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Sábado, 16 de Novembro de 2019, 08h:50 | Atualizado: 16/11/2019, 16h:56

PARADA LGBTQI+

Trans vencem barreiras no trabalho, mas prostituição ainda é alternativa - confira

Arquivo

Caio Trans certa

Caio Birck tem 27 anos e já é empresário

O professor Maxney Alves, de 49 anos, não era respeitado quando trabalhava em uma escola rural do interior de Mato Grosso. A coordenadoria e direção, além de pais e mães de alunos, não gostavam da presença de um homem trans na unidade escolar. Por implicância,  continuavam a lhe chamar pelo seu antigo nome. Mesmo que, para os alunos, ele era o professor Max. “Me sentia bem ruim”, disse.

Neste sábado (15) tem a Parada da Diversidade Sexual de Cuiabá, que chega a sua 17º edição, com o tema “Somos muitos, podemos estar em qualquer profissão”. Segundo a organização do encontro, que reúne diversos movimentos e conselhos da causa LGBTQI+, 20 mil pessoas devem participar do encontro. O foco principal deste ano é discutir a inserção da comunidade no mercado formal de trabalho e a reportagem do foi atrás de algumas histórias.

Maxney disse que nunca teve dificuldade em conseguir trabalho por ser identificar como homem trans. Em toda a sua vida profissional, também não teve muitos casos de preconceito. “Eu penso que o que a instituição deseja é seu profissionalismo. A partir do momento que você soube se comportar no ambiente de trabalho, acabou (preconceito)”.

“Pelos alunos, nunca passei sofrimento. Muito pelo contrário, sou um professor muito dinâmico, faço amizades com todo mundo e já dei aula até para o ensino médio. A partir do momento que a pessoa vê seu estilo de vestir (roupa), ele já sabe que você é, como o povo costuma falar, anormal. Mas eu não vejo por esse lado. Antes de qualquer coisa, sou um ser humano e, então, sou digno de respeito”, acrescenta.

A exceção que lhe marca e ainda presente em suas lembranças é quando trabalhou na escola rural. Era comum que a diretora e coordenadora da escola lhe chamasse de professora – assim mesmo, no feminino –, além de insinuar comentários feitos por pais de alunos. Ao , Maxney conta que foi a única escola em que passou por este tipo de situação. “Havia mães de alunos que não gostavam de mim. É constrangedor sofrer preconceito”.

Hoje, Maxney trabalha como professor no Complexo do Pomeri, o Centro de Ressocialização para jovens em conflito com a lei, em Cuiabá. Repassa que os menores, apesar de problemáticos, não tem preconceito para com ele, entendem seu lado e são até “entrosados” no cotidiano. Dos episódios de preconceito, disse apenas que quer esquecer e levar uma vida tranquila.

A experiência foi completamente diferente também para o educador físico e empresário Caio Birck, 27 anos. Ao , ele conta que, por ser homem trans, nunca teve dificuldade de arrumar um emprego formal. “Todo mundo me respeitou, tranquilamente. Tive essa sorte”, disse. E completa: “entrei numa academia onde me assumi trans. Depois continuei nela por um período de uns quatro ou cinco meses e sai. Mas não por questão de preconceito. Eu abri meu negócio. Foi tranquilo a questão de aceitação. Não foi difícil”.

Prostituição ainda é alternativa

As histórias de Caio e Maxney destoam do padrão para a comunidade LGBTQI+. A rejeição da sociedade, principalmente para transexuais e travestis, deixa somente uma alternativa a eles: a prostituição. “Não é uma opção. É uma consequência que tem em nossa vida por eles fecharem as portas”, afirma Ariane Cury, mulher trans, 37 anos, que foi também a rainha da Parada da Diversidade Sexual em 2018.

Ariane já chegou a ter emprego formal, salário todo mês e direitos. Atuou como professora por muitos anos em escolas de Rio Branco (Acre), mas, no último ano de sua carreira no magistério, foi vítima de bullying pela direção do colégio, que não aceitava sua presença. "Eu até resisti. Meu trabalho era de excelência, mesmo ela não gostando, porém, quando terminei meu trabalho, eu falei para mim mesma que não ia continuar naquela área”.

Em 2008, largou a profissão pela qual se formou, se mudou para Mato Grosso e virou garota de programa. “Na prostituição, posso afirmar que me encontrei. Senti bem mais confortável mesmo passando por momentos difíceis. Me estabilizei financeiramente mais rápido. Eu aprendi muitas coisas. Tive experiências com outras meninas de ver a realidade delas, de ouvi-las, de sofrer juntas, chorar juntas e sentir dor juntas”, disse.

Ariane explica o destino das trans e travestis começa ainda no ambiente escolar. Alvo de bullyings, trans e travestis largam a escola pelos constrangimentos de colegas. São expulsas, em seguida, de casa por não serem aceitos pela família. “Sem dinheiro, sem ter para onde ir e sem amigos, o que resta para elas é a prostituição”.

“É muito fácil para a sociedade apontar o dedo e criticar, mesmo sendo a mesma, que financia toda a vida da travesti, que vive de esquina”, critica. E acrescenta: “Existem algumas empresas que dão empregabilidade para as travestis, mas são muito poucas. A maioria ainda fecha a cara na porta da travesti. Para um patrão, é muito mais fácil ser servido por uma travesti em uma esquina do que dar um emprego para servi-lo dentro da empresa”.

Mesmo aquelas, que estão fora da prostituição e estão em um emprego formal, enfrentam humilhações, constrangimentos e preconceito no exercício da profissão. “O olhar de ódio dentro das empresas, aguentando chacota, risos, deboches, medições de olhares, comparações. Muitas resistem, continuem, enfrentam e se adaptam aquilo. Mas não são todas”.

Ariane conta que há mulheres trans e travestis que almejam uma atividade melhor para suas vidas, como fazer uma faculdade ou abrir um negócio. A vida como garota de programa é uma etapa intermediária para conquistar sua independência pelo trabalho. Esta é, inclusive, a definição para as populações que representam a letra “T” da comunidade LGBTQI+.

“Trans e travestis buscam ser mais independentes por conta desse fechamento do mercado de trabalho. É isso que é ser trans e travesti – se reconhecer, se compreender, se apoderar da sua vida e da sua história e do seu sonho. do seu sonho. É ter orgulho de ser quem você é”, avalia.

Presente e Futuro

Caio Birck tem consciência que sua experiência como transexual destoa das demais. “Eu sei que nosso meio é difícil e é complicada essa questão”, disse. E acrescenta: “Eu vejo como sorte. Nem todo mundo passa por isso em questão de família e emprego. Nunca passei por nenhum tipo de transfobia ou homofobia em trabalho”.

Arquivo

Ariane Curi

Ariane Cury, após ser discriminada, optou pela prostituição

A meta de Maxney é, além de viver tranquilo ao lado da profissão que escolheu e da namorada, mudar o nome de seus documentos. Para isso, espera decisão da Justiça de Mato Grosso permitir a alteração. “Isso me constrange demais”, disse, ressaltando que em locais públicos e nos documentos ainda constam seu antigo nome. Impaciente, disse que vai buscar cartório e ver como pode agir neste caso.

Já Ariane não pensa em voltar para o mercado formal. Exceto, se for a patroa de seu próprio negócio. Ela ainda tem a convicção de que a sociedade é quem empurra as trans e as travestis para a prostituição ao não acreditar em sua capacidade profissional. “As empresas acham que elas não têm capacidade para exercer aquela função”, disse.

“Às vezes, eles se enganam quando dão a chance, mesmo com pé atrás, e vê que a pessoa (trans ou travesti) se mostra bem eficiente e profissional. Eu acho que, devido às dificuldades que passam, elas se dedicam de forma ímpar para poder se sobressair aos demais funcionários”.

Por isso, acredita realmente no lema da Parada deste ano. “A gente pode – e é um direito nosso – estar em todas as profissões. Nós somos capazes de exercer profissionalmente qualquer tipo de atividade de qualquer empresa. Só precisamos que a sociedade e os empresários acreditem na gente como seres humanos e parem de nos sexualizar de ter uma visão sexualizada, marginalizada, vandalizada”.

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