Eduardo Mahon

50 tons de ignorância

Por 15/02/2020, 06h:00 - Atualizado: 15/02/2020, 06h:08

Dayanne Dallicani

Colunista Eduardo Mahon

O mundo é muito grande e o ser humano, muito diverso. Há os masoquistas que gostam de sofrer, uma preferência que se estende da cama à política. Excitam-se apanhando, algemados, queimados, beliscados e penetrados. Nada contra. Entre quatro paredes, vale tudo e o problema é de quem vai receber a chicotada. Na política também há os masoquistas. Gostam de pagar impostos e pontificam com orgulho que preferem dar dinheiro ao Estado. Se comprazem no pagamento de taxas diversas, impostos sindicais, seguros obrigatórios e até carteirinhas de estudante, tudo sob o mando estatal para implementar o conforto de entidades de classe e, como não podia deixar de ser, dirigentes partidariamente engajados. Se o problema do masoquismo sexual é de cada adepto do bondage, a questão do masoquismo político diz respeito a todos nós.

Se o problema do masoquismo sexual é de cada adepto do bondage, a questão do masoquismo político diz respeito a todos nós

É inaceitável que assumamos uma carga tributária escorchante como é a brasileira. No direito tributário, há o princípio do não-confisco, isto é, um imposto não pode ser tão alto a ponto de confiscar o contribuinte. Ao contrário do que se pensa, é a população mais pobre que paga impostos, enquanto alguns intelectuais aplaudem a prática de empobrecimento coletivo. A maior carga tributária recai sobre o consumo de bens e serviços, aliviando a vida dos milionários que não pagam um centavo pelos dividendos resultantes das grandes fortunas. Ainda assim, há gente protestando contra qualquer medida para desonerar o empregador e, por consequência, facilitar a contratação de novos trabalhadores, tornando a relação trabalhista menos engessada e onerosa. É insustentável que um trabalhador brasileiro custe 150% do próprio salário.

Claro que, quase sempre no Brasil, todo o masoquista é um pouco sádico. Como gosta de sofrer, acredita que todos devam sofrer. Aí é que reside a diferença entre o masoquismo sexual e o masoquismo político. Temos um conjunto de intelectuais que comprou uma cartilha vencida na década de 60 e não reconhecem o bolor ideológico que os acomete. Eis a cartilha: monopólios estatais de atividades-meio, empresas públicas para atividades-fim, empreguismo público e privado, altos impostos, subsídios públicos de múltiplas naturezas, de juros internos a compensações financeiras a Estados que não tributam a produção interna. Na verdade, o problema está na visão sobre as funções do Estado que variam: pai, padrasto, amigo, inimigo ou até amante.

O Brasil não é para principiantes. Ocorre uma inversão das mais radicais: de um lado, o poder público está privatizado. Grande parte do movimento estatal atende a interesses particulares, casuísmos insólitos, vantagens impensáveis. O Estado é um serviçal. O que deixa de fazer pela população faz por um grupelho mínimo. De outra banda, a iniciativa privada e a gestão econômica é profundamente estatizada. Atende-se à gula do Estado em primeiro lugar. Portanto, trabalhamos para pagar a estrutura estatal que, por sua vez, sustenta uma casta de políticos e privilegiados agentes públicos. Os impostos que oneram a folha de pagamento, o consumo de bens e serviços, são gozados por quem trabalha 10 meses e recebe por 13.

É através do medo que os sádicos impõem os cinquenta tons de ignorância que nos escravizam

São milhões de usuários de ônibus os financiadores do motorista exclusivo, são milhares de professores de ensino público os provedores das poucas escolas particulares, são as centenas de contribuintes que formam fila nos hospitais públicos que pagam os planos de saúde para poucos felizardos no Einstein e no Sírio Libanês. O problema é que há quem goste dessa situação. Para cada chinelo há sempre um pé cansado. Os masoquistas alimentam as fantasias dos sádicos que, no fundo, maltratam ainda mais quem aplaude a lógica do estatismo, do empreguismo, das estabilidades e das vantagens incabíveis. A armadilha está em proporcionar alguma aparência de segurança aos fetichistas submissos.

No Brasil, temos tribunais com assessores que seguram malas e sombrinhas para ministros, temos cadeiras com estímulos elétricos para relaxar deputados, temos motoristas e carros privativos para conselheiros, temos licenças, abonos, auxílios e uma infinidade interminável de ajutórios para essa nobreza sádica. Mas também temos intelectuais e militantes de uma ideologia vencida que, sob argumento da presença paternalista do Estado, optam por ganhar menos e continuar na mesma condição social. Têm fetiche de escravidão, de controle, de dominação. Infantilizam-se diante de um líder, de uma instituição, de um pai simbólico que tudo provê. No fundo, a relação masoquista é pautada na insegurança. É através do medo que os sádicos impõem os cinquenta tons de ignorância que nos escravizam.

Eduardo Mahon é advogado, escritor e escreve exclusivamente neste espaço todo sábado. E-mail: edu.mahon@terra.com.br

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Comentários (1)

  • Olga | Sábado, 15 de Fevereiro de 2020, 13h59
    0
    0

    Como diz Mia Couto, muitos têm medo q o medo acabe. Bela reflexão!!

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