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Terça-Feira, 10 de Janeiro de 2012, 00h:00 | Atualizado: 10/01/2012, 07h:46

Artigo

A erosão entre ricos e pobres

Olga Lustosa    A desigualdade entre os homens tem sido mostrada como um dos principais contribuintes para a crise financeira, crises de recessão e instabilidade econômica. A queda dos salários, achatamento da renda, o desejo de uma casa própria e outros bens, com crédito facilmente disponível, levaram as pessoas a aumentar a dívida pessoal. Os estudos do professor Robert Frank, da Universidade de Cornell, apontam o alargamento das disparidades entre ricos e pobres, especialmente quando estes grupos são espacialmente segregados por uma enorme erosão social.

   Ricos e pobres vivem em bairros diferentes, frequentam diferentes escolas, fazem compras em lugares diferentes e, geralmente, evitam um ao outro, vivendo uma distância social cada vez maior. Este distanciamento se traduz em desconfiança, falta de vontade de ajudar os outros e o aumento da desconfiança faz surgir até mesmo novos sistemas de moradias, como os condomínios fechados.

   O ex-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Michel Camdessus, certa vez disse que a crescente e agravante disparidade econômica entre ricos e pobres dentro dos países é moralmente ultrajante, economicamente esbanjadora e socialmente explosiva. Assim como a riqueza, o poder quando acumula afeta o sistema político, porque a riqueza pode ser usado para pressionar o governo a agir de acordo com o interesse dos ricos.

   Considerando o senso de justiça, podemos afirmar que os sistemas sociais implantados estão equipados bem mais para os ricos e esta injustiça nos dá uma má reputação e corrói nossa identidade nacional e orgulho. Talvez seja por isso que um recente estudo mostrou que muitos ricos escolheriam um modelo de distribuição de renda com olhar mais igualitário. Isto proporciona esperança de que, se bem feito, uma mudança para uma sociedade mais igualitária poderia ter grande apoio da população. Isso é importante, pois apesar da crescente evidência de que a desigualdade é uma doença de fator social não há vontade política para reduzí-la. É um ponto cego.

    Devemos, como exercício de cidadania nos preocupar com a desigualdade entre as pessoas. Como seres sociais que somos, estamos constantemente a comparar-nos aos outros, especialmente aqueles que estão em melhor situação. Os ricos têm mais garantias para investir na educação e desenvolver suas ideias em negócios inovadores. Como não existem tantos lugares nas universidades boas, isso cria mais um entrave para o sucesso do pobre e deixa menos espaço para seu desenvolvimento pleno. A desigualdade é ruim para a economia. Tem impacto em impostos e no empreendedorismo, e foi uma das principais razões para o colapso financeiro.

    Desigualdade impede a mobilidade social, pois aqueles com vantagem financeira podem também comprar vantagens para suas crianças. Desigualdade corrói as ligações dentro e entre comunidades. Isso cria distância entre elas que gera conflito, desconfiança social. A desigualdade de status gera ansiedade, o que contribui para problemas de saúde. Desigualdade acentua o foco sobre o materialismo individual, corroendo outros aspectos de uma boa vida crucial para o bem-estar, tais como relacionamentos e coesão da comunidade. Desigualdade cria unidades de consumo num ritmo que o planeta não pode sustentar.

    Destituída de razões válidas diria que ricos nem sempre ajudam na redistribuição da renda e muitas vezes contribuem para o déficit democrático. Altos níveis de desigualdade, especialmente quando eles são transferidos para as gerações futuras, são inerentemente injusto. Apesar desta crescente demanda para a mudança, há pouca consciência geral de quanto a desigualdade cresceu e porque é ruim para todos nós. Devemos trazer o tema da desigualdade para a agenda pública e política porque os estudos mostram que o fosso se alarga e os determinantes da desigualdade econômica, detalha que a desigualdade cresceu muito rapidamente nos últimos 30 anos.

   Olga Borges Lustosa é cerimonialista pública e acadêmica de Ciências Sociais pela UFMT e escreve exclusivamente neste blog toda terça-feira - olga@terra.com.br

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Comentários (4)

  • Rodrigo Lemes | Terça-Feira, 10 de Janeiro de 2012, 22h20
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    Em nossa sociedade existe a auto segregação social, mesmo que ricos e pobres possam frequentar os mesmos lugares eles não frequentam, porque não se sentem bem, não possuem dinheiro pra comprar e se vestirem como os ricos... Por isso não frequentam esses lugares, isso aumenta ainda mais o abismo social... Parabéns Olga...

  • CARLOS HAYASHIDA | Terça-Feira, 10 de Janeiro de 2012, 18h26
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    REALMENTE ISSO É NOTÓRIO EM NOSSA CIDADE, MAS ACREDITO QUE AS POLITICAS SOCIAS MAIS RECENTES NO BRASIL TEM MELHORADO AS OPORTUNIDADES DA CLASSE MAIS BAIXA, EM CONTRAPARTIDA A CLASSE MÉDIA ESTÁ DESCENDO E OS RICOS DA VEZ MAIS RICOS. MAIS UMA VEZ OLGA PARABÉNS PELO ARTIGO. TEMA ATUAL E INTERESSANTE...

  • Rodrigo Araujo | Terça-Feira, 10 de Janeiro de 2012, 14h56
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    Olga parabéns pelo artigo e compartilho do pensamento, mas acredito que a Internet é a principal ferramenta para essa redução. Bom trabalho!

  • PEDRO AUGUSTO | Terça-Feira, 10 de Janeiro de 2012, 10h31
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    ...parabéns!!! sabemso que somente a educação pode conter essa erosão...bjus!

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