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Domingo, 29 de Setembro de 2019, 08h:20 | Atualizado: 30/09/2019, 18h:24

CUIDADOS PALIATIVOS

Como enfrentar os últimos dias de vida, após diagnóstico irreversível? saiba mais

cuidados paliativos

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Lorenzo Falcão e Fátima sonoda

Fátima Sonoda e Lorenzo Falcão comendo um "sanduba": vive-se e morre-se a cada dia

Tudo aconteceu de uma hora para outra. O escritor e jornalista de Cuiabá, Lorenzo Falcão, de 60 anos, estava no Rio de Janeiro, quando recebeu uma notícia que mudaria a vida de sua família. A esposa dele, Fátima Sonoda, foi diagnosticada com câncer terminal. Apressado, voltou a Cuiabá. O casal foi à médica que a acompanhava. Dela ouviu palavras duras. “Esquece qualquer possibilidade de cura. Nós vamos ter que propiciar a ela uma sobrevida confortável”.

Fátima tentou quimio, radioterapia e cirurgia, mas a doença não regredia. Depois da notícia, dada em janeiro de 2017, em seis meses faleceu, aos 63 anos. Durante seus últimos momentos, foi acompanhada por atendimento médico domiciliar (home care) e fisioterapeuta para ajudar no quadro de dificuldade respiratória. Teve também assistência médica por uma rede privada de saúde.

Para dar assistência e qualidade de vida a pacientes com doenças terminais ou incuráveis, assim como Fátima, existe uma área da medicina ainda pouco conhecida chamada de Cuidados Paliativos, que alivia os sofrimentos físicos e psicológicos causados pela doença aos enfermos e seus familiares.

danilo Yábar

Geriatra Danilo Yábar, coordenador dos Cuidados Paliativos no Hospital de Câncer de MT

Área nova

Cuidados Paliativos é um nome novo na medicina local. A prática surgiu na década de 1960, na Inglaterra, com a enfermeira e assistente social Cicely Saunders. Ela se negava a deixar de atender pacientes com doenças terminais e incuráveis sob o argumento de que não havia nada mais o que fazer por eles. Para ela, havia muito mais.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o objetivo é, além de preparar para a morte, ajudar o doente a ter uma vida tão ativa e confortável quanto possível até a morte. Médicos da área veem o ato de morrer como um processo natural. É inclusive dada assistência religiosa e espiritual, além da psicológica e médica.

De acordo com as estimativas de 2014 da OMS, mais de 20 milhões de pessoas no mundo todo precisam, por ano, de Cuidados Paliativos. São 69% adultos com mais de 60 anos e apenas 6% crianças. E, destes 69% de adultos, 78% deles vivem em países de baixa e média renda e precisam do serviço para o fim da vida.

O estudo da OMS, sobre a prática de Cuidados Paliativos, identificou também que, no Brasil, a provisão de que é feita de forma isolada. Isto significa que o ativismo da área não possui uma unidade forte ou centralizada e que seu financiamento é dependente de doações. Além disso, oferece uma qualidade limitada de serviços e tem dificuldade para obter remédios, como a própria morfina.

Em Mato Grosso, a rede pública ainda começa a engatinhar. O Hospital do Câncer é a única entidade filantrópica que atende pelo SUS em todo o Estado, mas somente dão assistência aos pacientes com câncer, e não das demais doenças. Não há na rede municipal ou estadual áreas de Cuidados Paliativos. Na rede privada mato-grossense, algumas empresas de saúde também possuem o serviço para seus associados.

A promessa da Prefeitura é que seja aberta uma ala de Cuidados Paliativos no prédio onde ainda funciona o Pronto-Socorro de Cuiabá, que será transferido para o mesmo complexo onde já é o Hospital Municipal. A transferência está prevista para o dia 30 de setembro.

Por tratar também de pessoas no fim da vida, algumas confundem cuidados paliativos com cuidados apenas no fim da vida. Outras pessoas acham que ao iniciar tratamento paliativo o paciente deixa de ter o tratamento anterior para modificar a doença. Os cuidados paliativos são complementares e não substitutivos

Douglas Crispim, da Associação Nacional de Cuidados Paliativos

A morte

O geriatra Douglas Crispim, vice-presidente da Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP), ressalta que os Cuidados Paliativos não substituem a procura pela cura da doença. "De maneira nenhuma", enfatiza. "Por tratar também de pessoas no fim da vida, algumas confundem cuidados paliativos com cuidados apenas no fim da vida. Outras pessoas acham que ao iniciar tratamento paliativo o paciente deixa de ter o tratamento anterior para modificar a doença. Os cuidados paliativos são complementares e não substitutivos".

Douglas Crispim

Crispim é vice-presidente da ANPC

Outro geriatra que atua no Hospital de Câncer em Cuiabá, Danilo Yábar Bambarén, que é coordenador dos Cuidados Paliativos na unidade, comenta que as pessoas têm medo de falar sobre a morte.

Tratar os pacientes desta área – e lhes dar uma qualidade de vida – também é, de alguma forma, vivenciar a espera do paciente pela sua morte.

Pesquisas apontam que somente poucos rejeitam saber qual doença possui, os impactos dela e ficam "no escuro" até o final da vida.

O estudo da OMS aponta que, psicologicamente, muitas pessoas temem e evitam qualquer coisa relacionada à morte. Elas têm a crença de que é prejudicial ter o conhecimento de que uma pessoa doente tenha uma patologia que pode lhe tirar a vida. Mas a organização conclui, após revisão de estudos científicos sobre o tema, que não há evidências que suportem esta visão e que o conhecimento e assistência médica adequada, como a dos Cuidados Paliativos, podem até melhorar a sua qualidade de vida.

“Muito frequentemente as pessoas manifestam a ideia de que a morte é um inimigo a ser combatido”, pontua Crispim. Esta visão ainda é predominante na medicina: a de salvar o paciente e trazê-lo, a qualquer o custo, de volta a sua condição saudável. “Os avanços na medicina permitiram combater e curar muito mais doenças que no passado, e isso aumentou nossa expectativa de vida. Mesmo assim, ainda não temos um remédio que nos torna imortal. A morte virá, mais cedo para uns, tarde para outros. E ela faz parte da nossa vida. Vamos sempre lutar pela vida e para que ela seja a mais longa e produtiva possível, mas, quando a morte for inevitável, não iremos negá-la, pois isso torna muito mais difícil cuidar adequadamente e com empatia”.

Danilo conta que muitos pacientes chegam, ao consultório, deprimentes e com pensamentos suicidas, e Crispim que muitos externam o desejo de que a vida termine mais cedo. Segundo o primeiro, nenhum chegou a pedir abertamente a eutanásia, mais conhecido como suicídio assistido. “Em alguns países é permitido a eutanásia para pacientes com doenças terminais”, comenta o segundo. Mas, por lei, a prática é proibida no Brasil.

Ela (a morte) é um mistério. Nós, ocidentais, não nos relacionamos muito bem com a morte. Os orientais e indígenas têm uma relação mais tranquila. Precisamos aprender com eles

Lorenzo Falcão, que ficou viúvo há 2 anos

“Nestes casos, o melhor a fazer é tratar bem o sofrimento da pessoa para que ela recupere a vontade de viver, mesmo com doença grave. No outro extremo, pessoas buscam adiar a morte. Isso é legítimo e muitos gostariam de viver mais, porém viver mais, às custas de sofrimento extremo, como aparelhos, cirurgias ou procedimentos desnecessários, não é recomendado”, aponta Crispim.

Lorenzo comenta que é comum as pessoas evitarem temas ou áreas ligadas à morte. “Ela é um mistério. Nós, ocidentais, não nos relacionamos muito bem com a morte. Os orientais e indígenas têm uma relação mais tranquila. Precisamos aprender com eles”.

Conspiração familiar

Há parentes que adotam a prática chamada de conspiração familiar. Isso ocorre quando pedem ao médico para não contar da doença terminal ou incurável ao portador da doença.

O geriatra Danilo cita casos de falta de comunicação entre pacientes e familiares. "Muitos não se comunicam porque um acha que o outro não sabe. O paciente não tem como se abrir e explicar suas angústias, porque o familiar também tem as suas com relação ao ente querido. E eles não se comunicam por receio de se chatearem ou se preocuparem".

Ala de Cuidados Paliativos

A ala dos Cuidados Paliativos no Hospital do Câncer, em Cuiabá, atende uma média de 80 pacientes por mês. Faz somente atendimento ambulatorial. O geriatra comenta que tem uma proposta de ampliar para pacientes internados, mas estão sem verba.

Pacientes do Hcan são encaminhados quando não há mais chances de cura. Mas os Cuidados Paliativos não substituem o tratamento contra o câncer, como a quimioterapia ou radioterapia. Eles ainda continuam a ser dados para retardar os efeitos da doença.

Avanços

Os geriatras Douglas Crispim e Danilo Yábar, assim como seus especialistas da área, esperam que a prática se expanda nos próximos anos. A Academia Nacional de Cuidados Paliativos conversa com órgãos do Poder Executivo e parlamentares nesse sentido.

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