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Terça-Feira, 31 de Dezembro de 2019, 15h:48 | Atualizado: 31/12/2019, 15h:53

Arnaldo Justino

O ano novo e as fábricas de pessoas do bem

Arnaldo Justino da Silva artigo

 

A conversa transcorria muito agradável com Joao. Era um coquetel de inauguração do espaço gourmet do condomínio.

As mulheres num canto, donde às vezes vinham algumas risadas discretas; noutras ouvia-se conselhos e histórias, comportamento próprio dos dias festivos.

Pedro não ficou prestando muita atenção, mas elas dialogavam em grupo, sempre mais uniforme e, como dizem, aparentemente mais companheiras e unidas, já preparando as decisões que certamente concordariam os maridos, pois afinal de contas, na maioria dos lares, isto é normal: no fundo a mulher é quem manda, incluindo a escolha de quem são os amigos da família.

A propósito, isso me fez lembrar o magistério do saudoso Washington de Barros Monteiro, para quem, sem tocar nesse assunto da voz decisiva na casa, lecionava que “nos braços de uma boa mãe, cresce uma criança honesta”, o que escrevia sem qualquer discriminação.

Nos dias de hoje, o festejado escritor de direito civil iria referir-se à família formada pelos cônjuges. Para ser mais claro e politicamente correto: “nos braços de uma boa família”. Boa, seja pobre ou rica, pois boa não é sinônimo de ter dinheiro, mas sim de ter caráter.

Voltando à festa, observa-se que muito próximo delas, na ala masculina, a algazarra era maior, riam-se às gargalhadas, as piadas eram frequentes, seguidas de risadas estridentes, regadas com pausas de bastante conversas sobre as dificuldades do dia a dia, os protestos contra a corrupção, os reclamos contra o preço da carne e tudo quanto é mais do que os homens gostam de falar.

Num canto, mas junto com o grupo, estava Joao e Pedro, quase espremidos por quem passava pelo estreito corredor entre o balcão e a mesa principal, onde se acomodavam as mulheres.

Devido a proximidade, João entreteu-se a dialogar com Pedro sobre a estrada em que caminha a humanidade, os lugares que já passou, o que evoluiu e onde se espera que chegará.

Conversa vai, conversa vem, chamou a atenção esta frase dita por João:

- tudo está muito moderno, inteligência artificial, carros autômatos, enfim… só o ser humano não evolui, não acha?

Pedro retrucou-o perquirindo-lhe no que e o porquê não evolui a sociedade. A resposta foi imediata:

- o ser humano permanece aquela pedra bruta, cheia de imperfeições, sempre assim, nada muda, não progride, não se torna mais sensível e mais ordeiro, não tem sentimento social e humanitário. O que se vê são apenas alguns exemplos de boas condutas e ações isoladas, que não pega e não vira moda.

Realmente, o ser humano nunca deixou de lado o egoísmo, a arrogância e a aspereza, próprias do invisível Giges com seu anel mágico de que fala Platão, salvante aqueles que foram educados para lutar e suportar os vícios, pois, de fato, o ser humano não passa de uma pedra bruta.

Na verdade, o polimento da pedra bruta depende primeiramente da própria pessoa, do auto-querer, do enxergar a necessidade de ser bom e fazer boas ações, controlar o egoísmo, mas acima de tudo, depende da educação que lhe foi ou será escrita naquele quadro em branco de que fala John Locke.

Arnaldo Justino da Silva

Rude, cheio de defeitos, que precisa ser lapidado para transformar-se numa linda pedra polida, amável, gentil, bondoso, solidário, agregador, harmonioso, humanitário, altruísta, empático, enfim, necessita controlar seus vícios tal como ensinado por Sócrates em diálogo com um estrangeiro lembrado por Nietszche.

Não se chega a esta situação, a não ser pela meditação, pela educação, pela renúncia, pela insistência, pelo bom exemplo.

Como de maus exemplos o mundo está cheio, extravasam-se por aí afora muitos ações maledicentes, egoísticas, prejudiciais ao convívio social harmônico.

O ser humano sempre foi e sempre será o mesmo. Não mudou nada. Não evoluiu e talvez tenha até piorado na sociedade de consumo, onde o bem estar a ser alcançado é o aumento patrimonial, a roupa bonita, a falta do que fazer para sobrar tempo para dormir o dia todo, para a preguiça, para sair nas noitadas de divertimentos todos os dias, para falar mal do outro, para assistir a série empolgante que acabou de chegar no Netflix ou na Globoplay, para usar o amigo ou colaborador visando com isso aparecer, para galgar melhor status social.

É frequente o cobrar juros escorchantes por meio de instituições financeiras, que pertence e é dirigido pelo ser humano, para com o lucro abusivo, obtido com o suor alheio, desfilar em carrões e joias caras, ter múltiplas propriedades imóveis, poder desfrutar do bom e do melhor, e por aí se vai a lista de desejos e más ações intermináveis, para dizer o menos.

Nada de aplicação do landmark: “na dúvida decidir contra mim mesmo”. O que? No mundo real esse landmark é uma piada, infelizmente.

Na verdade, o polimento da pedra bruta depende primeiramente da própria pessoa, do auto-querer, do enxergar a necessidade de ser bom e fazer boas ações, controlar o egoísmo, mas acima de tudo, depende da educação que lhe foi ou será escrita naquele quadro em branco de que fala John Locke.

A educação dos rebentos afigura-se da máxima importância neste aspecto, mas está relegada à família e à religião, pequena e grande fábricas de boas pessoas, que atualmente, como se escreveu alhures, é equivocadamente considerada por muitas autoridades como inimiga do estado em virtude da má compreensão do que seja a laicização do estado.

Tudo depende da educação, uma fábrica estatal, pois naquela tábula rasa da infância, se a sociedade quiser cria-se homens bomba ou homens e mulheres bons e virtuosos para formar uma país com caráter.

Se isso não é obrigação dos templos, das igrejas, das missas, dos cultos, dos sermões, nem a religião tem o reconhecimento de que presta um serviço inestimável ao estado.

Cabe, pois, ao estado ajudar às famílias nesta difícil missão, pois sua célula estrutural não dá conta sozinha desse pesado encargo que forma a nação que, a depender da escolha, pode ser de déspotas, de demagogos, de mentirosos, de aventureiros e de corruptos; ou de virtuosos e democratas.

Mas, ouvindo isso, cético, João disse:

- isso parece ensino de ideologia.

Pois bem, se isso se chama ideologia não importa, o que interessa para uma boa nação é indicar às crianças a direção, o rumo do bem, do amor, da paz, das gentilezas. Muito melhor isso, do que largá-la para o ensino das ruas e dos besteiróis de televisão.

No Brasil, apesar das promessas, ao que parece, essa escolha ainda não foi implementada. Se foi, eu não é conhecida por todos, pois o que se enxerga é um barco navegando sem leme.

Mas, o ano novo está aí para renovar a esperança em dias melhores, por meio de fábricas direcionados a lapidação do ser humano para o bem.

Arnaldo Justino da Silva é Promotor de Justiça em Mato Grosso

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