Cidades

Segunda-Feira, 11 de Novembro de 2019, 16h:57 | Atualizado: 11/11/2019, 17h:44

Casal denuncia violência obstétrica, filha nasceu morta após "via sacra" de 9 dias

Reprodução

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Veias no olho da mãe estouraram após longas horas de parto em Cáceres, segundo o pai

O advogado Wesley Aparecido Martins, de 31 anos e a contadora Fernanda Schiavo, de 29 anos, denunciam um caso de negligência médica e violência obstétrica no Hospital São Luiz, em Cáceres (a 220 km de Cuiabá), quando, na ocasião, a mulher deu à luz a primeira filha do casal sem a presença do médico plantonista, na madrugada de 16 de outubro. Eles registraram uma denúncia no Ministério Público para que o óbito seja investigado. A promotora Ana Luíza Barbosa da Cunha analisa o caso.

Por meio de nota, a direção do Hospital São Luiz informa que um procedimento interno de apuração para analisar as circunstâncias do atendimento foi instaurado. A unidade também ressalta que prestará todos os  esclarecimentos e providências cabíveis. 

Como Fernanda ainda não consegue falar sobre o ocorrido e precisa passar por acompanhamento psicológico, Wesley explica ao que, a mulher teve um sangramento em 6 de outubro, quando decidiram buscar a unidade pela primeira vez, já que era a mais próxima da casa deles, em Mirassol d'Oeste (a 329 km de Capital). 

De acordo com Wesley, a contadora foi liberada no dia seguinte sem diagnóstico confirmado. Em 10 de outubro, o casal voltou ao Hospital São Luiz, já que Fernanda se queixava de contrações. "Ficamos aguardando mais de uma hora para ela passar pela triagem na emergência. E, quando foi chamada, recebeu atendimento de alunos de medicina, que se perdiam entre os papéis e não conseguiam preencher dados no computador. Também não sabiam o significado da palavra reagente, não deram atenção para a Fernanda, que estava ali na frente deles com fortes dores", relata. 

Após a triagem, a médica plantonista sugeriu que Fernanda voltasse para casa. Wesley diz que, neste momento, começou uma discussão com a equipe médica, já que a mulher se queixava de dores e ambos temiam pela vida da filha. Conforme ele, a médica teria dito, então, que internaria a contadora apenas "porque o marido queria". 

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Hospital são Luiz garante que apura o caso internamente. MPE analisa denúncia do casal

Fernanda teria aguardado pela liberação de um quarto em uma cadeira comum no corredor do hospital, o cômodo teria sido liberado apenas por volta das 4h. A contadora então, segundo ele, foi medicada apenas com remédios para as dores que sentia. 

Em 11 de outubro, por volta das 20h, Wesley diz que a bolsa da mulher rompeu e ela sofreu uma perda de líquido aminiótico, que demandava a realização de um ultrassom de urgência para saber se a bebê, que se chamaria Isabelle, estava viva. O advogado lembrou que os momentos seguintes foram de incerteza, agonia e dor, já que as fortes contrações da mulher não cessavam. 

Já em 12 de outubro, como era feriado, o hospital estava sem o técnico responsável para conduzir o ultrassom, apesar de terem o aparelho, o exame não poderia ser realizado sem a presença do profissional. Wesley, então, teria entrado em contato com a ginecologista de Fernanda, que é especialista no procedimento. Porém, de acordo com ele, a unidade não autorizou que a médica fizesse o exame. 

"É uma médica habilitada, tem CRM, mas mesmo assim não autorização que ela fizesse o exame, porque a empresa que cuida do ultrassom é terceirizada. Disseram que precisaríamos esperar até o final da tarde do dia seguinte para que o técnico fizesse o ultrassom". 

Transferência negada 

Nós conseguimos a ambulância para levá-la até Cuiabá, mas o hospital negou a transfência. Horas depois, disseram que podíamos levá-la por nossa conta

Wesley Martins

Devido a impossibilidade de fazerem o ultrasson no Hospital São Luiz, Wesley tentou uma transferência para que a mulher fosse atendida no Hospital Santa Rosa, em Cuiabá. De acordo com ele, uma equipe de médicos estava esperando para atender a emergência, porém, a unidade de Cáceres negou que Fernanda fosse transferida, alegando que o procedimento que ela precisava existia naquele hospital. 

"Eles tinham o aparelho de ultrassom, mas não tinham o médico. Ela [a Fernanda] teria que ficar esperando até o dia seguinte, com a incerteza de que a Isa estava viva ou morta. Nós conseguimos a ambulância para levá-la até Cuiabá, mas o hospital negou a transfência. Horas depois, disseram que podíamos levá-la por nossa conta e risco para o Hospital Santa Rosa, usando um carro particular", lembrou. 

De acordo com ele, as chances de Fernanda ou a bebê morrerem na estrada era de 90%. A família, então, optou por não submter a contadora a este risco, usando um veículo que não estava equipado para emergências. Wesley ressalta à reportagem que, durante toda a espera, a mulher sofria com as contrações, além de não conseguir se alimentar há três dias. 

"Em 15 de outubro, por volta das 15h, as dores aumentaram muito e avisamos a equipe de enfermagem. Disseram que o médico plantonista não estava, mas que estava chegando. Pedimos por um médico durante todo aquele dia, mas ele não apareceu", lembrou. 

Na madrugada do mesmo dia, Fernanda entrou em trabalho de parto. Segundo Wesley, as enfermeiras teriam se recusado a prestar atendimento, já que não haviam medicamentos prescritos e o médico plantonista ainda não havia chegado. 

Sem suporte e presença de um médico, apenas com acompanhamento de técnicas de enfermagem, Fernanda deu à luz a Isabelle, já sem vida, por volta das 7h através de um parto normal, porém, de acordo com Wesley, a mulher tinha a recomendação médica de uma cesárea. 

Já estava toda formadinha, tinha cabelo, só precisaria ganhar peso

Wesley Martins

Emocionado, o advogado, que esperava pela primeira filha contou que a bebê não estava "encaixada", ou seja, a cabeça de Isabelle não estava na posição certa para um parto normal. "Ela [a Isabelle] já estava toda formadinha, tinha cabelo, só precisaria ganhar peso. Nasceu com o cordão umbilical enrolado no pescoço. A Fernanda teve ela em um quarto comum, sequer foi levada para um centro cirúrgico". 

Wesley contou que, devido a força que precisou fazer para dar à luz a filha, Fernanda ficou com vasos rompidos nos olhos e ficou alguns dias sem conseguir enxergar direito. "Ela [a mulher] não podia ter passado por aquele parto normal", reforçou. 

Sequência de abortos 

Casados há oito anos, o casal decidiu fazer uma fertilização in vitro para conseguir ter o primeiro filho, já que ambos tinham dificuldade para gerar um bebê de forma "natural". Para realizar o sonho, juntaram as economias para arcar com as despesas do procedimento, além dos exames necessários. Fernanda, então, engravidou de gêmeos, mas acabou sofrendo um aborto espontâneo. 

Em maio deste ano, o Wesley e Fernanda tentaram engravidar novamente e, mais uma vez, a contadora estava grávida de gêmeos, porém, acabou sofrendo outro aborto espontâneo e um dos bebês não resistiu. A gestação seguiu apenas com Isabelle. "Éramos muito cuidadosos, de dez em dez dias ela fazia uma ultrassom para saber se estava tudo certo com a Isa". 

Atualmente, a mulher passa por tratamento psicológico e está afastada do trabalho. De acordo com Wesley, é comum também que ela fique isolada das pessoas, para que não precise tocar no assunto do aborto e se nega a tentar engravidar novamente, devido ao trauma que sofreu no hospital. "Tento não transparecer que estou triste perto dela, nesse momento, quero apenas que ela se recupere". 

Confira, abaixo, a nota do hospital

A direção do Hospital São Luiz informa que foi aberto um procedimento interno de apuração para analisar todas as circunstâncias do atendimento prestado à paciente citada pela reportagem. A unidade se solidariza com a perda da família e ressalta que todos os esclarecimentos serão fornecidos para a compreensão dos procedimentos adotados, bem como eventuais providências cabíveis poderão ser tomadas.

Cabe mencionar que o Hospital São Luiz é referência em gestação e parto de alto risco para 22 municípios da Região Oeste do Estado Mato Grosso, incluindo o país vizinho, a Bolívia. O serviço assistencial é realizado por uma equipe multiprofissional qualificada que preza por um atendimento humanizado.

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Comentários (2)

  • Maria | Terça-Feira, 12 de Novembro de 2019, 07h35
    3
    0

    Horror! Horror! Fico horrorizada! Indignada!Médicos nunca são responsabilizados por negligência. Nunca ! Existe uma proteção a eles n Conselho de Medicina. O q quer q façam se der certo ok. Se não... tb ok. Quem morreu se foi e pronto!

  • jorge | Segunda-Feira, 11 de Novembro de 2019, 18h31
    4
    0

    isso nao e a primeira vez q acontece dessa forma

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