Cidades

Domingo, 20 de Outubro de 2019, 13h:00 | Atualizado: 20/10/2019, 20h:46

FUGINDO DA FOME

Venezuelana abre brechó em Cuiabá e já tenta ajudar outros refugiados - confira

Bruna Barbosa

Sugair Bericoto mant�m brech� em Cuiab�

Sugair Bericoto, junto com a filha, relata toda dificuldade para cruzar fronteira com o Brasil

Quando chegou em Cuiabá, em meados de 2018, fugindo da fome que já fazia   vítimas na Venezuela, Sugair Bericoto, de 47 anos, sonhava em conseguir se estabelecer e, nos desejos mais ambiciosos, em montar algum pequeno empreendimento para fixar raízes na Capital. Atualmente, ela trabalha vendendo roupas usadas em um brechó no bairro Cidade Alta, com o dinheiro das vendas tenta ajudar outros venezuelanos. 

As peças são doadas por um padre, que ajudou a matriarca da família de três filhos a se estabelecer em Cuiabá, foi ele quem conseguiu o imóvel onde o brechó funciona atualmente. Sugair, o marido e os filhos moram no mesmo local. Na garagem da casa, que antes parece ter abrigado um empreendimento comercial, as blusas, calças e sapatos cobrem as paredes e portões. 

Com as vendas de roupas usadas ela consegue enviar entre R$ 30 e R$ 50 para os familiares que ainda sofrem com os estômagos vazios na Venezuela. Muitos não conseguiram fugir como Sugair, a fome é um dos poucos assuntos que emociona a mulher de fé inabalável e riso constante. No mais legítimo portunhol, ela lamenta que o dinheiro que consegue enviar não chegará nem perto de resolver os problemas daqueles que ainda vivem no país. 

"Não dá para nada! Para você ter noção, uma Coca-Cola lá [na Venezuela] é muito cara. As pessoas que estão lá não tem o que comer, os ovos são muito, muito caros. Alguns começaram a se alimentar de cachorros. Ay, Diós mio!", exclama enquanto aponta para um cão que passa pela rua. 

É comum observar cuiabanos matando a sede com uma lata do refrigerante citado por Sugair, costumes rotineiros que na Venezuela, porém, são sinônimos de luxo. O site econômico Expantistan, aponta que, neste mês, uma garrafa de dois litros de Coca-Cola é vendida por 22.603,00 bolívares. Para fins comparativos, o salário mínimo venezuelano é de 14.843,54 bolívares - equivalente a R$ 12, quase o mesmo preço de meio quilo de frango e metade do necessário para uma quantia de pão suficiente para duas pessoas. 

O desemprego logo atingiu a família de Sugair, que na Venezuela trabalhava como enfermeira, o marido dela passou meses sem receber o salário. Aliado as altas inflações, os atrasos de pagamento agravaram ainda mais a falta de comida na mesa da casa da matriarca. Para matar a fome, a única opção que lhes restava era comer mangas verdes com sal, que não possuíam etiqueta de um preço que eles não poderiam pagar. 

Acolhimento de venezuelanos  

A matriarca entende o sofrimento daqueles que ainda passam fome ou recorrem às ruas como abrigo, pois, há menos de dois anos, era a mesma realidade dela, do marido e dos filhos. Para conseguir chegar em Pacarana (RO), a família pedia carona nas rodovias. Ela conta das noites extremamente frias, em que as crianças precisavam se encolher dentro de grandes pneus de caminhão para conseguirem se proteger. 

Sugair chora quando lembra do que passou na travessia. "Eram muitos venezuelanos, mulheres e crianças, todos dormindo no chão. Era muita gente", comenta enquanto deixa cair uma lágrima. Na casa onde mora com a família e vende as peças usadas no brechó montado na garagem, Sugair também já acolheu, aproximadamente, 20 venezuelanos.

Orgulhosa, conta que busca ajudar aqueles que, assim como ela, chegaram à Cuiabá sem ter condições mínimas. No dia da entrevista com o , a matriarca da família Bericoto havia acabado de acolher uma senhora quilombola, que precisou viajar para a Capital em busca de atendimento médico. 

O mesmo padre que ajudou Sugair na sua chegada ao Brasil, levou a quilombola até a casa da Venezuela, com a promessa de que, no local, a mulher poderia passar a noite. "Ela [a senhora quilombola] ia dormir na rua, imagina só, uma mulher sozinha dormindo na calçada. No! Vai dormir aqui e depois resolvemos", diz enquanto levanta e pega uma camisola que estava à venda para a mulher tomar um banho e dormir.

Além de conseguir ajudar ao máximo aqueles que precisam, Sugair também sonha em poder trazer o restante da família que ainda mora na Venezuela. Ela explica que, nos últimos meses, o processo de documentação para que os venezuelanos se mudem para o Brasil tornou-se ainda mais complicado.

O pai, a irmã e os sobrinhos dela ainda são alguns dos que sofrem pelo estômago vazio "Pedem muito documentos, quando conseguimos os que eles pedem, logo pedem mais ou dizem que aqueles não tinham validade". 

"Quero conversar com Bolsonaro" 

Para Sugair, foi a fé inabalável em Deus que a trouxe até Cuiabá, ela diz que sabia que tudo ficaria bem e que os filhos matariam a fome, porque confiava em um "ser maior". A mesma fé faz a venezuelana acreditar que conseguiria dialogar com o presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL) e "abrir seus olhos" para o que está acontecendo do outro lado da fronteira. 

Não dá para nada! Para você ter noção, uma Coca-Cola lá [na Venezuela] é muito cara. As pessoas que estão lá não tem o que comer, os ovos são muito, muito caros. Alguns começaram a se alimentar de cachorros. Ay, Diós mio

Sugair Bericoto

Ela conta que o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, é um "homem muito ruim" e que Bolsonaro poderia ajudar os venezuelanos a saírem da delicada situação em que se encontram atualmente. Em setembro de 2015, antes de se candidatar a presidência, Jair afirmou durante uma entrevista ao jornal Opção, de Goiás (GO), que os imigrantes são a "escória do mundo" e defendeu a criação de um campo de refugiados. 

Em março deste ano, durante entrevista à Fox News, o capitão também afirmou que o Brasil conta com apoio e poder de armas dos Estados Unidos para "libertar o povo" da Venezuela. Mesmo as informações a respeito do posicionamento de Bolsonaro sobre a crise que afeta os venezuelanos não desanima Sugair. 

"Tenho coragem para conversar com ele, porque sei da minha fé, se ele tiver fé também me ouvirá. Quero explicar que nem todo venezuelano é ruim, apesar de alguns estarem cometendo crimes no Brasil, somos pessoas boas. O que aconteceu na Venezuela é culpa de nós mesmos e pode se repetir em qualquer outro lugar. Temos que nos ajudar", afirma.

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Comentários (3)

  • Tomás | Segunda-Feira, 21 de Outubro de 2019, 23h13
    0
    0

    Número da Venezolana:(65)981007203.mora em Cuiabá MT cidade alta

  • Eber Aranguren | Segunda-Feira, 21 de Outubro de 2019, 21h42
    0
    0

    Muy bien por esa venezolana. Por prestar su ayuda alos demas paisanos de Venezuela. Dios la bendiga

  • Mariane | Domingo, 20 de Outubro de 2019, 14h21
    2
    0

    Gostaria de um telefone ou endereço da loja certinho....tenho varias roupas para doação...

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