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Quarta-Feira, 07 de Julho de 2010, 12h:40 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:26

Artigo

Jornalista ataca uso de TV para vender bugigangas e até Cristo

A venda de bugigangas e de Cristo pela TV aberta

 

Jornalista Jorge Maciel  A concessão pública de serviços televisivos e radiofônicos brasileira mostra um abismo de profundeza abissal entre o que a Lei 4.117 /62 insculpe e o que se pratica ou praticam os concessionários. Em regra geral, não há convergência à legislação e detentores dessas concessões fazem o que querem e tomam as mais variadas direções, menos a do permitido.

   Em tese, a ilegalidade no que tange as obrigações dos concessionários, que são políticos ou grupos de políticos de todas as matizes, é senhora, e está incólume numa terra sem lei. A lei a que me refiro barra o arrendamento ou a sub-locação da TV aberta. Recheada de incisos, parágrafos e apêndices, a legislação oferece brechas e mais brechas para tramóias jurídicas, estabelece a Anatel (a conhecida agência reguladora) para exercer forte fiscalização no setor, mas, paradoxalmente, a atuação (?) da entidade restringe-se a dispositivos técnico-eletrônicos, tratando apenas de propagação de ondas, estrutura dorsal de torres, potências, fios e cabos, gêmulas e plugues.

    No que toca o seu conteúdo de programação, que é exigência pétrea prevista nos dispositivos constitucionais que se referem à comunicação social, a TV aberta brasileira é um caos. A média do que passa na telinha já é ruim, mas o pior é que, a rigor, após as 22 horas, as emissoras, com poucas exceções, transmitem pelo resto da noite, madrugada adentro, um teatro religioso mais focado em prometer prosperidade e realizações financeiras que conduzir rebanhos às abençoadas doutrinas. Religiosos pedem dinheiro na cara-dura, vendem orações, CDs, literatura? 'googlada' e inventam todo tipo de indulgência.

     A repetição de mensagens como que preparadas em forma, e a impostação de tons e vozes decorados a ponto de confundir e muito semelhantes da parte de papais, bispos, pastores, apóstolos e toda leva de obreiros, nas noites, todos os dias, não são apenas afronta à lei. São também a tradução mais íntegra do eficiente mercado eletrônico, curioso, azucrinante, ilegal, mas lucrativo.

    Caracteres de contas-correntes bancárias vão sendo trocados na telinha à medida em que se entoam milagres, histórias de sucesso e mazelas, miséria e desavenças familiares. Como conforto, no cômputo geral, todos que assistem ficam certos de que têm direito aos universais milagres de Cristo. Contanto que primeiro paguem.

     Em 1998, o governo prometeu entrar fundo na questão do ?aluguel' dos horários para redes de ?shoppings mix' e contra a melopéia diárias nas TVs e rádios, mas as bancadas de parlamentares evangélicas ou a elas subservientes contiveram o ímpeto palático.

     A idéia era regulamentar a comercialização do tempo de programação, uma vez que canais abertos são concessões públicas. O projeto tencionava reforçar a fiscalização do limite a partir de 25% de publicidade e deixar claro o que entra na cota, definindo como conteúdo, por exemplo, apenas peças de campanhas comerciais, enfoques político-partidárias, e, invariavelmente, uma pregação aqui, ou ali, sem a rotina e cantilena de gurus ditos célicos, que mais vislumbram o vil metal do que acreditam naquilo que proclamam.

    Ao arrepio da lei, o proselitismo religioso avança, invadindo as telas das TVs, e, na retaguarda, com as ondas do rádio, arrebanham penitentes, a maioria, mesmo alfabetizada, é incauta e de baixa instrução. Os programas de discursos maçantes diários convertem-se em apelos típicos de canais comerciais, aqueles mesmos onde se vende máquinas fotográficas, aspiradores, celulares, óculos escuros (...).

    Igrejas expandem redes, negociam franquias e reforçam estruturas de telemarketing, com auxílio da TV, para que, em conforto doméstico, algum apatetado, esperançoso, feliz, fervoroso ou desesperado possa, via TV, comprar uma oração pela bagatela de até R$ 15,00, mais impostos e custo da ligação. Ah... Além dos R$ 15,00, as operadoras devolvem, gratas, às igrejas, um percentual rechonchudo como comissão.

   Se Ele e seus mais leais seguidores, há 2000 anos, cobrassem pelas orações ou milagres que operavam, certamente Jesus Cristo teria deixado a José e Maria - e seus apóstolos também deixariam aos seus - uma boa quantidade de moedas, como herança ou fatia no testamento. No menor pensar, deixara mil e uma sinagogas que cobrariam, por exemplo, pelas orações ou para ensinar o caminho para chegar ao poder, a ter terras, solares, ou cavalos árabes imponentes.

    Por falar em testamento, testemunhos seguramente ensaiados põem a planos inferiores ou à descrença mesmo a habilidade, experiência e sapiência de especialistas e os mais respeitados centros e casas de saúde do planeta. Pela TV, num simples berreiro, num átimo, curam-se as enfermidades pertinentes à falta de ações preventivas de saúde, má higiene, ações viróticas ou subnutrição, mas que são explicadas como oriundas e sob o mando do apavorante Satanás.

    Um relatório da própria Anatel, do final de 2008, mostrou que havia no país, 8,4 milhões de pessoas com sinais de TVs fechadas em casa, onde o telespectador desembolsa para ter acesso a esportes, variedades, canais de entretenimento, filmes, os mesmos itens que a lei das concessões obriga as TVs abertas a oferecerem. E de graça!

      Para um universo de mais de 125 milhões de televisores no País, depreende-se que apenas cerca de 10% da população estão libertos da aporrinhação célica eletrônica nas noites em que deveriam as emissoras, obrigatoriamente, manter nas suas grades diárias programas informativos, culturais, de variedades, filmes, esportes e de outros gêneros, como exigem os termos sagrados da legislação da concessão de TVs aberta e de rádios.

     O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece que a TV aberta deve servir como instrumento essencial na formação de crianças e jovens. Não é razoável crer que crianças e juvenis tenham que passar horas a fio assistindo a programas de vendas de produtos ou missivas doutrinárias. Elas não carecem e não querem. Perguntem a elas...

    Os juristas que já se debruçaram sobre esse tema são unânimes em afirmar que uma TV aberta que arrenda horários para igrejas ou para venda de tapetes, eletrônicos e jóias 24 horas por dia contraria a lei. Aluguel de horário em TV aberta é sublocação de concessão pública, o que é também é ilegal. No entanto, há emissoras em todo o País que, sob a alegação de que dependem do dinheiro das igrejas e das grandes redes de comércio eletrônico, entregaram seus estúdios e horários integralmente, 24 horas por dia, para arrendatários.

    A OAB, instituição que, historicamente, investe com ações em favor do povo, assim como movimentos e organismos de combate à ilegalidade e/ou o Ministério Público deveriam usar de suas prerrogativas e instrumentos para questionar tais práticas. Que as TVs abertas e as emissoras de rádios sejam devolvidas ao telespectador, consoante o que prediz a lei. E que as igrejas tenham seus espaços diários, sim, mas que estejam dentro dos limites constitucionais de tempo, assim como os canais de classificados eletrônicos.

     Jorge Maciel é jornalista em Cuiabá

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Comentários (14)

  • tomaz | Quinta-Feira, 08 de Julho de 2010, 18h19
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    Precisamos nos unir contra essa invasão de vendas de trudo na TV, incluindo Cristo e outros produtos", o dia inteiro

  • Celso | Quinta-Feira, 08 de Julho de 2010, 18h07
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    Cala boca Jorge Maciel....É só bla bla bla......Quer enganar quem?

  • edilson | Quinta-Feira, 08 de Julho de 2010, 13h55
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    Cadê a OAB, MP e tantos órgãos que deveriam (inclusive a Anatel) ver essa questão? Parabéns ao RDnews por publicar opinião de tão larga importância.

  • ENELINDA | Quinta-Feira, 08 de Julho de 2010, 09h02
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    MUito interessante. Tanto essa lei que está em discussão quanto tantas não são seguidas. A respeito dessa que o artigo se refere, é a mais pura verdade. Em todos os sentidos

  • wagner | Quinta-Feira, 08 de Julho de 2010, 00h52
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    Como leitor deste magnifico site, recomendo ao sr. Romilson a contratação do jornalista para que o RD News nos brinde, como tem feito com alguns artigos, com opiniões firmes e repletas de conhecimento e ousadisa. O tema abordado pelo sr jornalista, como diz embaixo do texto, é da mais pura verdade, e podemos começar a refletir sobre esse monte de pastores e religiosos que usam, como alerta o jornalista, os menos esclarecidos para riqueza pessoal Sou temende a Deus e a Cristo, mas não concordo com essa pouca-vergoha na TV, todos os dias

  • henrique | Quinta-Feira, 08 de Julho de 2010, 00h15
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    Como pastor evangélico, creio na Santa benção, mas não discordo do que o jornalista alerta em termos de abusos de algumas co-irmãs nos seus horários na televisão a exigir dinheiro pela cura. Não concordo apenas com a pretensão da generalidade, pois nem todas as igrejas trabalham para tomar dinheiro na "cara dura". Há um trabalho voltado a louvar a Deus sem exigir nada em troca. !!!! De qualquer forma, a discussão é muito, mas muito válida mesmo e interessante. Pr.Henrique Caldas Igreja Pentecostal

  • Luiza Carla - Goías | Quarta-Feira, 07 de Julho de 2010, 23h58
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    Como professora de portuguûes, com parentes na belíssima e histórica Cuiabá, sempre acesso o RDNerws. De tempos para cá, tenho acompanhado esse notável artiguista (ou articulista0. Do que ví, foram ensaios de mais pura riquaeza em conhecimento gramatical, muita nobreza no trato das palavras e construção de idéias. Tudo isso associadas a temas, e não são de hoje, que mexem com nossa cabeça. Felicito ao feliz jornalista, a quem gostaria de conhcer um dia, pelos temas abordados e, por assim sendo, pelo cuidado trato que dá ao nosso português. Parabéns mesmo. tanto pela narrativa impecável, tanto pela veracidade que o autor expressa.

  • Esmeraldo de Jesus | Quarta-Feira, 07 de Julho de 2010, 20h17
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    Parabéns Jorge Maciel, seu profisionalismo orgulha a nós que tivemos a sorte de trabalhar com vc. Isso que vc aborda é caso sério que deveria ser avompanhado com mais carinho pelas nossas autoridades...

  • Fernando Oliveira | Quarta-Feira, 07 de Julho de 2010, 19h33
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    Aprendi muito com o nobre e competente jornalista Jorge Maciel, quando em 2004 tive a honra de trabalhar com ele no Jornal Diário Regional de Sinop. E com textos dessa envergadura temos a oportunidade de aprender cada vez mais e adimirá-lo por ser sem dúvida nenhuma o melhor jornalista do estado de Mato Grosso. Jorge está certinho nas colocações, e acredito que a agência regulamentadora das TVs abertas, deveriam proibir essas "pedições" de dinheiro nas telinhas. Daqui a pouco haverá igreja obrigando seus fiéis a comprarem orações! Acredito que DEUS tem que estar dentro de cada um, e não em pessoas na tv forçando outras com lavagens celebrais depositar dinheiro em contas. Esses dias ví uma pessoa vendendo uma geladeira para dar para sua igreja, pois o seu pastor dizia que para ele obter sucesso ele teria que agradar a igreja! (...)

  • dill | Quarta-Feira, 07 de Julho de 2010, 19h02
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    concordo com grau, numeros e generos cristo nao e mais adorado nos grandes templos cristaos mais comercializado eu acho que que ta na hora de um novo lutero na historia

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