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Sexta-Feira, 11 de Agosto de 2017, 08h:40 | Atualizado: 13/08/2017, 10h:11

Santos-Dumont muito além do avião é tema de mostra no Palácio da Instrução

Mario Okamura

Expo Santos Dumont 09

Primeira vez que o homem realmente dominou os ares foi na Demoiselle, um dos modelos

Há 110 anos, o homem descobria que um de seus mais antigos desejos foi tornado possível – dava pra voar em uma máquina plenamente controlável, segura, com decolagem e pouso sob a vontade de seu condutor. É, sem dúvida alguma, o maior orgulho do pensamento brasileiro, pois a partir dessa criação desenvolveu-se um número infindável de outras máquinas, alcançamos uma ínfima parte do céu sobre nós, mas conquistamos a ideia de que era possível, a partir do sonho de um certo Alberto Santos-Dumont, um dia, quem sabe, até mesmo observar mais de perto as estrelas.

Para celebrar esse tempo, acontece desde quinta (10) até o primeiro domingo de outubro, no Palácio da Instrução, uma exposição com 600 peças extraídas do acervo do designer, inventor e homem à frente de seu tempo. Invenções excepcionais para aquele início de século XX, sendo algumas, como o relógio de pulso, utilizadas até hoje.

Santos-Dumont era também esportista, empreendedor, leitor voraz e personagem de referência em seu tempo.

Dentre as várias peças, uma réplica da aeronave Demoiselle, a obra-prima de Alberto Santos-Dumont, que lhe rendeu a alcunha de pai da aviação. A exposição é intitulada Mostra Santos-Dumont – Coleção Brasiliana Itaú, ocupa 70% do segundo andar do prédio e foi trazida até Mato Grosso por meio da secretaria de Estado de Cultura (SEC).

A curadoria é da jornalista Luciana Garbin e do Itaú Cultural e revela aspectos da personalidade de Dumont praticamente esquecidos devido à repercussão de sua mais famosa criação, o 14 Bis, cujo primeiro voo acaba de completar 110 anos.

Santos-Dumont foi esportista, designer e uma das primeiras celebridades mundiais. A personalidade que imprimia a tudo que fazia chegava mesmo a criar tendências no modo de se vestir e usar o chapéu, uma de suas marcas registradas. Ainda assim, várias de suas criações até hoje são pouco conhecidas do público, como o Conversor (ou transformador) Marciano, que servia para ajudar esquiadores a subir montanhas nevadas -- o nome vem de sua ideia de reproduzir a gravidade de Marte para reduzir o peso do escalador.

Mario Okamura

Expo Santos Dumont 14

Jornais do tempo de Santos-Dumont acompanharam os feitos do carioca meio francês 

Inventou também um dispositivo para corrida de galgos e o Canhão Paradoxal, uma espécie de catapulta para lançar boias salva-vidas para banhistas que estivessem em perigo no mar. Entre as dezenas de fotos exibidas na exposição, duas são do criador testando o canhão em uma praia.

Essas imagens, como outras com sua aeronave, também haviam sido transformadas em cartões postais, um dos modismos daquela época, ao qual o próprio Dumont aderiu com fervor e cuja coleção é ali apresentada.

Em Santos-Dumont -- Coleção Brasiliana Itaú há muito mais a descobrir sobre esse notável brasileiro nascido em 20 de julho de 1873, no Sítio Cabangu, em Palmira (MG), na Serra da Mantiqueira. Em 1879, ele foi viver com a família em Ribeirão Preto (SP), onde o pai tornou-se rei do café e ele começou a descobrir por si mesmo a mecânica nas máquinas rurais. Adulto, tornou-se conhecido na França, em uma época em que o país ditava a moda mundial e a Belle Époque imprimia novos modos de viver e pensar baseados no otimismo e progresso científico.

Na exposição propriamente dita, o visitante, ao entrar, encontra uma porta de hangar, faz o check in, responde a três perguntas sobre Santos-Dumont e recebe uma espécie de cartão de embarque: uma gravura extraída de um antigo jornal com o retrato do inventor.

É hora de encontrar documentos, objetos e imagens conservadas pelo próprio e herdadas por membros de sua família. Memorabilia organizada pela curadoria em parceria com os núcleos da divisão cultural do Banco Itaú. Nos registros, voos dos balões e aeroplanos, retratos pessoais tirados pelos fotógrafos conhecidos de sua época em várias partes do mundo, documentos pessoais e objetos típicos de um aviador (e piloto de balão e dirigível), como um binóculo, uma luneta e vários instrumentos científicos de fins do século 19 e começo do 20.

Também há vários papeis, muitas e muitas cartas, documentos (certidões de batismo, de óbito, testamento, declarações de renda, patentes originais de inventos, publicações de jornais e revistas de seu tempo, livros da biblioteca pessoal -- dentre os quais, um dos que mais o influenciaram, A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Julio Verne -- ou de sua autoria, oferecidos com dedicatória) e talvez sua última obra: um desenho terminado um mês e cinco dias antes da morte dele, de acordo com um sobrinho, que anotou ser aquele o último, além de grifar a data de 18 de junho de 1932.

As publicações exibidas falam sobre Santos-Dumont antes e depois da morte dele, veiculadas em diferentes épocas, do começo do século aos anos 1980. Os temas vão de efemérides relacionadas ao inventor a notícias de lançamentos de livros e filmes sobre sua vida. Há reportagens dos jornais O Estado de S. Paulo, Folha de São Paulo, Diário de São Paulo, A Gazeta e Revista da Semana.

Mesmo com todas as realizações, Santos-Dumont terminou só e esquecido num quarto de hotel no Guarujá, onde acabou por matar-se em 1932

Seu fim, no entanto, foi trágico. Acabou sozinho (algumas biografias dão conta de que ele era gay, apesar de jamais assumir essa condição publicamente), deprimido e só, após morar por meses no Grande Hotel de La Plase, no Guarujá (litoral de São Paulo), até finalmente matar-se no dia 23 de julho de 1932. Fizera 59 anos três dias antes.

Os inúmeros feitos, especialmente o maior deles, o de ter colocado a humanidade um passo à frente no domínio das máquinas e do ar, jamais foram devidamente reconhecidos. Para boa parte do mundo desenvolvido  -- e isso até hoje -- a realização é creditada aos norte-americanos Irmãos Wright, em 17 de dezembro de 1903. Eles lançaram um trambolho mecânico do solo por seis metros e caíram ao invés de aterrisar, como Dumont fez.

Pouco importou que o feito de Dumont tenha sido realizado com plano de decolagem, pouso, a três metros do solo, por 60 metros de distância e sob a supervisão e acompanhamento de especialistas em voo, cientistas e jornalistas. Um feito que teve altura e distância triplicados em menos de um mês.

O anedotário popular conta também que ele ficara por demais deprimido após ver aviões em combate durante a Revolução Constitucionalista de 1932, a bombardear o Campo de Marte, em São Paulo e que talvez fosse este, enfim, a principal motivação do suicídio.

Ambiente da exposição, o Palácio da Instrução funciona de terça a sexta das 8h às 19h e nos sábados, domingos e feriados das 9h às 18h. A entrada é franca e de classificação livre.

Galeria de Fotos

Credito: Mario Okamura
Jornal parisiense retrata o momento em que o homem, pela primeira vez, dominou a arte de voar em aparelhos pesados
Credito: Mario Okamura
14-Bis voou por 60 metros de percurso, a uma altura de três metros do chão, e foi acompanhado por várias pessoas
Credito: Mario Okamura
Jornais do tempo de Santos-Dumont acompanharam os feitos do carioca de origem francesa
Credito: Mario Okamura
Várias imagens da época, como ilustrações, estão espalhadas pelo segundo andar do Palácio da Instrução
Credito: Mario Okamura
Interação com videos e instalações em texto é utilizada pelos criadores da mostra. Tudo com acessibilidade a deficientes
Credito: Mario Okamura
Trabalho minucioso de Santos-Dumont está bem documentado na mostra do Itaú Cultural e vasto acervo
Credito: Mario Okamura
Primeira vez que o homem realmente dominou os ares foi na máquina aqui retratada, a Demoiselle
Credito: Mario Okamura
Exposição fica até o primeiro domingo de outubro, no Palácio da Instrução. Na foto, réplica do Demoiselle
Credito: Mario Okamura
Os diagramas e desenhos de várias das invenções de Santos-Dumont também estão expostos no Palácio da Instrução
Credito: Mario Okamura
Mostra traz acervo do Banco Itaú, mas é patrocinada pela SEC e traz um vasto acervo: 600 peças
Credito: Mario Okamura
Exposição no Palácio da Instrução tem o patrono da aviação, Alberto Santos-Dumont, como foco

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