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Terça-Feira, 27 de Outubro de 2020, 09h:01 | Atualizado: 13/11/2020, 15h:10

Márcio Camilo

O racismo estrutural que há em mim habita em você

M�rcio Camilo

Márcio Camilo

Racismo estrutural. Ô negocinho incômodo de abordar. Incômodo pra quem fala e pra quem ouve. Porque essa estranheza? Talvez porque já esteja na hora do Brasil sentar no divã para resolver esse conflito profundamente interno. Uma terapia que deveria ter sido feita há 132 anos, quando o governo imperial aboliu a escravidão. Mas a gente, enquanto nação, nunca fez isso. Aí fica essa chaga: a grande ferida que não se fecha...

Esses dias fui tocar no assunto, depois que rolou uma piadinha de conotação racista em um grupo de amigos no WhatsApp, pra quê! A galera já veio em cima dizendo que era mimimi, politicamente correto, vitimização... coisas que costumam dizer por aí, dentro de um processo de naturalização do racismo, já tão natural no país.

Fiquei pensando na reação da turma e puxei na memória situações da minha infância e adolescência. Percebi muitas ocasiões em que eu era zombado por causa da minha cor. Se uma coisa desse errado na brincadeira, e se eu estivesse envolvido, eram frases do tipo que eu escutava da gurizada: “Tá vendo! Tinha que ser coisa de preto, olha a cor dele...”. Eram expressões em tom de deboche, carregadas de racismo. Na época, eu, e muito menos eles, sabiam disso.

Essas brincadeiras causavam-me incomodo profundo que eu não sabia dizer o que era. Foi preciso mais de 20 anos, além de estudo, pra entender que o racismo que sofri naquela época se manifesta hoje em minhas inseguranças, no âmbito pessoal e profissional. Isso não me impediu de fazer as coisas ou correr atrás dos meus objetivos. Mas, por muitas vezes, travei e questionei a minha competência. É um exercício mental constante pra desconstruir isso.

Agora, uma situação que senti literalmente o que é ser preto no Brasil foi quando eu estava brincando com um grupo de amigos e fazendo bagunça como toda criança sadia faz. Teve um vizinho incomodado que abriu a janela dizendo mais ou menos o seguinte:

- Ei, molecada! Vamos parar com essa bagunça que eu quero dormir!

Em seguida, olhou pra mim e disse:

- O líder dessa bagunça deve ser você, né seu pretinho!? Seu frango de macumba! Vai já para a porta da sua casa, senão eu te arrebento...

Eram meados dos anos 90. Se eu tivesse 13 anos era muito. O dono dessas ofensas era um rapaz branco de face avermelhada. Tinham uns cinco, seis garotos na brincadeira junto comigo. E nem era eu o “líder da bagunça”. Tinha um garoto na roda, sabidamente pelos moradores do condomínio, muito mais atentado do que eu. Mas ele era branco. Fui incriminado pela minha cor.

Nesse dia, saí do local correndo e chorando, profundamente magoado por aquelas ofensas. Hoje, passados uns 20 anos desse episódio, ainda consigo sentir a dor que eu sentira. E até hoje, quando me lembro dessa história, choro... há uma tristeza e profundidade nisso, que os meus amigos brancos – aqueles do grupo de WhatsApp – nunca irão sentir ou passar, por motivos óbvios. Mas tem uma coisa chamada empatia que ajuda muito a ser antirracista. Fica a dica galera.

Não ser racista no Brasil é um exercício constante, até pra preto

Márcio Camilo

Muitos, ao lerem esse episódio que aconteceu comigo, vão pensar que é isso mesmo, que realmente existem pessoas racistas e isso deve ser coibido. De fato, sempre precisa ser. No entanto, o problema desse discurso é que ele vê o racismo mais como uma manifestação individual e patológica. Parte da premissa de que “não existe sociedade racista”, mas sim “pessoas racistas na sociedade”. Ledo engano.

Premissa mais do que falsa, que anula o debate, impedindo-nos de adentrar no cerne da questão, de acertarmos as contas com a nossa história, de um país que foi o último do Ocidente a abolir a escravidão. Por isso, na época era chamado por outras nações de “retardão”. Tardou demais, como diz a historiadora Lilia Moritz Schwarcz, aprovando uma Lei Áurea curtinha, conservadora e sem nenhum tipo de política pública efetiva para integrar à sociedade aqueles pretos “libertos”.  

Precisamos compreender de uma vez por todas que o racismo no Brasil, em sua plenitude, não é pontual ou coisa de gente doente. Ele é naturalizado, permeando o tempo todo as nossas relações e instituições (escola, família, igreja e sistema judiciário, por exemplo), bem como mantendo, reforçando e acentuando ainda mais a desigualdade social no país. Ele é estrutural.

Daí o título deste artigo. Até porque, esses dias atrás lá em casa, minha mulher reclamou que eu não tinha lavado a louça direito. E eu respondi pra ela: “Também, serviço de preto...”. Ela não achou a piada nem um pouco engraçada e chamou-me atenção para o racismo estrutural que habita em mim. Ele é o mesmo que habita em você, caro leitor.

Não ser racista no Brasil é um exercício constante, até pra preto.

Marcio Camilo:  jornalista, músico e pai do João. Email: camilo.jornalismo@gmail.com  

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Comentários (3)

  • Julianne Caju | Quinta-Feira, 29 de Outubro de 2020, 12h25
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    Parabéns pelo seu texto! Muito potente!!! Eu também demorei para entender as consequências do racismo, que não é um assunto só dos pretos e dos negros, mas sim de todos que querem ser agentes de transformações. "Não basta não ser racista. É preciso ser antirracista."

  • Mauricio Ribas Segundo | Quinta-Feira, 29 de Outubro de 2020, 09h51
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    Sabias palavras, reflexão necessária !

  • Loana Lúcia Neiva | Terça-Feira, 27 de Outubro de 2020, 12h34
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    Te admiro cada dia mais meu amigo e irmão!! Parabéns pelo belo artigo escrito e decifrado na pele

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