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Domingo, 15 de Setembro de 2019, 07h:54 | Atualizado: 16/09/2019, 14h:12

Após suicídio da irmã, empresário tenta ajudar pessoas e quebra tabu sobre tema

Arquivo

Iran Mello suic�do

Iran Mello diz como transformou a dor da perda em vontade de ajudar

No dia 27 de janeiro de 2018, Flávia Melo, de 42 anos, cortou as telas de proteção do 10° andar do edifício Prive Verona, na Avenida do CPA, em Cuiabá e se jogou. Desde a morte da irmã, o empresário Hiran Melo decidiu que buscaria formas de quebrar o tabu do suicídio e falar sobre o assunto abertamente. Este mês, setembro amarelo, é destinado à reflexão sobre o tema e disseminação de informações para que pessoas sejam ajudadas.

Para ele, através da informação, outras pessoas podem não cometer os mesmos erros ao lidar com um familiar ou amigo que enfrenta transtornos psicológicos. Em entrevista ao , o empresário contou que, desde muito nova, a irmã travou uma luta contra o quadro depressivo, ela chegou a tentar suicídio três vezes, ingerindo medicamentos e cortando os pulsos.

Porém, os sintomas pioraram quando os pais de Hiran e Flávia decidiram se separar. A mãe dela decidiu, então, interná-la em uma clínica psiquiátrica em Londrina (PR) para que fosse submetida a tratamento.

Em 1995, Flávia se casou e teve três filhos. Mais tarde, também se separou. Mas, Hiran ressaltou a boa relação que ela e o ex-marido buscavam manter. Um tempo após o divórcio, o pai dos irmãos adoeceu. Ele teve uma infecção na perna e ficou internado em coma induzido durante 167 dias no Hospital Santa Rosa, em Cuiabá.

“A Flávia foi incrível, cuidou muito do nosso pai. Ele não podia ficar sozinho, porque quando acordava do coma sentia muita dor, tentava arrancar os aparelhos. Então, estávamos sempre no hospital, por conta disso, acabamos presenciando algumas cenas difíceis do sofrimento dele”, lembrou.

Em meio ao turbilhão de acontecimentos na vida da família, Flávia foi diagnosticada com borderline – flutuações extremas de humor e impulsividade - por um psiquiatra. Conforme afirmou o empresário, na época, ele não entendia os diagnósticos da irmã.

“Hoje abro meu coração para dizer que cometi erros com a Flávia, não entendia os problemas dela, não soube como agir. Temos essa tendência a não ouvir os outros. Depois do suicídio me debrucei sobre livros para estudar o tema”, contou.

Morte do pai

Hoje abro meu coração para dizer que cometi erros com a Flávia, não entendia os problemas dela, não soube como agir

Hiran Mello

O pai dos irmãos acabou não resistindo e faleceu em 2017, como Flávia morava com ele em Diamantino (a 209 km de Cuiabá), Hiran contou que se apressou em trazer a irmã de volta para Cuiabá. Logo, ambos começaram com planos de abrir uma distribuidora de bebidas e ela começou a morar no edifício na Avenida do CPA, na Capital.

Flávia acabou sendo pega de surpresa por um problema de saúde da mãe, que teve dois derrames em Londrina e acabou precisando passar por uma cirurgia. “Fomos para Londrina, ficamos com a mãe, ficou tudo certo. Quando retornamos à Cuiabá, em janeiro de 2018, cheguei a encontrar com alguns amigos da Flávia, que me perguntavam como ela estava, todos preocupados”, disse.

Doença silenciosa

Hiran ressaltou que não foi um acontecimento traumático que levou a irmã a escolher se suicidar, para ele, foram sucessões de acontecimentos que deixaram o psicológico de Flávia desestabilizado. Seis dias após retornarem de Londrina, Hiran estava no trânsito quando recebeu uma ligação.

Ilustração

ajuda_suicidio

Setembro faz reflexão sobre como ajudar as pessoas em depressão, uma doença silenciosa

Do outro lado, a voz informava que a irmã havia acabado de se jogar do prédio onde morava com os três filhos. Emocionado, Hiran contou que falar sobre o episódio o faz reviver a cena.

“Na hora foi um desespero, o filho dela, que hoje tem 17 anos, estava lá em cima do corpo. Me apressei para tirar as crianças de lá. Não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Parece que vejo a cena se repetindo”, lembrou.

Conforme contou o empresário, após acontecer um suicídio em uma família, o passo seguinte do luto é a culpa que recai sobre os parentes. Ele, assim como os filhos de Flávia, passou a questionar o que poderiam ter feito para impedir o ato da mulher.

“Todos ficaram com aquele sentimento de poder voltar no tempo para agarrá-la, para fazer alguma coisa. Mas, a verdade, é que, apesar de ser difícil, os familiares não podem carregar essa culpa”, disse.

Atualmente os filhos de Flávia moram com o pai, Hiran ressaltou que, após um ano e meio, ainda não pode dizer que ele e o sobrinho estão bem todos os dias. Há dias que são melhores e outros que são piores, mas o empresário contou que se sempre busca prestar atenção nos sentimentos dos sobrinhos.

Se eu puder ajudar uma pessoa que seja, para mim já vai valer o esforço

Hiran Mello

“Os mais velhos quiseram largar a escola, por exemplo, no primeiro momento quis dar sermão, mas depois entendi que eles deviam fazer o que fosse deixá-los bem. Hoje me preocupo mais em ouvir”, falou.

Segundo especialistas, luto, términos de relacionamentos, pressão familiar, pós-parto e frustrações podem ser “gatilhos” para o surgimento de um quadro depressivo.

Acolhimento

Hiran decidiu então fazer algo com a dor de perder a irmã, definida por ele como uma "mulher extremamente linda, inteligente e sempre pronta para ajudar. Ele contou que conseguiu chorar a morte de Flávia apenas quatro dias depois, já que os momentos após o suicídio dela foram turbulentos. Atualmente, o empresário não mede esforços para falar sobre o tema. 

"Se eu puder ajudar uma pessoa que seja, para mim já vai valer o esforço. As pessoas têm me procurado para desabafar, para conversar e eu tento ajudar. Esses tempos a esposa de um amigo me ligou desesperada porque ele tinha saído de casa dizendo que reencontraria os pais, que já estavam mortos. Mandei mensagem para ele e uma foto nossa, ele disse que a imagem tinha salvado ele", lembrou. 

O empresário contou que, desde que decidiu falar sobre o suicídio da irmã em uma transmissão ao vivo no Facebook passou a receber mensagens de pessoas que enfrentam o mesmo problema ou, até mesmo, daqueles que estão pensando em tirar a própria vida. De acordo com Hiran, o amor e o ato sincero de ouvir alguém que enfrenta um período depressivo ou é diagnosticado com um transtorno psicológico pode salvar vidas. 

Quando começou a estudar sobre saúde mental e suicídio, o empresário descobriu a existência do Centro de Valorização à Vida (CVV) e passou a se questionar como uma ligação poderia salvar a vida da irmã dele ou de qualquer outra pessoa que estivesse pensando em tirar a própria vida. 

"Fiquei impressionado, o voluntário me explicou que já tinha tentado cometer suicídio e começou a fazer o trabalho para ajudar outras pessoas. Então, acho que ajudar o próximo e amar são coisas imprescindíveis, muitas pessoas que já pensaram em suicídio, em seguida, começaram a fazer trabalhos voluntários", disse. 

O grande número de suicídios e a falta de informação também foram grandes motivadores de Hiran. Quando Flávia se jogou do 10° andar, o empresário precisou ir até uma delegacia registrar um Boletim de Ocorrência, momento em que descobriu que, naquele mesmo dia, outras quatro pessoas haviam tirado a vida, sendo a irmã a mais velha. A taxa de suicídios precoces em crianças e adolescentes chamaram a atenção de Hiran. 

"Enquanto estamos conversando várias pessoas estão pensando ou tentando cometer suicídio, outras tantas estão conseguindo. Precisamos falar sobre isso, ajudar essas pessoas através do amor", falou. 

CVV e ajuda

A voluntária do CVV, Ana Rosa Nunes, explica que a instituição não possui como função diagnosticar transtornos psicológicos e atua apenas no campo da escuta emocional. Conforme ela, o papel do CVV é apenas "escutar com seriedade e respeito".

A instituição realiza atendimentos a qualquer pessoa por meio do telefone 188, a ligação não possui custos ou cobranças. Os voluntários também atendem pelo site. 

No dia 2 de outubro, o CVV realizará um curso gratuito para novos voluntários na sede da instituição, localizada na rua Comandante Costa, 296, no Centro de Cuiabá. O evento acontecerá nas 19h às 22 e as incrições podem ser feitas pelo e-mail: cuiaba@cvv.org.br

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