Cidades

Segunda-Feira, 14 de Outubro de 2019, 07h:40 | Atualizado: 14/10/2019, 15h:24

REVALIDA

Médicos formados no exterior querem mudanças no teste para atuar no país

MP em trâmite no Senado autoriza faculdades privadas a aplicarem prova. Entidades de classe reagem

Arquivo Pessoal

Lucas vieira da silva, medicina no exterior

Lucas formou-se médico na Bolívia e ainda não conseguiu fazer o exame Revalida

Formado em Medicina na Universidade Cristã da Bolívia (Ucebol), em Santa Cruz de La Sierra, na divisa com Cáceres (a 220 km de Cuiabá), Lucas Vieira dos Santos Danilucci, de 34 anos, ainda não conseguiu fazer o Revalida, exame que reconhece o diploma de médicos que estudaram no exterior para que eles possam atuar no Brasil. Desde 2017 a prova não é realizada e uma Medida Provisória que autoriza universidades particulares a aplicarem a avaliação deve ser votada no Senado Federal. 

No mês passado, o ministro da Educação, Abrahm Weintraub, atribuiu a demora à falta de recursos. Pelos cálculos da Pasta, a prova chega a custar R$ 6 mil por candidato. A proposta de Weintraube é de que os formandos possam fazer a avaliação por um número máximo de vezes e de que o Revalida deixe de ser subsidiado.

A tramitação da Medida Provisória 890/2019 que institui o Médicos pelo Brasil e redefine as diretrizes da avaliação tem causado controvérsias entre conselhos, sindicatos, associações e profissionais formados no exterior.

O Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso, por exemplo, afirmou que segue o posicionamento do órgão nacional contra a realização dos Revalida por universidades particulares. Nesta semana, o Sindimed-MT, que representa os médicos do estado, também divulgou uma carta de repúdio contra o projeto de lei. Para o sindicato, autorizar universidades particulares a aplicarem o exame acarretaria na "perda de controle e qualidade" da aplicação do Revalida. 

Para Lucas, a aprovação da Medida Provisória seria positiva. Ele acredita que existe receio dos conselhos de que estudantes formados no exterior consigam atingir uma pontuação maior do que os médicos que já possuem autorização para atuar. O recém-formado também ressaltou que não há dificuldade na realização do Revalida, mas sim "falta de interesse".

"Quem ganha com a limitação de habilitação de médico no país? A população em geral ou uma classe da sociedade?", afirmou Lucas, que defende a relização de um exame de ordem para obtenção do CRM, registro que permite a atuação médica. 

Segundo ele, a revolta contra a aplicaçãos do Revalida por universidades particulares não está relacionada à qualidade do atendimento médico, mas na "reserva de mercado". "Não que não seja necessário um exame, mas se a preocupação fosse a qualidade, os conselhos não se posicionariam contrários à proposta do ministro da Saúde", explicou. 

Lucas explica que, atualmente, recém-formados no exterior possuem pouca ou nenhuma opção para revalidação dos diplomas, "dependendo da gestão pública, seja através das universidades federais, do Revalida e, por último e menos eficiente, da plataforma Carolina Bori, que não oferece vagas ou transparecência no processo". 

A proposta apoiada pela maioria dos médicos brasileiros, de acordo com ele, é de apenas as universidades com conceito suficiente no Enade possam realizar a prova. "Ao colocar em dúvida a qualdiade dos médicos revalidados por  universidades particulares, o Sindmed-MT não colocaria em dúvida, também, a qualidade dos milhares de médicos formados nas mesmas instituições. Com esse argumento, dão a entender que se o médico estudou no Brasil, não importa a qualidade do ensino. Exemplo claro de xenofobia". 

revalida

Revalida é uma prova, atualmente aplicada apenas por universidades públicas, para testar conhecimentos de médicos que se formam em outros países

revalida

 

Revalidação na UFMT 

A UFMT informou que o último edital de processo de revalidação de diploma médico graduado no exterior foi publicado em 30 de julho de 2018 vigente até maio de 2021. Conforme a instituição, desde 2015, 6.808 mil médicos se inscreveram no Revalida, porém, apenas 1.321 mil conseguiram atender os critérios necessários para conseguirem a autorização brasileira. 

Brasileiros estudando no exterior 

Dados divulgados em reportagem especiais do Estadão, no mês passado, Santa Cruz de La Sierra cerca de 20 mil brasileiros estudam em quatro faculdades que possuem curso de medicina. O país, que faz divisa com Mato Grosso, lidera na escolha dos estudantes do Brasil que sonham em seguir a carreira médica. Na Bolívia, tem mais duas cidades com incidência de brasileiros. 

O Paraguai também é uma das escolhas dos universitários do país. Em Pedro Juan Caballero nove dos cursos de Medicina registram 12 mil brasileiros. 

Ainda segundos dados do MEC divulgados pelo Estadão, as estatísticas mostram que poucos médicos formados no exterior conseguem passar no Revalida, em 2011, 19,9% deles foram aprovados. Em contrapartida, o número de inscritos na avaliação tem aumentado ano a nao, conforme o Estadão, em 2011, 197 pessoas que se formaram em Medicina no exterior se inscreveram no exame, já em 2017, o número saltou 4.267 mil. 

Vida de renúncias 

O sonho de conseguir o diploma de Medicina faz com que muitos mato-grossensses deixem suas cidades de origem para estudar nos países vizinhos. Porém, de acordo com Lucas, esse tipo de migração vai muito além de mensalidades baratas. Os brasileiros, que chegam a passar sete anos no exterior, precisam se adequar a novas culturas, comportamentos e alimentação, além de terem que lidar com a saudade de familiares ou amigos. 

O recém-formado explicou que até mesmo situações de discrminação podem ser parte da rotina dos estudantes. Segundo ele, muitos passando anos e anos economizando dinheiro para conseguir realizar o sonho de se matricular em um curso de Medicina no Brasil, porém, as mensalidades que podem chegar a R$ 15 mil, são um dos maiores empecilhos. 

Na Ucebol, Lucas pagava cerca de R$ 1 mil por mês. Para efeitos comparativos, o valor da mensalidade de uma faculdade brasileira, seria quase suficiente para custear mais de um semestre de estudos do cuiabano na Bolívia. "Mas não é tão simples quanto fazem parecer", ressaltou. 

Apesar de ressalvas quanto a qualidade do ensino nos países vizinhos, o cuiabano afirmou que não teve problemas nesse quesito. "Tínhamos muitas aulas práticas em hospitais, desde o quarto semestre. Depois de um tempo, após fazer amizades com médicos dessas unidades, meu programa aos finais de semana era no hospital. A estrutura das universidades são boas, mas, como em qualquer lugar do mundo, quem determina a qualidade da formação é o próprio aluno".

Atendimentos em áreas rurais 

Atualmente, Lucas é o unico médico atuando programa Mais Médicos na agrovila Ouro Verde dos Pioneiros, na comunidade rural de Cotriguaçu (a 520 km de Cuiabá). Segundo ele, alguns profissionais com CRM já passaram pela região, mas deixão o trabalho após receberem a ajuda de custo de seis meses e abandonam os atendimentos. 

"Graças ao Mais Médicos, que permite a adesão de médicos brasileiros formados no exterior. Estou me esforçando para corresponder aos anseios e necessidades dessa comunidade. São pessoas humildes e trabalhadoras que necessitam muito do programa e dos cuidados de um médico de família. Não acredito que o Brasil tenha médicos suficientes, se houvesse, não teríamos tanta escassez nos locais mais distantes".

Reação

O Sindimed-MT, representantes de MT no Conselho Federal, Conselho Regional e a Associação Médica (AMB) se reuniram com o deputado federal Dr.Leonardo, parlamentar que é médico, buscando apoio para derrubar todas as 120 emendas da Medida Provisória 890/2019 que, para eles, descaracterizar a proposta do Ministério da Saúde. O coletivo considera "absurdas" as emendas e entre elas a aplicação do exame Revalida por instituições privadas.

Outro ponto questionado é a permissão para que intercambistas que foram desligados do "Mais Médicos" possam compor o programa sem precisar passar pelo Revalida, o que abre um precedente para que seja ofertado serviço médico praticado por pessoas sem a qualificação comprovada, ou seja, exercício ilegal da medicina. Sendo que para os médicos formados no Brasil conseguirem o registo no Conselho Regional de Medicina se faz necessária a formação prévia em Medicina de Família e Comunidade.

“É injusto com os médicos formados no Brasil e aqueles formados em outros países que passaram pelo Revalida, a permissão dada pelo programa de governo aos médicos com formação no exterior”, comentou Adeildo Lucena, diretor de Comunicação do Sindimed.

As entidades médicas pretendem se reunir com todos os representantes da bancada federal de Mato Grosso para garantir que o projeto seja aprovado conforme a proposta do Ministério da Saúde sem as emendas descabidas de parlamentares que não pensam na população. “A população merece um atendimento digno e de qualidade com profissionais habilitados e com registro no CRM e CFM. Por isso, vamos em busca de apoio de parlamentares como Dr. Leonardo que é médico para evitar que essas emendas sejam aprovadas”, afirmou a representante do CFM em Mato Grosso Natasha Slhessarenko.

Participaram também da reunião com Dr. Leonardo, a Dra. Natasha e o Dr. Max Vagner do CFM, Dr. Aurélio Ferreira da Associação Médica(AMB), Pedro Croot do CRMMT, Dr. Adeildo Lucena do Sindimed e sua assessora jurídica Fernanda Vaucher.

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Comentários (7)

  • Meire | Terça-Feira, 15 de Outubro de 2019, 12h34
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    Patrícia, E os médicos formados no Brasil??? Por que não passam por um exame de ordem no final do curso para conseguir o CMR??? Ai ninguém formado no Brasil quer né???

  • Patrícia | Segunda-Feira, 14 de Outubro de 2019, 16h55
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    Passar no vestibular no Brasil ninguém quer, né!?

  • Aderbal Ratzinger | Segunda-Feira, 14 de Outubro de 2019, 14h11
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    Exame de proficiência tinha de ser obrigatório para TODAS as profissões, TODAS! Médico cuida de vida, necessita ter o filtro, a separação do joio e do trigo. Médicos formados aqui no Brasil já são, alguns, uma grande palhaçada... Estudaram anos e anos pra só saber o que é virose. Exame nos de fora, exame nos daqui, os bons que ganhem o direito de trabalhar.

  • Antonio | Segunda-Feira, 14 de Outubro de 2019, 12h55
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    Muitos vão a esses países fazer medicina pra escapar do vestibular. Daí voltam pro Brasil e não conseguem passar no Revalida, então, na lógica de quem passou a vida fugindo das provas, o correto é liberar pras particulares fazerem o teste, sabendo que vão cobrar caro e entregar "aprovação garantida".

  • ROBSON JOSÉ | Segunda-Feira, 14 de Outubro de 2019, 12h29
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    É só ter competência e passar em um vestibular no Brasil. Temos ótimas universidades em nosso país, inclusive as melhores da América Latina.

  • Zé carlos | Segunda-Feira, 14 de Outubro de 2019, 10h03
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    To fora desses médicos formados fora !!!! se os daqui no brasil são mais ou menos imagiman esses aventureiros. A verdade é que querem ganharam dinheiro, estatus, etc. "pronto falei"

  • Dr Juliano | Segunda-Feira, 14 de Outubro de 2019, 09h02
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    após um histórico de guerra e genocídio de paraguaios e bolivianos o minimo de um brasileiro é formar e trabalhar lá e ajudar tanto a população qto uma parcela da sociedade é o que um bom curso de direita no Brasil deveria pensar num país mais pobre.

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