Cidades

Segunda-Feira, 08 de Março de 2021, 10h:05 | Atualizado: 10/03/2021, 17h:37

Dia das mulheres

Mulheres quebram o ciclo da violência, pedem ajuda e recomeçam histórias - veja

No Dia Internacional das Mulheres, 8 de março, pode até parecer clichê outra reportagem sobre violência contra elas, contra nós, porque quem escreve também é uma mulher. Só que não é. Isso porque, além da busca por equidade no mercado de trabalho, segurança, manter os direitos conquistados e alcançar os que são necessários - ainda é preciso dizer o mínimo. Nenhuma mulher deve ser vítima de qualquer tipo de violência, inclusive a que pode partir de tão perto, como a doméstica. Por isso, é preciso dizer que a luta é contínua e a visibilidade desta data também precisa ser aproveitada para tratar de assuntos sérios, porque além das homenagens, eles são muito importantes.

Rodinei Crescêncio

Casa de Amparo ajuda mulheres a romper o ciclo da viol�ncia

Após um ano de pandemia e com isolamento, o índice deste tipo de violência cresceu, mesmo que as denúncias formais tenham reduzido nas delegacias. Foi com esse pensamento que a equipe de reportagem atravessou os portões com muros altos da Casa de Amparo, coordenada pela secretaria municipal de Assistência Social e Desenvolvimento Humano (SMASDH). Ela serve como auxílio de reabilitação e resgate da integridade física e psicológica de mulheres que sofreram agressões dos seus atuais ou antigos parceiros que, na sua maioria, não aceitam o término dos relacionamentos.

Lá conhecemos Laura (nome fictício), de 28 anos, uma das mulheres que tentam romper o ciclo da violência e recomeçar a vida. Ela conta que, desde o último final de semana, foi acolhida. Antes disso, ela procurou a ajuda da mãe, após inúmeras violências agressões sofridas em silêncio, quando o ex-parceiro também tentou machucar uma de suas pequenas crianças - a vítima interferiu, enquanto protegia o outro bebê em seus braços. "Até quando ele me feria, sentia que poderia passar a dor, mas quando começou a querer bater nos meus filhos, não deixei. Foi assim que criei forças e contei tudo para minha mãe, ela me ajudou sair de lá", relata.

Poucos dias depois, o agressor a encontrou no caminho do trabalho, espancou, obrigou a entrar dentro do carro e disse que seria seu "último dia", mostrando uma faca no porta-luvas. A vítima implorou para que ele pensasse em seus filhos e disse que retornaria para o relacionamento, caso ele não a matasse. Blefou.

Quando se lembra de como sua vida era deste relacionamento, a jovem ainda revela que jamais imaginaria o pesadelo que está vivendo hoje. Sente falta da felicidade que já provou antes de uma relação agressiva e, em partes, ainda se culpa por ter envolvido com o ex - que não demonstrava sinais do que se "transformaria". Quando se projeta no futuro, se imagina sem medo de andar na rua e em segurança com seus filhos. 

Após o dia que quase foi morta, na volta para casa de sua mãe foi quando entrou novamente em contato com a polícia. Às ameaças continuaram e o "prazo" que o agressor deu a vítima para o retorno pra antiga casa, terminou. Ele disse que desta vez tiraria sua vida, ela teve medo de permanecer enclausurada e também de sair de casa. Era outra prisão. Aí, então, que foi encaminhada para a Casa de Amparo, onde permanece protegida, mesmo que longe da família.

Isso porque, depois de chegar até o local de proteção, sem saber, Laura descobriu que estava contaminada pelo novo coronavírus e teve de ser separada dos filhos. Com as mãos trêmulas, olhos baixos e envergonhados, cada vez que fala dos seus filhos, fica com os olhos mais marejados.

Seu ponto fraco, mas também de fortaleza, eles foram o motivo que a fizeram enfrentar a violência. "Todas as mulheres, assim como todo mundo, nasceu pra ser livre. A gente não pode viver só recuada e com medo. Medo até temos, mas precisamos nos libertar, principalmente às que são mães, pra libertar os seus filhos". 

Casa de Amparo

A casa irá completar 13 anos em 2021 e tem a capacidade de atender 20 pessoas por vez, ao incluir às mulheres sozinhas ou com seus filhos com idade limite de 17 anos. Pouco antes da entrevista, quem deu às boas vindas ao foi  Fabiana Soares, que é responsável técnica do local. Enquanto organizara alguns biscoitos preparados para o Dia das Mulheres, que ela mesma preparou junto aos cartõezinhos com mensagens positivas que serão entregues as hóspedes, conta que há três anos atua no local e pede para a reportagem repare na decoração espalhada.

Rodinei Crescêncio

Fabiana Soares � respons�vel pela Casa de Amparo que ajuda mulheres a romper o ciclo da viol�ncia

Fabiana Soares é responsável pela Casa de Amparo que ajuda mulheres a romper o ciclo da violência. ela detalha funcionamento da unidade na Capital

Ela se referia a dezenas de outros cartões pendurados pelo espaço mas, diferente dos da homenagem, estes tinham as iniciais das vítimas que passaram por lá e o tipo de violência sofreram - como uma lembrança viva das histórias que ganharam a interferência dos profissionais dedicados à proteção das vítimas, além de mostrar quão comum e similar pode ser a história de todas elas - vídeo acima.

"Dois dos casos mais marcantes até me emociono em falar. Um em que uma moça conheceu um rapaz daqui pela internet e veio de Minas Gerais, mas chegando aqui foi muito judiada. Ela achava que ele era bom para ela, dizia que só batia quando ele bebia. A criança que estava com ela tinha a pele toda marcada de queimaduras de cigarro", lembra.

Outro caso foi um que o ex-conjugue descobriu onde a vítima estava e, mesmo tentando fugir, retornando cerca de quatro vezes para a casa de amparo e depois se mudando para outras locações, foi encontrada pelo agressor e morta na frente dos dois pequenos filhos. O tempo "ideal" estabelecido para as mulheres que buscam ajuda - é de quatro meses. Grande parte fica por apenas um mês, depois partem para casa de familiares ou amigas próximas em que confiam. Outras, sem amparo, querem mudar de cidade e recomeçar a vida.

Rodinei Crescêncio

Casa de Amparo ajuda mulheres a romper o ciclo da viol�ncia

O ambiente foi construído para ofertar segurança, assistência social, atendimento psicológico, acompanhamento jurídico, transporte escolar, entre outros. Por muitas vezes, estas mulheres são perseguidas em seus endereços de trabalhos, mas a lei às ampara, em caso de carteira assinada ou sendo servidoras públicas - para um afastamento, caso o ambiente não seja seguro. "Muitas empresas privadas não tem conhecimento disso, mas aí ligamos e explicamos o que está acontecendo e como a tipificação acolhe essas mulheres".

Só no ano passado, cerca de 80 mulheres foram atendidas no lugar. Segundo dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública de Mato Grosso, o número de casos de violência em 2020, período que começou o isolamento, é 75% maior ao que foi registrado no mesmo período de 2019 quando foram contabilizadas 16 mortes em todo o Estado.

Para às vítimas deste tipo de violência ou pessoas que queiram denunciar algum caso, é preciso ligar para o 180. 

Galeria de Fotos

Credito: Rodinei Crescêncio
Casa de Amparo ajuda mulheres a romper o ciclo da violência
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Casa de Amparo ajuda mulheres a romper o ciclo da violência
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Casa de Amparo ajuda mulheres a romper o ciclo da violência
Credito: Assessoria

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Comentários (1)

  • Maria Aparecida Duarte Gabriel | Segunda-Feira, 08 de Março de 2021, 10h42
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    Excelente matéria e retrata a realidade de muitas de nós mulheres em relacionamentos abusivos. Que as mulheres se sintam encorajadas em pedir socorro, em denunciar, procurar a delegacia das mulheres e pedir proteção.

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