ARTIGOS

Quinta-Feira, 13 de Fevereiro de 2020, 11h:24 | Atualizado: 13/02/2020, 11h:31

Olga Lustosa

Enxergamos aquilo que reforça nossas convicções

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Cidadãos querem ser candidatos para reforçarem suas convicções políticas, o pregador aborda o fiel baseado em suas convicções religiosas, a família educa de acordo com suas convicções morais. A vida porém, é mais saudável num espaço de múltiplas visões e conflitos.

Temos testemunhado a ascensão do radicalismo por todos os lados e a raiva e polarização são as forças vitais de qualquer movimento radical. Estou sentindo as possibilidades de diálogo cada vez mais reduzidas, a capacidade de entendimento cada vez menos praticada, já nem mesmo tentada. Nos diálogos já não se tenta convencer, apenas marcar divergência.

O tom em que esses ideais são proferidos me irrita infinitamente. Onde quer que estejamos estamos construindo muros de ideais, ideologias, intolerância e não estamos bem intencionados quando propomos diálogo. Diálogo, em tese seria submeter minhas próprias ideias à sua experiência, sem leva-la em consideração.

Sempre queremos ser vistos como certos, sempre certos. Mas como viver a certeza diante do pluralismo, que mais remete a tolerância e ao encorajamento de lançar-se à perspectivas conflitantes?

Sempre queremos ser vistos como certos, sempre certos. Mas como viver a certeza diante do pluralismo, que mais remete a tolerância e ao encorajamento de lançar-se à perspectivas conflitantes? Será necessário aflorar muito mais do que um ajuste ideológico para cultivarmos a coragem necessária para não erguermos cercas entre o que pensamos e o que pensa o outro. Precisamos educar nossos corações para o convício e tolerância.

A sociedade está marcada pela ansiedade, reina uma inabilidade de experimentar profundamente o que nos chega, o que importa é poder descrever aos demais o que se está fazendo, reforçar as convicções exibicionistas. Entre nossas exibições e dos outros, há um contexto a ser explorado, diferenças econômicas e sociais gritantes, cenários e expressões que são reflexos das realidades individuais.

É fundamental notar que nem toda realidade compartilhada é objetiva. A subjetividade eleva os níveis da realidade que revelamos. As convicções são geradas e reforçadas nem sempre com base em valores do conhecimento, mas permeadas pela vaidade e pelo desmerecimento do que é o outro. Uma das razões, pelas quais se atribui relevância e valores a objetos, como casas, roupas e carros. Estes, passam a ter importância porque reforçam e refletem parte do que somos; a superficialidade.

Objetos reforçam convicções. Objetos dão significados a realidade. E assim, o que temos e a forma como percebemos as coisas em nossas mentes, se tornam nossas verdades. Sem dar ouvidos, sem perceber o outro, sem adentrar no mundo do outro, sem sorver conhecimento numa fonte diferente. Não ser capaz de conviver com realidade, ideais e ideologias diferentes é o que tem nos tornado arredios, arrogantes ou ignorantes.

Baseada em suas convicções esdrúxulas, ignorando a relevância da cultura e da leitura, a Secretária de Educação do Estado de Rondônia listou nada menos que 43 obras clássicas da literatura brasileira e as baniu das escolas públicas, por considerar, segundo o estreitamento de sua visão sobre a educação, que os livros contém conteúdos inadequados. Entre os autores estão Mário de Andrade, Rubem Fonseca e Machado de Assis. Partiu ela da premissa egoísta; se eu não gosto, ninguém aqui vai ler.

Classifico como absurda essa ideia de que só existe uma verdade

Classifico como absurda essa ideia de que só existe uma verdade, e esta é a minha. Sobre isso o filósofo francês, Foucault disse que as verdades nunca são livres, são sempre manipuladas e vão gerar formas de comportamentos diversos e constrangimentos.

Todos os assuntos estão polarizados. Ou somos contra ou a favor, ou somos aliados ou adversários ferrenhos. Assim é quando discutimos as questões climáticas, religião, futebol, corrupção, os rumos da economia, indicações ao Oscar e a política segue esta vertente perigosa.

Por mais que sejamos ideológicos, os opostos não precisam se odiar, tampouco menosprezar quem tenta fazer a paz reinar entre eles. Considero conviver um exercício de observação e aprendizado fabuloso. A troca, sem intervenção, me completa. Valores e princípios diferentes agregam sabor a existência. Acho que nasci com a intuição para buscar a sabedoria que está no meio.

Olga Borges Lustosa é cerimonialista pública e escreve exclusivamente neste Blog toda terça-feira - olgaborgeslustosa@gmail.com e www.olgalustosa.com  

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