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Domingo, 17 de Novembro de 2019, 07h:16 | Atualizado: 17/11/2019, 07h:17

Aos 95 anos, idosa ainda mantém rotina de apresentações com o coral da UFMT

Arquivo Pessoal

 Francisca Nunes de Souza  Idosa

Francisca Nunes de Souza, nascida em 1924, canta e ainda arrisca passos de dança no coral

Apesar de ter vivido quase um século, Francisca Nunes de Souza, de 95 anos, ainda exala vivacidade através dos olhos azuis, quase transparentes, que brilham enquanto conta sobre as peripécias da juventude. Entre outras aventuras, atualmente ela faz parte do Coral da 3ª Idade da UFMT, onde é a coralista mais "velha", apenas um adjetivo, já que permanece de pé, durante a maior parte das apresentações, enquanto interpreta as canções junto ao restante do grupo e arrisca animados passos de dança.

Francisca nasceu em 8 de janeiro de 1924, no Rio Grande do Norte, e viveu os primeiros anos de vida na fazenda do pai, onde se recorda das brincadeira de criança, dos pés de árvores frutíferas, rios e da rotina livre que costumava ter. "Era uma felicidade, ficava muito feliz porque os amigos iam até lá para brincarmos, todo mundo gostava". 

Após terminar o primeiro e o segundo graus no Rio Grande do Norte, Francisca se mudou para o Ceará, onde também tinha familiares, e continuou estudando para lecionar. Dessa época, ficaram as lembranças de quando era jovem e "rasgava" as estradas nordestinas em cima de um cavalo. Nas salas de aula, ela ficou durante cinco anos, e também afirma que foram dias divertidos. 

Além de trabalhar como professora, Franscisca fez uma passagem por São Paulo, onde trabalhou alguns anos como costureira. "Fazia vestidos de festa. Uma senhora tinha um ateliê e ela me conheceu depois que fiz umas roupas que ficaram no mostruário dela, tinha cortado e costurado as peças, então ela me chamou para trabalhar com ela". 

Quando recebeu o convite, Francisca se animou com a possibilidade de ter uma renda um pouco maior e aceitou trabalhar como costureira do estabelecimento. O trabalho impecável rendeu uma "promoção" e ela passou a ser responsável por costurar as roupas e provar nas freguesas do ateliê, trabalho que antes era responsabilidade da dona do local. 

Apesar da paixão por produzir os vestidos de luxo em São Paulo, Francisca precisou abandonar o trabalho e a capital paulista para voltar ao Rio Grande do Norte, para visitar seu irmão que estava com problemas de saúde. A coralista tinha mais três irmãos, todos já "partiram para o plano espiritual", como se refere a morte. "Sei que estão comigo de outras formas", afirma. 

Início de depressão 

Francisca disse adeus a todos os irmãos, mas a partida mais "dolorida" foi a da irmã, que tinha 93 anos e morreu há pouco mais de um ano. As duas eram companheiras, apesar da mais nova ser um tanto "menos ativa" que ela, a coralista conta que estava sempre em busca de atividades para fazerem juntas. Falar da morte da irmã faz com que, rapidamente, os olhos azuis de Francisca sejam preenchidos de lágrimas. 

"Quando minha irmã morreu fiquei muito triste, fiquei com medo de ficar com depressão. Éramos só nós duas, ela era minha companheira. Depois que ela foi para o mundo espiritual nós separamos pela primeira vez", desabafa. 

Para superar a morte da irmã, a coralista buscou forças em uma igreja que frequenta no bairro Boa Esperança, em Cuiabá. Ela lembra do dia em que chegou ao local muito triste e recebeu uma oração. "Nunca mais me senti daquele jeito". 

Através da mesma igreja, Francisca fez parte de um grupo que lotou cinco aviões em direção a Coréia do Sul, foi a primeira vez que ela fez uma viagem para o exterior. Ela lembra que a irmã não teve o mesmo "chamado" que ela, por conta disso, não chegaram a fazer a viagem juntas. Corajosa, a coralista segui sozinha em meio a comitiva. 

Na época, ela ainda não contava com a companhia da cuidadora Sandra Augusta Gomes de Assunção, de 51 anos, que atualmente é responsável por acompanhar Francisca nas atividades diárias, assim como as apresentações e ensaios do Coral da 3ª Idade da UFMT. "As regentes disseram para eu começar a cantar também, hoje, além de acompanhar ela, também faço parte do grupo e das apresentações", conta Sandra. 

Do outro lado, Francisca comemora a presença da cuidadora, que parece ter se tornado uma amiga após a partida da irmã, que antes era sua fiel escudeira. "A família toda dela vem assistir", diz a senhora (quase) centenária enquanto dá risada.

Vida saudável 

Desde os 49 anos, Francisca segue uma dieta vegetariana, que é "quebrada" apenas por conta de uma recomendação médica de ingerir mais peixes, por conta da vitamina presente na carne, a Ômega 3. Sandra aposta que é o estilo de vida que faz com que Francisca tenha uma vida tão longa e livre de problemas de saúde. A única reclamação da coralista é de um problema de visão. "Luto com minhas vistas, uma vez parei de enxergar com o olho esquerdo. Fiz alguns exames, mas meu problema é na retina. Rezo para Deus para que isso melhore". 

A memória de Francisca também chama atenção de quem para e escuta suas histórias. Dos açudes no Rio Grande do Norte, ao casamento, o lado materno de quem deu à luz a dois filhos e as peregrinações pelo Brasil a fora. Em dias de insônia, Francisca costuma varar as noites lembrando de tudo que já viveu. "As vezes não consigo dormir, fico lá só pensando nas minhas memórias, parece que aconteceram ontem. Chego a sonhar". 

Conviência com idosos no Coral da UFMT

Para Francisca, a entrada no Coral da 3ª Idade da UFMT, em meados dos anos 2000, é motivo de "grande alegria". Sorridente, ela conta que todos os integrantes do grupo se tornaram amigos. A ideia de cantar em um coral surgiu quando Francisca decidiu tentar convencer a irmã a fazer parte do Coral do Sesc, a mais nova, porém, não ficou muito entusiasmada. 

"Sempre fui um pouco mais animada, minha irmã era mais retraída, tentei levar ela para o Coral do Sesc, mas não deu certo. Fiz uma amiga lá, a Ester, ela quem me avisou sobre as inscrições no Coral da 3ª Idade da UFMT, logo ela começou a viajar muito e saiu. Hoje quem me acompanha é a Sandra. Ainda bem", comemora. 

Em outubro, Francisca subiu aos palcos do Teatro da UFMT junto ao Coral da 3ª Idade da UFMT para apresentação do espetáculo "Pra Terra", que mesclou músicas e cenas com temática sobre natureza, com objetivo de homenagear o planeta Terra e fazer críticas ambientais através da arte. 

Se revezando entre ficar de pé ou sentada em uma cadeira colocada estrategicamente para quando as pernas se cansassem, Francisca cantou durante cerca de uma hora canções como “Planeta Água”, de Guilherme Arantes, e “S.O.S Natureza”, de Geraldo Azevedo e Carlos Fernando, que também teve músicas nordestinas no repertório. Em dezembro, o Coral da 3ª Idade da UFMT e Francisca devem subir novamente ao palcos do Teatro da UFMT para uma cantata de natal. 

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Comentários (4)

  • Paulo Américo | Terça-Feira, 19 de Novembro de 2019, 22h35
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    Parabéms pelo lindo exemplo dna. Francisca!!! Émuito animador ver pessoas com yantos anos de vida se sentido vivas e realizando sonhos!!!! Grande abraço e um bj no coração!!!

  • Estela Maria Bueno | Terça-Feira, 19 de Novembro de 2019, 16h12
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    Fabuloso!Uma bela reportagem! Parabéns!

  • benedita elza de sena | Terça-Feira, 19 de Novembro de 2019, 01h44
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    Olha o grande exemplo para os que dizem não conseguir cantar...Minha amiga do Coral!!!!

  • Adriana Pencal | Segunda-Feira, 18 de Novembro de 2019, 18h07
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    Parabéns dona Francisca um exemplo de mulher 😍

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