chegado, então, não vê ainda o momento como problema insuperável. “Vamos dar um jeito de comemorar esse período, pois deixamos dificuldades maiores pra trás e esta é uma data mundial”, lembra.

O amparo com refeições e o básico do dia a dia vem do Centro de Apoio e Pastoral para Migrantes, da Igreja Católica. Lá, há alojamento para 40 pessoas, mas são servidas refeições para um número maior (o número é flutuante, mas chegou a 1.361 pessoas em 2013, ano de maior boom devido à euforia em torno do evento da Fifa, segundo contagem da prefeitura).

Além da Pastoral, são amparados também pela Secretaria Estadual de Trabalho e Assistência Social (Setas), o equivalente do município e o Sine. Essas instituições desenvolvem um programa de auxílio para documentação, encaminhamento de seguro-desemprego e cursos de qualificação. 

O presidente da Osamb é músico e lembra o quanto seu povo é dado a preservar a própria cultura. “É muito importante dar visibilidade ao migrante, é imprescindível para vivermos melhor e aumentarmos a integração com as demais pessoas”, encerra Jacques.

Enquanto as coisas não melhoram, eles buscam manter a fé e celebrar o momento de nascimento do mestre universal.

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