Cidades

Domingo, 09 de Agosto de 2020, 15h:04 | Atualizado: 09/08/2020, 15h:10

PERÍODO SECO

Descaso com prevenção de incêndios no Pantanal leva ao descontrole, diz biólogo

Marcos Vergueiro/Secom-MT

Bombeiros e combate �s queimadas no Pantanal

Integrantes do Corpo de Bombeiros fazem intensos trabalhos em meio ao Pantanal para combater os focos de incêndio que se alestram pela vegetação seca

Desde o dia 1º de julho, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) já registrou 393 focos de queimadas em Poconé (a 103 km de Cuiabá). Os incêndios florestais na região do Pantanal mato-grossense localizada no município tem deixado o céu da Capital repleto de fumaça. Para o biólogo e pesquisador Romildo Gonçalves, a situação poderia ter sido evitada caso o Poder Público investisse em prevenção antes do período de estiagem no Centro-Oeste. 

No total, Mato Grosso já registrou 9.176 mil focos de queimada até o momento. Romildo, que trabalha com fogo florestal e pesquisa o tema na UFMT há pelo menos três décadas, explica que todos os anos faz o mesmo alerta sobre a necessidade do trabalho preventivo com limpeza e acero das margens de vias públicas, formação e capacitação de brigada, além do trabalho de manejo do fogo. 

"Fogo no Pantanal não resolve combater, fazer o acero nas áreas residenciais, de pastagem e margens de vias públicas é o que deveria ser feito. As margens de vias públicas, sejam municipais, estaduais ou federais, são responsáveis por cerca de 60% dos incêndios", diz. 

Reprodução

Romildo Gon�alves, bi�logo e pesquisador

Romildo Gonçalves é biólogo e pesquisa a questão dos incêndios no Pantanal de MT

O pesquisador também ressalta que já era de conhecimento que, em 2020, viveríamos um período de estiagem. Por conta disso, as ações para controle dos incêndios florestais teriam que acontecer com antecedência, entre janeiro e junho. 

Ele ainda explica que, assim como a água, o fogo é importante para o ecossistema do Pantanal, da mesma forma que acontece no cerrado. Nessas regiões ocorre a criação de uma biomassa na vegetação que, no período de seca, queima. O correto, de acordo com Romildo, seria gestão de risco do incêndio florestal. 

"A natureza tem que queimar, eliminar essa massa para que novas vidas ressurjam, seja no Pantanal ou no cerrado. Depois que o fogo está no ecossistema de forma descontrolada não tem como combater. Embora tenhamos instrumentos, conhecimento e a melhor legislação do mundo, todo ano a situação se repete", lamenta. 

Descaso do Poder Público 

Para Romildo "descaso" é o que melhor define a atuação do Poder Público com relação aos incêndios florestais. Ele explica que, na déca de 90, Cuiabá passou pelo mesmo problema da fumaça cobrindo o céu da cidade e que, após trabalho preventivo, o cenário melhorou. Mas desde o ano passado a situação tem piorado.

"Essa história todo mundo tá cansado de ver. De julho a setembro. A questão é: o governo, seja municipal, e estadual ou federal, não consegue tirar o pé do chão. Permanece olhando para a Lua. Ele [o Poder Público] atua pontualmente nos meses em que já aconteceu a perca do controle do fogo", afirma. 

Marcos Vergueiro/Secom-MT

Bombeiros e combate �s queimadas no Pantanal

Pesquisador cita que gasto com aeronaves seria desnecessário se houve planejamento

O biólogo ainda chama atenção para o gasto desnecessário do dinheiro público, que também é uma consequência da falta de planejamento.

"O governo agora está gastando dinheiro púbico pagando aeronave para combater fogo num ecossistema que tem biomassa específica. Enviando bombeiros que não são brigadistas, que é quem tem treinamento para atuar, decretando estado de calamidade. Estamos gastando à toa", diz.

Outra consequência da falta de planejamento com os incêndios florestais é a morte de dezenas de espécies de animais silvestres que vivem na região. Além dos danos que podem ser causados no sistema respiratório de crianças e idosos. 

Pico da estiagem 

Romildo ressalta que, apesar das condições climáticas já estarem difíceis, o pico da estiagem sequer chegou. O período deve começar a partir de 15 de agosto, quando a umidade do ar deve alcançar níveis desérticos. 

"Pode até acontecer chuva, mas são insignificantes em comparação com o impacto dos incêndios florestais. Até o fim da estiagem ainda vai queimar muito mais. Vamos ter problema de fogo em todas as regiões como Xingu e Vale do Araguaia. No entanto, os indígenas do Xingu estão muito atentos. Mas ainda vamos notar a fumaça no céu", avalia.

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