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Quinta-Feira, 14 de Novembro de 2019, 12h:19 | Atualizado: 14/11/2019, 12h:38

Suelme Fernandes

A República em Mato Grosso

Suelme Fernandes

Tentarei nesse artigo dividido em duas partes tratar de dois eventos importantes para Mato Grosso e para o Brasil tentando construir um diálogo, um encontro possível entre os 130 anos de Proclamação da República que se comemora nesse dia 15 e os 100 anos do hino de Mato Grosso escrito por Dom Aquino Corrêa como Canção Mato-grossense em 1919 e cantado pela primeira vez nas comemorações do bicentenário de fundação do Estado e musicado posteriormente pelo maestro Emílio Heine em 1983.

Pra começar o maior desafio da nascente república em Mato Grosso desde seu surgimento até os dias atuais foi o de povoar o estado, através da divulgação externa das potencialidades econômicas e das imensas áreas disponíveis para exploração. Era e continua sendo um estado pequeno demograficamente e de dimensões geográficas continentais.  Este foi o esforço de colonização da primeira república foi expressa na letra do hino de Dom Aquino Corrêa, que também foi governador do estado de 1918-1922. Usarei o hino como pretexto para apresentar o contexto da proclamação da república em Mato Grosso.

Em 1889 Mato Grosso tinha apenas 92.880 habitantes, menos de 4% dos atuais 3.844.466, era um território “desconhecido” apesar de habitado por milhares de índios. Também ficou conhecido como eldorado perdido, sertão, vazio demográfico ou como se propagou nos versos do hino de Mato Grosso “novo colosso”, referindo por metáfora a uma das maravilhas do mundo antigo o  colosso de Rhodes - uma estátua do titãs Deus do Sol da mitologia grega, Hélios e no início da estrofe destaca a condição de fronteira internacional com Bolívia e Paraguai “Limitando, qual novo colosso O ocidente do imenso Brasil”.

Quase todas as passagens da música são dedicadas as paisagens naturais e o potencial econômico de Mato Grosso que é apresentado como um território ermo e desabitado. Os elementos étnicos formativos do estado aparecem em duas passagens, numa como mito do bandeirante-herói do sertão e noutra com os índios. No primeiro momento os índios são apresentados numa visão romântica do bom selvagem e noutra como problema, estorvo do progresso. “E da fauna e da flora o índio goza”...“Que o valor de imortais bandeirantes Conquistou ao feroz Paiaguás!”

A presença africana foi desconsiderada nas letras do bispo que objetivava construir um sentimento, um gentílico -  mato-grossense de acordo com a ideologia branquializadora da própria república.

O hino faz propaganda das riquezas e as oportunidades de exploração para os aventureiros naquela virada de século XX: “Salve terra de amor terra de ouro que sonhara Moreira Cabral”...“A opulência em teus virgens sertões”. Os primeiros governantes republicanos se esforçaram muito para “vender” o estado para o país e para o mundo.

Em 1889 existia apenas 10 municípios entre baixada cuiabana, região norte e sul do estado numa área de quase 1 milhão e meio de quilômetros quadrados (incluindo os atuais Mato Grosso do Sul e Rondônia).

De uma maneira geral, da república até os dias atuais “todos” os governantes buscaram divulgar as potencialidades e oportunidades do Estado pra tentar expandir populacionalmente e economicamente: Estado Solução, Mato Grosso é Hora de Investir, Mato Grosso é um Gigante são algumas campanhas publicitarias mais recentes.

Na primeira república que vai de 1889-1930, corria Brasil a fora a fama das ricas lavras de minerais existentes, em especial  ouro na baixada cuiabana e o diamante na região do rio Garças, o hino faz uma referência a esse potencial de riquezas de maneira poética: “Eis a terra das minas faiscantes Eldorado como outros não há”, menciona também as jazidas de diamantes “O diamante sorri nas grupiaras”.

A economia de Mato Grosso era centrada no extrativismo em geral retratada no hino como hévea fina ou látex, extraído da seringueira nativa encontrada às margens dos rios Juruena, Arinos, Alto Tapajós, Paranatinga e Paraguai. Em 1910, a produção de borracha chegou a 4 milhões quilos de borracha e era exportada para Europa na primeira guerra.

Outra atividade importante foi a produção de erva mate especialmente no sul do estado, com destaque para empresa de Erva Mate Laranjeira que chegou a ter um faturamento até seis vezes maior que os impostos recolhidos pelo estado. Tanto um quanto outro produto da época mereceram destaque na letra da Aquino “Hévea fina, erva-mate preciosa Palmas mil, são teus ricos florões”.

A República em Mato Grosso - 2

A bovinocultura extensiva mereceu destaque no hino de Mato Grosso pois já nessa época o estado era o quarto maior rebanho de gado do país (1920), inclusive com uma boa indústria de processamento (8 saladeiros) indústrias que produziam charque, caldo, extrato de carne e couro na região de Cáceres e Cuiabá. No início do séc. XX existia um rebanho de 2.757.550 cabeças, menos de 10% das atuais 30 milhões de cabeças. Não é à toa que no Palácio Paiaguás (1977) tem um painel na sua fachada do artista Humberto Espindola denominado bovinocultura, pois desde sempre Mato Grosso possui infinitamente mais rebanho bovino no pasto do que gente nas ruas. “No teu verde planalto escampado E nos teus pantanais como o mar Vive solto aos milhões, o teu gado Em mimosas pastagens sem par!”.

Apesar dessas riquezas e potencial produtivo as comunicações ou infraestrutura sempre foram um desafio, e ainda é até hoje. Praticamente inexistia rodagens, a ligação essencialmente fluvial, a própria notícia da proclamação levou quase 6 meses para chegar em Mato Grosso através da hidrovia Paraguai-Paraná, único transporte existente pelo qual alcançava-se os mercados externos na bacia platina e a capital Rio de Janeiro.  

Destaco aqui o hercúleo o notável trabalho desenvolvido por Mal. Cândido Rondon com suas linhas telegráficas que antes da virada do século XX já estavam em andamento os trabalhos para ligar a capital do Mato Grosso ao restante do país através do telégrafo e, em 1891, foi concluído o trecho de 580 km de linha telegráfica entre Cuiabá e uma estação no oeste de Goiás, em 1906 ligou Cuiabá a Cáceres totalizando 16 estações e 1.667 km de linhas telegráficas, consolidando a presença do Estado brasileiro na região de fronteira com o Paraguai e a Bolívia. Não se pode contar a história da república brasileira e de Mato Grosso sem mencionar esse corajoso e determinado nativo sem comentar a política dos aldeamentos dos indígenas e as cartas geográficas demarcatórias.

Do ponto de vista político houve uma desrotinização completa da política regional, tendo sido empossados 27 governadores (média de 1 governador por ano, imaginem as brigas homéricas entre os coronéis nas disputas pelo poder e o caos administrativo) não por acaso, 4 importantes ruas de Cuiabá são dedicadas a alguns desses coronéis: Antônio Maria Coelho, Pedro Celestino, Generoso Ponce e Joaquim Murtinho. Desse total de 27 executivos, 14 foram nomeados administrativamente pelo presidente da república, 02 eram presidentes da Assembleia Legislativa e apenas nove deles foram eleitos, 30% do total.

Quando digo “eleitos”, refiro-me aos votos de 3% da população total do Estado (92.880 hab.), algo em torno de 2.700 pessoas, pois nessa época eram excluídos desse direito: mulheres, analfabetos, menores de 21 anos e estrangeiros.

O positivismo republicano pregou que a educação era o caminho para civilização, no entanto, na primeira república, 82% da população do Estado ainda era analfabeta e a rede escolar pública da época não chegava a 10 escolas, em 2019, esse problema ainda não foi resolvido, apesar que o índice de analfabetismo caiu para 8,5% em 2018. 

Houve outras tentativas de integração nacional através das ferrovias: Madeira Mamoré (que nem chegou a ser concluída) e a estrada Noroeste do Brasil que ligava São Paulo a Corumbá na região sul mato-grossense, foi o primeiro passo pra divisão dos dois Estados que ocorreu mais tarde em 1979. Inclusive Dom Aquino foi eleito para pacificar uma disputa entre as duas regiões que ocorria no início do século. O hino trata dessas disputas em duas passagens: “Dos teus bravos a glória se expande De Dourados até Corumbá” “Ouve, pois, nossas juras solenes De fazermos em paz e união” a menção a esses dois municípios depois  foi objeto de calorosos debates na assembleia legislativa na época e tempos depois, propuseram inclusive a retirada dos dois municípios da letra após a separação.

No quesito democracia e das políticas públicas acredito que o Estado avançou bastante em relação ao desenvolvimento econômico e seus desafios, mas muitas coisas ainda se assemelham aos longínquos anos de 1889: os inúmeros conflitos e disputas de terras, a estrutura precária do Estado e de suas finanças e da logística, apesar da atualmente mais da metade da população escolher seus dirigentes e ter uma maior estabilidade política.

Termino com a poética do belo hino do Estado ainda pouco conhecido e cantado nas escolas e seu clamor pelo progresso que está na bandeira do Brasil: “Teu progresso imortal como a fênix Que ainda timbra o teu nobre brasão”. No brasão de Mato Groso existe uma frase em latim “virtus et sapiência” que em português literal quer dizer “que a virtude seja mais importante que o dinheiro”. Essa sem dúvida é o grande sonho que nos acalenta nesses 130 anos de Estado brasileiro: ter um dia os direitos iguais de fato e uma república com a maioria dos cidadãos e políticos culturalmente honestos.

Suelme Fernandes é mestre em História e Analista Político. E-mail: suelmefernandes40@gmail.com

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