Cidades

Domingo, 08 de Dezembro de 2019, 06h:56 | Atualizado: 08/12/2019, 13h:05

NATAL DOS CORREIOS

Criança que vive em barraco de madeira pede 3 sacos de cimento ao Papai Noel

Aos 11 anos, Gabriela de Moraes, em seus sonhos, vê a família morando em uma casa feita com "materiais de construção", como a menina se refere às residências construídas com pisos, portas e janelas. O desejo é tão forte na cabeça de Gabriela, que ela resolveu recorrer à "magia do Natal" e pedir três sacos de cimento para o avô conseguir reformar o barraco de madeira em que a menina e mais sete pessoas vivem no bairro Praeirinho, em Cuiabá. 

Rodinei Crescêncio

V� Celina, m�e Maria Domingas e a pequena Gabriela e seus irm�os. No sof�, tia-av� Maria Aparecida

Vó Celina, mãe Maria Domingas, a pequena Gabriela e seus irmãos. No sofá, tia-avó Maria Aparecida. Todos sonham com dias melhores e a reforma do local

 Apesar da pouca idade, a menina se encheu de esperança e deixou uma cartinha na agência dos Correios, localizada no Centro da Capital, após ficar sabendo da campanha "Natal dos Correios", onde pessoas podem "adotar" as cartas e presentear as crianças. 

Além dos três sacos de cimento, no final da carta, Gabriela também diz que se alguém puder presenteá-la com um celular usado, ela aceitaria. A avó da menina, Celina Moraes de Oliveira, de 56 anos, explica que a neta pede um aparelho para fazer pesquisas escolares, além dos interesses infantis por qualquer tipo de tecnologia que possibilite momentos de diversão. 

Quando a reportagem do chega ao endereço onde mora a família de Gabriela, é recebida por olhares curiosos de meninas e meninos que brincavam de bola em um espaço no meio do terreno. Entre um grito e outro, os jovens chamam por Gabriela, que aparece tímida na porta de um dos barracos enxugando as mãos. "Ela estava lavando vasilha", grita um deles.  

Rodinei Crescêncio

Gabriela e os irm�os sonham com um futuro melhor

Gabriela e os irmãos sonham com um futuro melhor. Ela imagina uma casa de alvenaria

O terreno é grande e rodeado de outros barracos de madeira improvisados com doações. Celina, uma senhora negra de pele retinta e muito atenciosa, conta que ali vivem "em irmandade". O fato de serem todos negros e dividirem o mesmo endereço fez com que o local ficasse conhecido como "barracão dos morenos". 

Questionada sobre a criação do apelido dado ao conjunto de barracos, Celina dá risada e responde como quem está prestes a sanar uma das dúvidas mais óbvias: "é porque nós somos todos morenos". A "fama" do barracão dos morenos no bairro Praeirinho também vem das festas religiosas que são realizadas em janeiro no local. 

"Minha avó fazia festa de santo todos os anos, mas ela faleceu e a responsabilidade acabou ficando com minha tia que parou de fazer. Passou para o meu marido. Todo ano os festeiros saem, chegam as doações e fazemos a festa", conta Celina. 

Quarto com bonecas

Nos sonhos, Gabriela imagina a casa de "material de construção" com um quarto só para ela, além de um cômodo para cada um dos quatro irmãos, que têm entre 15 e cinco anos. Atualmente, a família se divide entre finos colchões colocados no chão. Apesar de todas as dificuldades, Gabriela conta que gostaria de ter um quarto "cheio de bonecas".  

Rodinei Crescêncio

Gabriela pediu ajuda ao papai Noel para ter uma casa melhor

Gabriela pediu ajuda ao papai Noel para ter casa melhor e quer quarto cheio de bonecas

A mãe da menina - que está desempregada e depende de R$ 100 que consegue ganhar fazendo "bicos" em buffets - Maria Domingas de Oliveira Moraes, de 35 anos, ressalta a necessidade de camas no barraco. Apenas Maria Domingas e o pai dela, que ganha um salário mínimo, trabalham. O pai de Gabriela e de seus irmãos já é falecido. Com a soma das duas rendas e um auxílio do Bolsa Família, no valor de R$ 294, a família tenta sobreviver durante o ano. 

Por conta de problemas de saúde, Celina explica que não pode trabalhar e fica com os cinco netos enquanto o marido e Maria Domingas trabalham. "Estão todos matriculados na escola, o mais velho que está dando um pouco de trabalho agora. Tem 15 anos, só quer saber de ficar no rio pescando", diz a avó. 

Apesar da dureza da vida, imposta tão cedo às crianças que brincam no terreno, Celina diz que tenta espantar a tristeza para longe da casa número dois (onde vivem). "A vida tem que ser alegre. Falo para eles que não é porque não temos esses tipos de conforto que vamos ficar tristes. Ela [Gabriela] pede muito para ter uma casa com piso, digo que um dia vai chegar a nossa sorte". 

Não fosse o sonho de ver o barraco de madeira com piso, Gabriela conta que gostaria de ganhar uma bicicleta de Natal. 

Sem carne vermelha

Rodinei Crescêncio

Cesta b�sica alimenta a fam�lia cuiabana

Caixa de papelão abriga mantimentos para a grande família de Gabriela. Não há luxo

Vez ou outra as crianças pedem por guloseimas, produtos que quase nunca chegam ao barraco dos morenos. Nessas ocasiões, a avó tenta explicar que o dinheiro da família é suficiente apenas para o básico. Por coincidência, era dia de comprar mantimentos da casa, Maria Domingas é quem cumpre a tarefa. 

Em duas caixas de papelão estão amontoados o que a família terá para comer nos próximos dias. Questionada se a quantidade de comida é suficiente para um mês inteiro, a irmã de Celina, que também vive no mesmo terreno, Maria Aparecida de Moraes, de 48 anos, exclama sem pestanejar. "Um mês? Isso deve dar para 15 dias e olhe lá. Essas crianças comem!".  

Nas caixas de papelão estão pacotes de salsicha e alguns sacos de frango congelado, além de arroz, feijão, açúcar e outros itens de sobrevivência básica. Recentemente, a carne bovina atingiu o valor mais alto dos últimos 30 anos, para comprar 1 kg de coxão-duro, por exemplo, é necessesário desembolsar até R$ 29 em alguns dos mercados da Capital. Daí a ausência de carnes vermelhas nas compras do barraco dos morenos. 

Nos dias mais difíceis, quando a comida desaparece da mesa da família, Celina comemora o benefício de estarem próximos do Rio Cuiabá. "A gente corre lá, pesca uns peixes rapidinho e come. As vezes tem um pouquinho de arroz, fritamos um peixe e damos para as crianças comerem". 

Rodinei Crescêncio

Casa abriga fam�lia que sonha com melhorias

Barraco dos Morenos abriga grande família que sonha com melhorias no local.  Casa é muito simples, mas moradores mantêm a felicidade e sorriso no rosto

Falta de assistência médica 

Além das dificuldades financeiras, a falta de dinheiro para conseguir pagar por saúde de qualidade também é uma das preocupações no barraco dos Morenos. A irmã mais nova de Gabriela, de cinco anos, sofre de dores constantes causadas por uma hérnia no umbigo, que faz com que ele estufe para fora e faça a menina gritar de dor. 

"A avó dela tenta fazer massagem, colocar a parte do umbigo que está inchada para dentro, mas ela [a criança] sofre muito. Tem vezes que achamos que ela vai desmaiar, porque grita muito. Já colocamos o nome dela na Central de Vagas do SUS, mas nunca chamaram ela", conta Maria Aparecida. 

A tia-avó ressalta que só de conseguir a cirurgia que a menina precisa a família já ficaria "mais aliviada". Desde os dois anos a criança sofre por conta do mesmo problema.  

Ceia de Natal 

Maria Aparecida conta que a casa enfeitada e a mesa farta na noite de Natal não fazem parte da realidade do barraco dos Morenos. Ela conta que o evento só aconteceu uma vez por conta de uma pessoa passou pela rua pegando nomes de pessoas carentes e retornaram no dia 24 de dezembro com um algumas comidas típicas do jantar comemorativo. 

Maria Aparecida e Celina dão largos sorrisos enquanto falam sobre aquela noite. Não fosse a doação, a família costuma ficar sentada na área em meio aos barracos aguardando os ponteiros do relógio anunciarem à meia-noite. "Depois disso, cada um caça seus cantinhos para dormir. Aquela foi a única ceia que tivemos nessa vida, montamos uma mesa, tinham várias comidas, trouxeram até um Chester assado", lembra Maria Aparecida. 

A família precisa de doações que vão desde alimentos a móveis novos, já que hoje a maioria deles estão quebrados ou foram improvisados. Para mais informações, basta procurar Maria Domingas no telefone: (65) 99635-8518.

Galeria: Cartas enviadas por crianças ao Papai Noel

Papai Noel dos Correios 

A adoção de cartas da campanha é feita da mesma maneira em todo o Brasil: as cartas enviadas pelas crianças são lidas e selecionadas. Em seguida, são disponibilizadas para adoção em determinadas unidades da empresa. Em Cuiabá, as cartas podem ser "adotas" em todas as agências dos Correios. Os presentes devem ser levados em cada unidade até o dia 20 de dezembro. 

Galeria de Fotos

Credito: Bruna Barbosa
Tia-avó de Gabriela, Maria Aparecida
Credito: Bruna Barbosa
Gabriela e os irmãos sonham com um futuro melhor
Credito: Bruna Barbosa
Vó Celina, mãe Maria Domingas e a pequena Gabriela e seus irmãos. No sofá, tia-avó Maria Aparecida
Credito: Bruna Barbosa
Crianças brincam e sonham com uma vida melhor
Credito: Bruna Barbosa
Cesta básica alimenta a família cuiabana
Credito: Bruna Barbosa
Vó Celina, mãe Maria Domingas e a pequena Gabriela e seus irmãos
Credito: Bruna Barbosa
Casa da pequena Gabriela
Credito: Bruna Barbosa
Casa abriga família que sonha com melhorias

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Comentários (1)

  • Anderson | Domingo, 08 de Dezembro de 2019, 23h06
    1
    0

    Parabéns ao site e parabéns a quem escreveu a reportagem muito bem elaborada , meus parabéns a vc Bruna Barbosa

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