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Sábado, 25 de Janeiro de 2020, 08h:17 | Atualizado: 26/01/2020, 08h:23

PORTÃO DO INFERNO

Com sinais de abandono, ponto turístico se transforma em vale da morte - fotos

Rodinei Crescêncio

Portão do inferno chapada

Estrada de pista não duplicada fica "espremida" entre grande rocha e o despenhadeiro, no Portão do Inferno; local é um dos pontos turísticos da região

Rodinei Crescêncio

Portão do inferno chapada

Araras são flagradas pela equipe do Rdnews, durante visita ao Portão do Inferno

O canto das araras-vermelhas ecoa pelos paredões de arenito no Portão do Inferno, ponto turístico do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães (a 60km de Cuiabá). A contemplação da paisagem seria de pura paz, se não fossem eventuais carros e caminhões que trafegam pela rodovia MT-251. De um muro vazado de concreto, vê-se o despenhadeiro, que assusta e encanta. Pela lateral, do gradeado rompido também para ver o cenário que atrai brasileiros e estrangeiros. Mas, sabe-se que, um passo em falso e o que se encontra pela frente é um precipício de mais de 50 metros. Acontece que, para alguns, a ideia é essa mesma, pular, e o ponto turístico tem sido procurado por pessoas que, em desespero, não querem mais viver.

O Portão do Inferno vive momento controverso. Já foi um dos locais mais visitados do parque, mas está praticamente abandonado.

Em 2011, o Ministério Público conseguiu na Justiça proibir as visitas no local devido à fragilidade do solo de arenito, que é de fácil erosão e deslizamento de terra, além da poluição ambiental.

Não se pode dizer, porém, que o Portão está abandonado. Mesmo com mato alto e acostamento recém-pintado de branco pela Prefeitura de Chapada dos Guimarães, além de limpeza, lixo e degradação no precipício mostram presença humana, como garrafas de cerveja e embalagens de alimento. O local persiste ainda como turístico. Tradicional, muitos ainda se lembram de visitar o mirante para ver a paisagem à beira do penhasco.

Já faz mais de 10 anos que a visitação ao Portão do Inferno é proibida. Em 2009, o Instituto Chico Mendes de Conversação e Biodiversidade (ICMBio) colocou uma cerca que proibiu o acesso as trilhas, que levavam até a beira do despenhadeiro. A medida foi tomada dois anos antes de sair à decisão no processo movido pelo MPE, já que o órgão é o administrador da área.

Rodinei Crescêncio

Portão do inferno chapada

Guard rail - defensa metálica para proteção contra acidentes de carro e moto - instalada no Portão do Inferno já está amassado, sinal de que já foi fustigada

Mas a paisagem deslumbrante e de tirar o fôlego não impediu que curiosos arrebentassem três grades do portão de aço, já enferrujado atualmente, instalado pelo ICMBio. Uma delas ainda estava no chão e foi flagrada pelo ainda na rampa do antigo acesso ao mirante. A passagem aberta pelos desconhecidos é estreita e arriscada, já que um passo em falso, a pessoa pode cair no mirante e vir a óbito por conta da queda.

Mais ao lado do antigo acesso do Portão, entulhos de uma lanchonete e pamonharia marcam a história do  local. Segundo o ICMBio, o estabelecimento funcionava de forma irregular e não possuía alvará. O ponto comercial, segue o Instituto, atraía o público e poluía o meio ambiente. Além da proximidade com o mirante, os visitantes ficavam expostos aos riscos do trânsito da rodovia e deslizamentos de terra.

Em nota, ICMBio aponta ainda que, desde o fechamento oficial do local, em 2011, “o fluxo de pessoas deslocou-se para a porção ao longo do calçamento do viaduto da estrada, de onde se contempla a paisagem, não sendo mais utilizadas as trilhas irregulares anteriormente abertas”.

Nos últimos dias, o Portão tem despertado a atenção dos mato-grossenses por causa de pessoas que atentam contra a própria vida. Inclusive, faixas instaladas pelos jovens espíritas ainda continuam estendidas na mureta, que separa a MT-251 do precipício. Outras mensagens pregadas na parte superior têm palavras de apoio e números de telefone, mas as chuvas têm estragado o papel, desmanchado e levado pelo vento, quando não apagado.

Lenine Martins/Sesp-MT

Portão do inferno Ciopaer

Helicoptero da ACiopaer durante resgate no Portão do Inferno, divisa entre os municípios de Chapada dos Guimarães e Cuiabá; local é de difícil acesso

Operações de resgate no Portão envolvem riscos, pontua tenente

Operações de resgate de vítimas no Portão do Inferno, seja acidentais ou propositais, são delicadas e envolvem riscos. Tanto para os bombeiros quanto para as vítimas, caso ainda estejam vivas. Segundo o tenente do Corpo de Bombeiros, Felipe Sabóia, eles brigam contra o relógio. “Quanto mais demora em resgatar a vítima, mais os bombeiros ficam fatigados, e os familiares da vítima ficam tensos”.

A incursão mais comum se dá por rapel, amarrando as cordas junto à mureta, que separa a MT-251 do precipício. Após transpô-lo, o paredão tem muitos declives. Durante a descida, é comum cascalhos e pedras caírem nos bombeiros devido ao solo arenoso. Lá embaixo, a vegetação fechada e rochas, que se desprenderam do paredão, dificultam o trabalho e dão mais riscos.

Felipe aponta que o acesso do Portão também pode ser dar por uma trilha, que é fechada e pouca usada. Começa em um ponto mais a frente do Portão do Inferno, faz a volta até chegar à base do penhasco. “Só que é bem mais demorado. Poucas vezes foram feito dessa forma”, disse. Se toda a operação fosse feita por terra, o tenente estima que demoraria por volta de um dia.

Para retirar as vítimas, seja vivo ou morto, o rapel é o método mais adotado. Mais rápido, porém, é usar o helicóptero do Ciopaer, mas a operação é a mais arriscada. Isto por que a aeronave fica bem próxima aos paredões, podendo chegar, inclusive, a risco de colisão, em dias de vento forte ou chuva.

Nesses casos, bombeiros precisam encontrar uma clareira para que o helicóptero possa se aproximar do chão com mais segurança. Foi o que aconteceu nas últimas operações. Felipe conta que a equipe, além do esforço de descer o Portão do Inferno, procurar a vítima e resgatá-la em um terreno íngreme, precisa andar mais de 100 metros, carregando-a, em meio à vegetação fechada.

A trilha seria a forma mais segura para as operações, mas o resgate de vítimas pede agilidade. “A gente sempre tenta prezar pela velocidade na operação. Até também para evitar maiores riscos. Quando demora muito, eles só aumentam”, aponta.

Tenente destaca ainda que a noite “fica muito complicado para fazer o resgate”. Enfatiza que as buscas até chegam ser feitas, mas não o resgate, seja por rapel ou helicóptero. Isto porque também aumentam os riscos de acidentes. Até mesmo a trilha, tida como mais segura, não é adotada, pois ela não é vista nem de dia e os bombeiros precisam abrir caminho em meio à mata fechada.

Rodinei Crescêncio

Port�o do inferno chapada

Grade colocada pela administradora do parque e que dá acesso a uma trilha está rompida

Portão do Inferno já foi mar há milhões de anos

A dificuldade de trabalho dos bombeiros se explica pela formação geológica do Portão do Inferno. Segundo o geólogo e professor da UFMT, Prudêncio Castro, a área é resultado de duas formações geológicas. A primeira compreende a parte do Portão e é mais antiga. Já a segunda, mais recente, resultou nos paredões do outro lado do mirante.

A parte da rodovia MT-251 em direção ao precipício vem do período devoniano, da Era Mesozóica, explica Prudêncio. Na época, por volta de 350 milhões de anos atrás, a Terra ainda era habitada por animais aquáticos e as plantas começam a dominar a parte terrestre. Inclusive, a própria região do Portão do Inferno era banhada por um mar.

Esse mar antigo recuou, e a região virou deserto. Neste período, foram formados os paredões que ficam do outro lado do Portão, paralelo a rodovia. Isso foi mais recente para os padrões geológicos, há 200 milhões de anos, quando os dinossauros dominavam o planeta e a África e América do Sul eram um só continente. O nome deste período se chama Triássico.

“Mesmo de épocas geológicas diferentes, essas rochas apresentam o mesmo comportamento quanto a uso e ocupação de solo. São rochas muito porosas, permeáveis (absorvem água com mais facilidade) e se desagregam muito facilmente ao contato com as mãos. Aqueles paredões verticais são muito favoráveis a escorregamento de encosta ou deslizamento de terra”, explica.

Por isso, a região é de alto risco para quem visita ou trafega, ou até decide fazer construção ali, como era o caso da lanchonete. "Tanto é que temos notícias de blocos (de rochas) na estrada", disse. Por isso, o professor defende que o uso e ocupação daquele terreno deve ser feito "de forma muito criteriosa".

Prudêncio aponta que os paredões do Portão são uma região de escarpa, que podem se estender por dezenas e até centenas de quilômetros. “Ao longo do tempo, esse paredão vertical evolui recuando. Tanto é que ela, há milhões de anos, estava muito mais próximo de Cuiabá. Futuramente, vai estar mais distante por causa da queda de blocos, erosão, deslizamento e escorregamento”.

O risco é que, além do próprio mirante, até mesmo a rodovia suma um dia. “É necessário encontrar uma nova passagem de Cuiabá para Chapada. Esse trecho está muito precário. Ele vem desde os tempos em que era uma trilha tropeira, se transformou em uma estrada para carroças e depois construíram a ponte para aumentar o leito da estrada para passar veículos. Então, o local é muito frágil para continuar sendo uma estrada tão movimentada como é hoje”.

Enquanto esse dia não chega e curiosos continuam a visitar o Portão, defende a construção de um centro de visitação turística. O empreendimento tem que eliminar os riscos. O professor disse que apresentou um relatório sobre as condições geológicas ao Governo, ainda na gestão de Pedro Taques, com o qual foi baseado um projeto arquitetônico para construir um terminal.

“Acho importante construir, o mais rápido possível, um centro de visitação turística. Enquanto não constrói, o povo continua parando ali em local impróprio, poris não tem acostamento. Não pode ser daquele jeito. Está demorando demais essa construção. E essa demora colocam as pessoas em risco.”

Rodinei Crescêncio

Port�o do inferno chapada

Apesar de não estar aberto ao público, Portão do Inferno ainda é visitado e cumula lixo

Outro lado

Secretário de Administração da Prefeitura de Chapada dos Guimarães, Luiz Leite de Oliveira, aponta que a responsabilidade pela área do Portão do Inferno é de Cuiabá. "Mas nós damos toda a manutenção ali por determinação da prefeita Thelma de Oliveira", aponta. Nesta segunda (20), uma equipe de funcionários pintou o meio-fio e fez limpeza do local.

Informa também que uma câmera de monitoramento foi instalada de frente a calçada, onde as pessoas vão ver o Portão, desde a última semana. Os equipamentos foram doados por um empresário da área de segurança. Luiz conta que o objetivo é flagrar casos de roubos e furtos e avisar a Polícia Militar para atender as ocorrências.

Já a Prefeitura de Cuiabá informa que o Portão fica no limite do município. Assim, o espaço está entre as duas cidades, conforme mostra Plano Diretor. Aponta, porém, que a área do Portão integra o Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, área federal de preservação ambiental administrado pelo ICMBio. Somente a rodovia MT-251, por ser estadual, é de responsabilidade do Governo de Mato Grosso.

De acordo com o Instituto Chico Mendes, existe um plano de manejo para estruturar o local. Um estudo geológico chegou a ser feito pela Associação Pró-Desenvolvimento de Chapada dos Guimarães (APRODEC) e encaminhado para o Governo. Nele, é indicado as áreas mais estáveis para instalar trilhas, estacionamento, pontos de visitação e outros atrativos.

“Com base nos estudos feitos, foi apresentada proposta de alteração do plano de manejo para que, futuramente, possam haver estruturas de apoio ao uso público na área. O Estado de Mato Grosso tem demonstrado interesse em auxiliar na implementação de infraestrutura no loca”, diz IMCBio.

Por sua vez, o Governo informa que chegou a realizar estudos de revitalização do Portão em 2019. “Mas até o momento não há nada concreto sobre um projeto no local”, enfatiza. A Secretaria Adjunta de Turismo, vinculada a pasta de Desenvolvimento Econômico (Sedec) constrói propostas para o local.

Mas os planos do Governo foram atropelados pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Em dezembro, o Governo Federal autorizou a abertura de concessão da área para a iniciativa privada. Mas o edital ainda não foi lançado. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, já adianta que o objetivo é repassar tudo o que for possível e manter o mínimo sob alçada da União.

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Comentários (1)

  • Rozane Tomaz de Oliveira | Sábado, 25 de Janeiro de 2020, 09h12
    11
    0

    Pois é, quando tinha a pamonharia no portão do inferno era cuidado. O MP tirou eles, agora deveria tomar providências.

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