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Sexta-Feira, 02 de Fevereiro de 2018, 08h:01 | Atualizado: 03/02/2018, 08h:26

Médium atraía autoridades e políticos à sua casa na Prainha até fim dos anos 80

Dizem que Maria Perna Grossa tinha dons de premonição e realizava curas como benzedeira

Uma mulher portadora de uma filariose (popularmente conhecida como elefantíase) viveu durante cerca de 78 anos em uma pequena casa às margens da Prainha, em frente ao Morro da Luz. Diziam que ela tinha dons de premonição e realizava curas como benzedeira, utilizando garrafadas e até pequenas cápsulas manipuladas artesanalmente. Foi também uma das primeiras praticantes abertas de umbanda em Cuiabá. Por causa do inchaço nas pernas, causados pelos vermes da filária, dona Maria Claudia da Costa acabou entrando pra história após receber a alcunha de Maria Perna Grossa.

Gilberto Leite

Maria Perna Grossa

Políticos, comerciantes e outros poderosos de décadas passadas utilizavam o Beco do Candeeiro pra acessar os fundos da casa de Maria Perna Grossa ou iam pela 7 de Setembro 

Morta aos 81 anos, em novembro de 1991, tornou-se personagem folclórico da capital entre os anos 50 e 70, à parte (ou talvez por isso mesmo) a pobreza e a aparência fora do padrão estabelecido. Entre as centenas de pessoas que a procuravam semanalmente, políticos, juízes e outras pessoas das chamadas elites locais, como os ex-governadores e ex-senadores Júlio e Jayme Campos, Pedro Pedrossian, Garcia Neto, Frederico Campos e até Carlos Bezerra.

Na pequena casa construída na região do centro velho de Cuiabá, localizada às margens da Prainha – cujo nome advém do córrego que corta toda a avenida Tenente Coronel Duarte, utilizado como local de banho e usufrutos vários da água durante séculos, hoje tomado por esgotos –, conta-se, dezenas de pessoas (inclusive gente influente para além da política) recorriam a Maria para receber rezas, curas para males diversos (por meio de garrafadas e outros remédios artesanais), além de orientações quanto ao futuro recebidas pela entidade que ela incorporava, São Domingos Sávio.

Gilberto Leite

Maria Perna Grossa

Seu Francisco tem um bar na Prainha há 41 anos: "sempre me benzia com ela. Reza forte"

Além de gente simples, como seu Francisco Rodrigues, 64 anos, e Armando Pavão, 62, donos de um boteco e da casa de espelhos onde um dia morou dona Maria, dois pesquisadores, com vieses diferentes, conhecem e contam um pouco sobre as motivações e a trajetória de Maria Perna Grossa.

Para a historiadora Neila Barreto, Maria é sobretudo memória de infância. “A conheci quando era bem mais jovem, a via quando passava pelo centro, e todo mundo na cidade comentava muito sobre a benzedeira”. Ela, no entanto, também conheceu Maria Perna Grossa em livro, especialmente na obra Cuiabá da Tchapa e da Cruz, de José Augusto Tenuta. Outro intelectual, Antônio Leôncio de Barros Lima, lembra as vivências e a fé de Maria na dissertação Matri África: As Águas do Sagrado às Margens de Cuiabá.

Para ele, dona Maria se insere em uma nova gama de valores simbólicos trazidos ao cotidiano da cidade pelo fluxo migratório da década de 1970, em concomitância à inserção social de novos contextos sociais, notadamente no universo religioso afro-cuiabano, clara e largamente identificado com práticas dos ritos de umbanda e candomblé muito mais do que em qualquer outro aspecto sociocultural.

Em termos simples, o orgulho da negritude se manifestava em figuras como ela, “médium da cidade, que ficou famosa como benzedeira, por seus feitos de cura, angariando larga clientela atendida em ambiência conjugada à sua casa particular, na Rua da Prainha”.

Gilberto Leite

Maria Perna Grossa

Francisco Chagas a via sempre (morou muitos anos no centro): católico, não recebia passes

Percepções acadêmicas à parte, o pesquisador autodidata da história de Cuiabá Francisco Chagas Rocha, 47 anos, conta também que ela sempre viveu envolta em mistérios ligados a seus pendores espirituais. “Certa vez, ela foi consultar com um médico e no fim foi ela quem diagnosticou um problema que ele tinha há anos”, garante.

Como sempre a via em suas caminhadas pelo centro da cidade, além de cuiabano apaixonado (ele morou por três anos na Catedral Metropolitana de Cuiabá), havia curiosidade natural pelos propalados poderes de Maria. “Não recebia os passes nem rezas, porque sou católico, mas todo mundo sabia das curas praticadas por ela”, conta ao . “Ela dizia que a enfermidade veio como uma missão que ela tinha que suportar até a morte”, afirma, referindo-se à suposta elefantíase.

Os dois últimos anos dela, contam Chagas Rocha e o comerciante, foram os únicos passados fora da Prainha, quando ela vendeu a casa consultório para Pavão. Ela mudou-se com uma filha para o bairro Tijucal no ano de 1990.

Gilberto Leite

Maria Perna Grossa

Casa consultório, localizada na avenida Prainha, atualmente abriga uma loja de espelhos

A cidade mudara muito, o movimento da região também (ainda mera sombra dos dias de hoje, mas o suficiente para convencê-la a ir morar num local mais distante). “Tenho meu bar aqui há 41 anos, desde que cheguei do Ceará e sempre me benzia com ela. Era uma benzedeira excelente, resolvia todo e qualquer problema e não cobrava nada, só exigia que a pessoa comprasse e tomasse certinho o remédio preparado por ela”, conta Francisco Rodrigues.

Para ele, a história da elefantíase não se sustenta, pois ela tinha sim pernas grossas, mas condizentes com o resto do corpo. “Era uma mulher negra bem forte, pelo menos naquela época. Mas também a vi poucas vezes, e quando tinha só vinte e poucos anos”.

Atual ocupante da casa, onde montou uma loja de espelhos, Armando Pavão, 63, resume como chegou ao local cerca de 28 anos atrás:

“Só sabia que ela tinha o negócio dela aqui, as rezas, mas já comprei da irmã dela e não vi nem a conheci”, como a maioria dos 25 mil carros e 50 mil moradores dos 2,5 quilômetros da Prainha dos dias que por ali correm.

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Comentários (8)

  • Maria José | Domingo, 04 de Fevereiro de 2018, 05h00
    4
    1

    Meu primeiro trabalho q consegui em uma empresa foi graças a ela q me mandou tomar uns banhos e passados alguns dias depois eu estava empregada..isso em 1981..para mim ela era uma ótima pessoa..caridosa

  • Mori | Sábado, 03 de Fevereiro de 2018, 15h19
    14
    3

    Tão paradoxal ver esses relatos de pessoas com "dons" que "conseguem" o milagre para a vida de terceiros mas sucumbem diante das mesmas misérias...

  • Jorge | Sábado, 03 de Fevereiro de 2018, 13h21
    8
    12

    Tanto poder e vivia na misera e nem c curava kkkkk

  • Prof. Sebastian | Sábado, 03 de Fevereiro de 2018, 12h57
    14
    2

    Fantástica a reportagem. Parabéns pela singeleza e pelo olhar histórico.

  • Amosil | Sábado, 03 de Fevereiro de 2018, 07h10
    9
    2

    Maravilha 👏👏...Não a conheci, mas ouvi falar muito dela.... Meu pai a levava pra Leverger, no seu caminhão... Sem cobrar nada, é claro..

  • Jovenil campos (do glória) | Sexta-Feira, 02 de Fevereiro de 2018, 21h10
    19
    2

    Não tive o privilégio de conhecê-la, mas com certeza ela era uma pessoa iluminada, pq praticava o bem sem olhar a quem. Parabéns a bela reportagem.

  • Paulo Barth | Sexta-Feira, 02 de Fevereiro de 2018, 12h54
    18
    2

    Adorei a reportage!

  • Jose Tenuta | Sexta-Feira, 02 de Fevereiro de 2018, 10h42
    27
    2

    Quero agradecer 0 jornalista Rodivaldo Ribeiro, pela citação de minha obra, em sua bem articulada matéria sobre uma das mais conhecidas personagens do Centro Histórico de Cuiabá e, que até, então, não havia merecido a citação de sua existência em livro, como também, de Joaquim "Vermelho", Mané "Boiadeiro", "Mixidinha", "All right ou "Orrait" no cuiabanês, Xá Rosa e muitos outros, que colaboraram na construção do rico folclore cuiabano. Estes seres maravilhosos que povoaram a cidade, se encontram, agora, definitivamente registrados nos anais dos 300 anos da grande capital do Centro-Oeste brasileiro. O Livro "Cuiabá da Tchapa e da Cruz", pode ser encontrado, apenas através do tel: 65 98103 7731.

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