Edésio Adorno

O que fazer com o sangue das vítimas da Covid-19?

Por 29/05/2020, 07h:44 - Atualizado: 29/05/2020, 07h:51

Dayanne Dallicani

Colunista Ed�sio Adorno

Os tempos mudaram, os homens se tornaram frios, insensíveis e indiferentes ao drama humano. O sentimento de solidariedade ao próximo foi jogado para o escanteio, se é que algum dia existiu. Conquistar o poder político ou nele permanecer, em desprezo a saúde, a vida ou a sobrevivência dos desafortunados, é tudo para quase todos que emergiram das urnas sob a promessa de que moveriam céus e terra para assegurar assistência médica e condições dignas de vida a população. Pura balela.

O sangue das 26.788 pessoas mortas pela Covid-19 daria para encher quase três caminhões-tanque – daqueles usados para transportar combustível. Mais um exemplo tétrico: os mais de 133 mil litros de sangue das vítimas da doença (...) seria o suficiente para lavar a praça dos Três Poderes e ainda sobraria sangue para espargir na fuça caprina e insolente dos vigaristas que insistem em subestimar a letalidade do maldito vírus da morte

No momento em que rabisco este texto, o Brasil contabiliza 26.788 mortes provocadas pela Covid-19 e 441.315 casos confirmados da doença em todo o país. Em Mato Grosso, Várzea Grande registra 10 mortes para 203 casos confirmados; Cuiabá, com 655 casos de contágio, apenas 8 pessoas perderam a batalha contra a doença causada pelo novo coronavírus. No interior do Estado, a situação é de aparente controle, com exceção de Barra do Garças, onde o número de infectados está em ascensão.

Recordo que lá atrás, em 24 de abril, quando a prefeita de Várzea Grande, Lucimar Campos, por conta e risco, se curvou a pressão de empresários e de políticos negacionistas, sem amparo de estudos e na melhor forma de contrariar as normas de prevenção a propagação do coronavírus, determinou a reabertura do comércio, inclusive de shopping. Na época, emissários graduados de Lucimar ligaram para o prefeito de Cuiabá e tentaram convencê-lo a também escancarar as portas do comércio. Emanuel Pinheiro resistiu por mais alguns dias. A diferença pode estar na quantidade de cadáveres.

O sangue das 26.788 pessoas mortas pela Covid-19 daria para encher quase três caminhões-tanque – daqueles usados para transportar combustível. Mais um exemplo tétrico: os mais de 133 mil litros de sangue das vítimas da doença e, em alguns casos, da omissão das autoridades, da falta de leitos de UTIs, de respiradores e de meios para se chegar aos hospitais mais equipados, seria o suficiente para lavar a praça dos Três Poderes e ainda sobraria sangue para espargir na fuça caprina e insolente dos vigaristas que insistem em subestimar a letalidade do maldito vírus da morte.

Imagino que nenhum prefeito, governador ou o presidente da República serão responsabilizados civil ou criminalmente pela mortandade de homens, mulheres, jovens, crianças e idosos, causadas formalmente pela Covid-19, mas substantivamente, em muitos casos, pela omissão, covardia e crueldade de desalmados gestores públicos.

É possível que na órbita material ninguém seja punido, exceto alguns malandros por roubalheira na aquisição de equipamentos para combate a pandemia do coronavírus. Já no plano espiritual a história pode e deve ser bem diferente. Muitos nem devem passar pelo purgatório, vão direto para o inferno, porque são essencialmente servos do capiroto.

No momento mais dramático e angustiante da vida nacional, em que o coronavírus avança célere pelos quatro cantos do País, choca saber que saber que as barreiras de defesa da população estão fragilizadas. O Ministério da Saúde está acéfalo, sem comando e sem um titular para coordenar as ações de enfrentamento dessa terrível doença que avassala o País e segue matando indiscriminadamente.

Alheio a essa triste realidade, o presidente Jair Bolsonaro mal conclui uma confusão para iniciar outra e assim manter o País a beira do abismo da ruptura institucional. Não bastasse a insegurança sanitária, precisamos nos precaver contra o coronavírus e contra as doideiras de Bolsonaro. O fio de esperança que nos resta reside na ação firme de prefeitos e de governadores. Nesse momento de agrura social, avalio que seria prudente que Bolsonaro celebrasse com ele mesmo um acordo de armistício. Menos bravata, menos ameaça as instituições e mais cuidado com a saúde da população. Um bom começo seria nomear um titular para o MS e outra medida interessante seria conceder a si mesmo e a seus filhos um período de quarentena. Fica a dica.

Edésio Adorno é advogado em MT e escreve exclusivamente nesta coluna toda sexta-feira. E-mail: edesioadorno@gmail.com​

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Comentários (3)

  • Edmar Roberto Prandini | Sexta-Feira, 29 de Maio de 2020, 17h23
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    Afinal, depois de escrever tanto, o que você propôs? Nada! Se você não tem nenhuma proposta, nem boas nem ruins, não se oponha a quem as tem. Quer conhecer minhas sugestões? As publiquei no Linkedin, abertas, para todos conhecerem. Todas factíveis. Apesar de que quem nunca fez coisa alguma achar que são mirabolantes. Leia-as: https://bit.ly/36OC8aD

  • GILMAR DE PAULA | Sexta-Feira, 29 de Maio de 2020, 16h45
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    A conta da desgraça toda deve ser encaminhada para o chinês comedor de morcego pagar.

  • Zvilmar | Sexta-Feira, 29 de Maio de 2020, 12h02
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    Uai...nao entendi...ha poucos dias o Edesio detonava o Fabio de Tangara por impor medidas rigidas contra o Covid...to sem entender.

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