ARTIGOS

Sexta-Feira, 18 de Outubro de 2019, 09h:04 | Atualizado: 18/10/2019, 10h:08

Edna Sampaio

O machismo que nos habita

Edna Sampaio artigo

Dias atrás minha filha que é leitora assídua de Simone de Beauvoir, me explicou o que significa a célebre frase: Ninguém nasce mulher, torna-se mulher.

Tornar-se mulher é como uma prisão, uma algema com a qual somos capturadas no momento exato do nascimento. A vagina determina nosso destino. Ao nascer somos identificadas como mulher e, somos lançadas num universo inescapável, organizado a partir de uma série de papéis sociais já definidos e que nos guiarão pelo resto da vida

Com o coração repleto de amor e orgulho, olhava aquelas pequenas mãos que gesticulavam com graça como se fossem instrumento didático de ensinar mãe. Os óculos redondos de aros dourados emolduravam os olhinhos negros atentos a nossa brincadeira de ensinar e aprender. Eu ouvia aquela voz em contralto na qual me reconheço: firme, articulada e que me conduzia para um universo de reflexões sobre nossa condição de ser mulher.

Segundo ela, tornar-se mulher é como uma prisão, uma algema com a qual somos capturadas no momento exato do nascimento. A vagina determina nosso destino. Ao nascer somos identificadas como mulher e, somos lançadas num universo inescapável, organizado a partir de uma série de papéis sociais já definidos e que nos guiarão pelo resto da vida.

Ser mulher é lição que aprendemos todos os dias de nossas vidas, até a morte: as cores do enxoval, os brinquedos e brincadeiras, as festas, os tipos de afetos, os modelos de relações, o comportamento profissional, sexual, a roupa, o jeito de andar, de comer, de se enfeitar, de falar, de cruzar as pernas, o namoro, o casamento, o gosto por isso em detrimento daquilo. Tudo, absolutamente tudo orienta a criança que nasceu com vagina a ser tornar uma mulher. Um ser subalterno, construído e subjetivado para servir outros seres. O segundo sexo. Uma opressão que se torna mais poderosa quanto mais as mulheres e a sociedade não percebam e, aceitam a opressão como coisa natural. Uma opressão tão complexa que domina nossa consciência, mas se revela em números de feminicídios, de pobreza, desemprego, do baixíssimo acesso a postos de poder nas empresas, no Estado e na Política.

Hoje, me lembrei daquela conversa com minha filha como forma de me acalmar. Trazer a lembrança amorosa da mulher que estuda em São Paulo e que me faz muita falta. Nela eu me encontro na profundidade de refletir sobre nossa condição de mulheres negras, mãe e filha num mundo machista e racista.

Retomo a lembrança dessa conversa para equacionar minha razão e equilibrar minha emoção. Eu preciso compreender o que machismo faz conosco, a cada passo inconsciente, torna-lo consciente. Em cada momento que me distraio.

Hoje, mais que ontem, fui tomada por um sentimento de impotência e indignação extrema. O ocorrido com a colega e companheira Lisanil do Patrocinio Pereira revirou minhas entranhas e eu senti a algema de nascimento, do tornar-se mulher, apertando e quase gangrenando meu pulso.

Recebi desde domingo (quando Lisanil foi agredida) muitas mensagens de pessoas curiosas, conhecidas ou não, jornalistas querendo saber do assunto. Muitos me perguntam se a Lisanil estava bêbada, se havia surtado. Já encontrei mulheres com sorrisos entre os lábios, achando cômica a falta de noção da vítima. Eu juro que tenho me esforçado para ser delicada, educada e pedagógica dizendo “eu a conheço e nunca soube que ela se embriagasse” ou “sim, talvez ela não esteja bem, afinal, não é fácil estar bem nestes tempos”. Acho que assim correspondo às expectativas de que eu seja uma mulher delicada, polida e que mereça o respeito de ser mulher, numa sociedade que nos definiu antes mesmo que tivéssemos consciência de quem somos.

O ocorrido com a colega e companheira Lisanil do Patrocinio Pereira revirou minhas entranhas e eu senti a algema de nascimento, do tornar-se mulher, apertando e quase gangrenando meu pulso

Percebo que a crueldade do machismo nos atravessa mesmo com toda consciência que possamos ter, porque não basta ter conhecimento, é preciso vigilância e, vigilância sobre nós mesmos só pode existir se duvidarmos de nossas verdades, à procura das armadilhas das racionalidades impostas pelo machismo, para nos fazer desconhecer a nos mesmas.

Quando uma mulher é humilhada, atacada, desrespeitada, molestada ela não é a culpada. Ela pode estar bêbada, pode estar louca, pode ser santa ou ser puta. Posso gostar dela ou não, porque não somos obrigadas a gostar de ninguém. Mas, a razão pela qual ela sofre a violência é o fato dela ser como eu: mulher!
Por isso, quando nós mulheres não nos indignamos a ponto de nos levantar contra o fascismo que nos destrói enquanto gênero, é porque o machismo venceu.

É preciso vigilância e compreensão sobre nossa condição. Ela não é meramente teórica, é prática, objetiva. São nossos corpos sentindo a dor de ser mulher. E nossa liberdade de ir e vir sendo negada todo dia pela violência que espreita cada mulher que ouse sair fora da caixinha.

Estranhar-nos sempre para revelar em nós mesmas aquilo que não conseguimos reconhecer porque, feito narcisos, nos encantamos pelo que pensamos ser.

É fácil ser genericamente contra o machismo; contra o fascismo. Difícil é reconhece-los quando estão ao nosso lado ou; dentro de nós.

Que nos salvemos desse monstro que nos devora, promovendo seu exorcismo todo dia, ao nos perguntar: onde se esconde o machismo que habita em mim?

Não importa se lisanis, marias ou margaridas, todas merecem respeito por mais loucas que sejam, por mais bêbedas que estejam. Porque nós mulheres jamais seremos livres se todas não forem libertas.

Edna Sampaio é doutora em Ciências Sociais, professora da Unemat, gestora governamental e vice-presidente da Adunemat. E-mail: oiednaluz3@gmail.com

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Comentários (5)

  • Túlio | Sábado, 19 de Outubro de 2019, 19h37
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    Se homem não tem legitimidade para falar sobre o feminismo, mulher também não tem legitimidade para falar sobre machismo. Da mesma forma que uma mulher pode se auto-intitular feminista eu também posso me intitular machista. E daí?

  • saco cheio | Sábado, 19 de Outubro de 2019, 10h01
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    Considerando a realidade da sociedade brasileira, em que as crianças são, em sua maioria criadas por mulheres, educadas na infância majoritariamente por mulheres, conclui-se que são as mulheres as responsáveis por termos uma sociedade sexista. São as mulheres que intitulam umas as outras de louca, de vagabunda, que merece as violências que recebem. Essa visão que coloca o que chamam de "machismo" apenas na conta do gênero masculino, mascara as outras causas que sustentam a nossa realidade.

  • Leo Val | Sexta-Feira, 18 de Outubro de 2019, 14h54
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    Foi muito difícil ver a cena da professora sendo atacada de maneira tão covarde. Da mesma forma foi vergonhoso, muito triste mesmo ver pessoas rindo daquela cena horrorosa... dentro de uma igreja ainda por cima!!! A que ponto chegamos? Nem animais fazem isso uns com os outros... Todo apoio à professora Lisanil. Muito bom texto, profa Edna!

  • Jessica Amorim | Sexta-Feira, 18 de Outubro de 2019, 14h33
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    Perfeito texto, Prof Edna! Ser mulher também é reconhecer o que há em nós um formato pré-estabelecido impedindo a plenitude. Libertar-se exige coragem e ousadia, mesmo que sejamos taxadas de loucas e excluídas. Que sejamos loucas para alcançar a plenitude do ser mulher com dignidade, respeito e amor!

  • Ricardo Anzil | Sexta-Feira, 18 de Outubro de 2019, 12h33
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    Um texto que leva a reflexão: Se fosse um homem os machões teriam a mesma atitude? Eu respondo; não teriam. Essa professora foi brutalmente humilhada, machucada por dentro e por fora, machucada na alma, por pessoas desequilibradas e covardes! A justiça não pode ficar as cegas, a violência contra mulheres subiu de forma assustadora no ano de 2019 e não podemos fingir que nada está acontecendo. Justiça seja feita!!!

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