Eduardo Mahon

2+ 2 = 4?

Por 11/01/2020, 09h:23 - Atualizado: 11/01/2020, 09h:29

Dayanne Dallicani

Colunista Eduardo Mahon

 

Recentemente, li numa revista semanal uma interessante provocação “A matemática foi descoberta ou inventada?” O que parece mera retórica é, na verdade, a mais central questão da filosofia. Para os mais antigos pensadores do Ocidente, as regras matemáticas estavam todas aí, desde que o mundo é mundo.

Na verdade, a matemática existe antes do mundo. Porque, com ou sem cientistas, 2 + 2 = 4. Há, portanto, uma realidade pré-existente, gostemos ou não, essa é uma das respostas que inaugurou uma longa escola de pensamento – o platonismo do qual desdobraram-se dezenas de outras tendências.

As coisas são, independentemente da nossa percepção. E serão, após a nossa morte. No máximo, podem parecer diferentes porque são os nossos sentidos que nos impedem de vê-las por inteiro. Assim é a matemática e, portanto, a verdade como um todo. A verdade não é construção e sim uma revelação. Outros pensadores desconfiaram da verdade absoluta e mesmo do método de investigação dessa verdade.

O mundo real, esse de objetos etéreos e de verdades imutáveis, não existe. Tanto nossa visão sobre as coisas, como o método de enxergar a realidade é uma construção humana, permeada de outras ideias, sentimentos, comportamentos. O que é verdade ontem não será verdade hoje e, provavelmente, sofrerá mudanças amanhã. Assim se deu com grande parte do conhecimento científico que, por sua vez, sofreu brutal alteração.

Na verdade, a matemática existe antes do mundo. Porque, com ou sem cientistas, 2 + 2 = 4. Há, portanto, uma realidade pré-existente, gostemos ou não, essa é uma das respostas que inaugurou uma longa escola de pensamento – o platonismo do qual desdobraram-se dezenas de outras tendências

Quando mudam os métodos de coleta e de interpretação de resultados, mudam-se os resultados e conclusões. Em resumo: a verdade varia de acordo com o conjunto de observadores. É um produto do processo de interação humana que se chama dialética. Se a matemática se constitui, para o primeiro grupo, de leis imutáveis, para o segundo time seria o resultado de convenções humanas que convergiram para métodos consensuais de coleta, amostragem, interpretação e apresentação de resultados. Até mesmo a refutação de um postulado matemático é fruto das regras prévias.

 Vejamos a nossa pergunta inicial: 2 + 2 = 4? A convenção humana que compõe o problema são os sinais gráficos. É aí que polemiza o segundo time de filósofos. O caso é melhor explicado quando nos referimos aos fenômenos essencialmente humanos. A forma de pensar e a linguagem influenciam-se mutuamente, formando uma avenida de mão dupla. O tempo, o espaço, os costumes, a psiquê, aspectos políticos e religiosos, tudo faz variar a forma com a qual as pessoas olham para o mundo e para si mesmas. Aparentemente, as duas escolas têm argumentos fortes.

 A primeira traz o que parece ser uma obviedade: 2 + 2 = 4, independentemente da nossa existência, da nossa consciência e, sobretudo, da nossa vontade. É com base nesse postulado de investigação que as ciências exatas se constituíram. Os descrentes da “verdade” pré-existente (nessa altura, preciso usar aspas), investigam como se constitui a própria pergunta: com que linguagem, com que símbolos, com que interesses? Ou seja, recuam para a fórmula com a qual o cérebro humano raciocina.

De Platão a Kant, de Kant a Hegel, de Hegel a Marx, de Marx a Sartre e, junto com eles, uma infinidade de pensadores como Heidegger, Freud, Foucault, Saussure, Chomsky, Peirce, Spencer, Giddens e tantos outros, a filosofia se divide entre a observação da realidade e a observação do observador. Nietzsche chutou o balde e mandou às favas a equação matemática e os próprios matemáticos, mas isso é outra história.

Eduardo Mahon é advogado, escritor e escreve exclusivamente neste espaço todo sábado. E-mail: edu.mahon@terra.com.

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