EDÉSIO ADORNO

Enquanto isso, a sepultura nos aguarda!

Por 01/05/2020, 08h:22 - Atualizado: 01/05/2020, 08h:22

Dayanne Dallicani

Colunista Ed�sio Adorno

Na Casa Grande, os donos do engenho reúnem seus capatazes e celebram a vida farta que levam; na senzala, nos guetos, nas favelas e em barracos empilhados em palafitas, o Aedes aegypti executa manobras rasantes e escolhe o alvo. A presa, já castigada pela falta de saneamento básico, desnutrida e fragilizada por uma existência de miséria, sofrimento e dor, busca nos desguarnecidos postinhos de saúde a chance de sobreviver para continuar alimentado a perversa engrenagem social.

O coronavírus, a esse público, não causa apenas uma gripezinha. Ataca os pulmões, eleva a temperatura do corpo, sufoca a respiração e mata. Para todos que estamos no vértice base da pirâmide social, a Covid-19 causa muito mais que um difruço, resfriado, constipação ou uma gripe.

Causa morte, revolta, vergonha, tristeza e irresignação. É uma peste apocalíptica de consequências catastróficas, em especial para quem precisa trabalhar e fazer a economia girar em troca do mínimo necessário para sobreviver.

Por enquanto, estamos assistindo de longe o espetáculo tétrico protagonizado por heroicos coveiros que arremessam corpos sem vida nas covas rasas que se multiplicam no Amazonas, São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Ceará e em outras unidades da federação.

Ele é um super-herói, imune ao coronavírus, ordena que voltemos ao trabalho. Então, sigamos o líder. Se fraquejar, não se preocupe, ao seu lado já têm dezenas de sepulturas abertas

Mato Grosso ainda está sendo preservado pela Covid-19 ou sua invasão à nossa terra foi barrada pelo trabalho preventivo do Governo do Estado e das prefeitura.

Claro, num primeiro momento, a população se recolheu em casa. Essa atitude deve ter impedido a disseminação do vírus. Infelizmente, já estamos no clima de libera geral, de vida que segue e de priorização da economia. É preciso manter o engenho em funcionamento e garantir que não falte dinheiro nas bruacas dos senhores da casa grande.

A psicologia ensina que na medida que o homem influencia também é influenciado. No nosso caso, isso é meia verdade. Nossa cultura escravocrata, influenciada pelo sofrimento indígena, nos faz dependente de um líder que tire a cangalha imaginária de nosso pescoço e nos torna cidadãos de primeira linhagem. Não custa acreditar. Afinal, precisamos acreditar em alguma coisa, ainda que essa coisa seja apenas uma coisa falaciosa e enganadora. Coisas da fé.

Já nos curvamos a Antonio Conselheiro, Getúlio Vargas, Collor, Lula e tantos outros. Nosso salvador mais recente nasceu em Glicério, que dista pouco mais de 400 km de Sorocaba, de onde partiram os bandeirantes que rasgaram o solo mato-grossense e goiano em busca de índios para escravizar. Nessa empreitada genocida, índios idosos foram assassinados, os jovens presos a laço e as donzelas estupradas com prazer mórbido.

Nosso líder e redentor não nasceu em Sorocaba, mas se comporta como um bandeirante dos tempos modernos. Não tem empatia e nem remorso. Ele promete uma imaginária libertação de um jogo igualmente imaginário e em troca, exige apupos, aplausos e reverência. Ele é um super-herói, imune ao coronavírus, ordena que voltemos ao trabalho. Então, sigamos o líder. Se fraquejar, não se preocupe, ao seu lado já têm dezenas de sepulturas abertas.

Edésio Adorno é advogado em MT e escreve exclusivamente nesta coluna toda sexta-feira. E-mail: edesioadorno@gmail.com​

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Comentários (1)

  • Bernardo | Segunda-Feira, 04 de Maio de 2020, 15h49
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