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Terça-Feira, 13 de Setembro de 2011, 00h:00 | Atualizado: 13/09/2011, 00h:29

Artigo

Pavimentação do trecho Cuiabá-Santarém é projeto irremediável

Pavimentação do trecho Cuiabá-Santarém é um processo irremediável

 Olga Lustosa   Considerada uma das principais vias de escoamento da produção de Mato Grosso, a BR-163 vem sendo prometida, lançada, iniciada, paralizada, retomada as obras, desde o governo de Itamar Franco. Hoje, há parcerias ali entre governo federal, governo do Estado, empreiteiras, Exército e está avançando, contra o tempo, contra as mazelas da poeira, das pontes estreitas. São cerca de 60 pontes de madeiras que estão sendo substituídas. Pelos governos de ambos Estados, a BR-163 é considerada a espinha dorsal dos projetos de logística e desenvolvimento por abrir novas perspectivas de progresso para a região.

    Viajei com olhos atentos, olhando a estrada, os estragos, as vidas e vilas que se amontoam no curso da BR. Ao longo do planejamento da viagem, depois de centenas de telefonemas e e-mails, pude conhecer algumas pessoas que demonstraram de forma contundente que a luta do povo em algumas regiões depende muito do espírito solidário, da determinação, articulação e liderança de alguns poucos.

    Logo que se ultrapassa a fronteira entre Mato Grosso e Pará está localizado o pequeno distrito de Castelo de Sonhos. Distante 1.100 km do município sede, Altamira, considerado o maior município do mundo em extensão territorial. O distrito tem um subprefeito, mas é a comunidade que se organiza e realiza inclusive obras, em parceria com os comerciantes locais, que em coro pedem a emancipação do distrito e para tanto aguardam esperançosos a alteração na lei, diferenciada, que dispõe sobre a criação de municípios na região Amazônica.

     Em Castelo de Sonhos foi criada a Associação de Produtores Rurais do Vale da Garça, que declarada de utilidade pública, é presidida por uma mulher, a Preta, que não sossega, anda pra lá e pra cá, reclama, dá ordens e organiza tudo impecavelmente, com ajuda de seus diretores. A Associação tem vida financeira própria, promove festas, cobra, arrecada e, sobretudo, cuida de gente, com respeito. Nascida no Paraná, filha de produtores rurais pobres, veio para Mato Grosso criança, depois de percorrer com os pais os Estados de Rondônia e Acre em busca de oportunidade.

    Casou-se aos 15 anos em Mato Grosso, criou 5 filhos. Criou no sentido literal da palavra, deu-lhes estudo, dignidade e esperança. Mora em Castelo de Sonhos há 12 anos e desde então luta com dificuldade e afinco para melhorar a vida dos habitantes de Castelo de Sonhos. Preta relatou os avanços que a Associação tem conseguido para este lugar que não tem hospital, não tem telefonia celular e sofre apagões constantes, um deles, recentemente, durou 3 dias. Mas as melhorias vão aparecendo aqui e acolá, um médico a mais para o PSF, projeto e convênio para a construção do primeiro hospital para a comunidade, que conta hoje com cerca de 10 mil moradores e tem ainda grande número de adolescentes sem escolas.

   Preta já foi recebida pelo ex-presidente Lula da Silva. Corajosa, manifestou-se de forma irônica. Escreveu Brasil com Z numa faixa e abriu-a na frente do presidente e explicou que escreveu com Z porque os moradores de Castelo de Sonhos se sentiam como estrangeiros, fora do processo de desenvolvimento do país. A Associação tem lutas diversas em curso, entre elas, a regularização de áreas para doação para construção do hospital, a ampliação dos limites ou reversão da lei que criou a Floresta Nacional do Jamanxim.

   A criação inesperada da reserva rendeu ato de protesto liderado por diversas entidades e a Associação presidida por Preta, que coordenou boicote a uma série de oficinas sobre manejo, oferecidas pelo Ibama. História como a de Preta deve existir muitas no eixo da estrada e, a propósito, dois sonhos povoam a mente dos castelenses: a emancipação e a conclusão da BR-163. Em meio à poeira e calor excessivo, ficou o exemplo de que compartilhando nossas lutas, afirmamos nossa solidariedade à vida.

    Olga Borges Lustosa é cerimonialista pública e acadêmica de Ciências Sociais pela UFMT e escreve exclusivamente neste blog toda terça - olga@terra.com.br

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Comentários (3)

  • Leonardo Arrais | Terça-Feira, 13 de Setembro de 2011, 17h39
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    Bom ensaio. Mas tenho uma informação interessante que fiquei sabendo no dia de hoje, sobre a pavimentação da BR-163. É que hoje(13/09/2011) no vilarejo do 1.000 (chama-se na realidade Vila Isol, fica perto da Cidade de Novo Progresso), distante aproximadamente uns 60 km de Castelo dos Sonhos; que índios da região, pintados para "guerra", pararam as máquinas que estavam fazendo o trabalho na BR e em algumas pegaram as chaves. E que no vilarejo, eles entraram nos restaurantes e bares e pegaram tudo que viam pela frente; isto tudo em protesto, pois reivindicam que uma vicinal seja restruturada na sua "reserva", em que o DNIT prometeu e até agora não fizeram. Creio que o pessoal da "Rota da Integração" deixaram um legado para o povo da região.

  • Rafael Dal Bó | Terça-Feira, 13 de Setembro de 2011, 08h53
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    Muito bom dona Olga, esta é a historia dos habitantes da Br 163 no Norte do País... Seu artigo cita verdadeiros homens e mulheres da Amazônia, pessoas que entregaram parte de suas vidas de sua saúde em tristes fatos pagando com a propria vida por uma vida melhor... A luta da Preta faz juz a esses e essas bravas pessoas oprimidas e percegidas pelo seu proprio governo, nume terra abandonada pelo governo mais abraçada por sua gente... Parabens!!!

  • Rodrigo Alexandre Azevedo Araujo | Terça-Feira, 13 de Setembro de 2011, 08h43
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    Olga parabéns pelo artigo. Ele retrata muito do que muita gente ainda sofre naquela região. O exemplo de vida da Dona Preta é pra ser seguido. Ao ler suas palavras pude ver com seus olhos e me sentir na estrada junto com toda a comitiva. Belo trabalho.

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