Eduardo Mahon

A criatura e o criador

Por 05/10/2019, 00h:01 - Atualizado: 11/10/2019, 21h:39

Dayanne Dallicani

Colunista Eduardo Mahon

As pessoas costumam acreditar que “humanidade” é uma característica inerente ao ser humano. Bastaria pertencer à linhagem dos homo sapiens para portar o tal atributo. A maioria está redondamente enganada, como costuma acontecer. Desde que descemos das árvores e nos equilibramos de pé, colecionamos incontáveis casos de desumanidade. Como é possível? Períodos históricos de longa duração foram marcados pelo trágico processo de desumanização, isto é, a dessensibilização aos estímulos que definem o que seria a humanidade. Trocando em miúdos: se o humano pode ser desumano, a conclusão é que a humanidade não é uma qualidade intrínseca. Ela pode ser ensinada, transmitida, reforçada. Para isso, existe a arte.

 Podemos dizer que a arte é a principal fonte da nossa moderna humanidade. Esse papel já foi ocupado pela religião, muito embora esteja implícito um indissociável moralismo nos dogmas professados em cada doutrina

Ninguém se engane sobre a arte, todavia. Por mais que possa estar registrada em livros, catálogos, exposições, ela não é um documento que se aprende como um catecismo. Nem se fale em utilidade prática! Do Renascimento ao Dadaísmo, a arte provou-se autônoma. Faz mais de 500 anos, não se presta unicamente para o registro histórico ou para celebração religiosa. A arte ganhou estatuto autônomo e enfrentou destemidamente todas as tentativas de subordinação: nem o colonialismo, nem o imperialismo, nem o nazismo, nem o socialismo, foram capazes de submeter completamente a arte para fins educacionais, religiosos, propagandísticos ou seja lá o que os regimes totalitários pretendessem. Mesmo quando o artista gozava do mecenato, da proteção ou da condescendência de um regime político e entrava nos jogos do poder, a estética é sempre instável e propensa a guinadas radicais. Há resistência no estilo, mesmo que o tema seja bem comportado.

Cumprida essa brevíssima retrospectiva, podemos dizer que a arte é a principal fonte da nossa moderna humanidade. Esse papel já foi ocupado pela religião, muito embora esteja implícito um indissociável moralismo nos dogmas professados em cada doutrina. A arte passou à frente e há séculos representa uma das poucas fontes de humanidade. Música, literatura, dança, pintura, escultura e tantas outras manifestações artísticas não fazem apenas retratar um tempo, um espaço, uma ideia. A arte não se presta a sedimentar impressões históricas e, por isso, não deve ser encarada como simples documento. Claro que os críticos podem (e devem) contextualizar a estética e a temática invocadas num determinado período histórico. É até compreensível que se faça essa espécie de mapeamento para fins didáticos.

Ocorre que não há correlações automáticas da arte com reduções econômicas, sociológicas, psicológicas, antropológicas ou políticas. Como qualquer expressão humana, está sujeita às múltiplas abordagens, mas nenhuma delas é suficiente. A arte é produzida num determinado tempo, local, circunstância. Mas transcende ao factual e pretende dialogar com o passado e o futuro, reforçar ou romper uma tradição, legar uma mensagem às próximas gerações sobre o que é, o que deveria e o que não deveria ser. Ao longo dos anos, a arte desmontou o pictórico relacionado ao retrato. O que era uma reprodução da natureza, passou a ser uma impressão e uma expressão do artista ou foi redimensionado pelo surrealismo, remontado pelo cubismo ou desmantelado pelo abstracionismo.

A natureza foi simplesmente abandonada pelo dadaísmo que radicalizou na metalinguagem e, depois, torna-se inverossímil no ultrarrealismo, uma ironia singular na minha opinião. Dessa forma, os artistas conseguiram demonstrar, estilo após estilo, escola após escola, século após século, que a arte não é um mero espelho da realidade. Ao mesmo tempo em que é retrospectiva e simbólica, é também prospectiva. Traduzindo para o bom português: não há arte alienígena, descolada da caminhada humana. A arte pode simbolizar, retratar, registrar, mas não há arte que não ressignifique a própria humanidade, imaginando o que existiu, o que existe e o que ainda pode existir. É na arte que o ser humano se vê, censura-se, rejeita-se, projeta-se e, por fim, aceita-se humano. Não é a humanidade que produz arte. É justamente o contrário. A arte produziu e continuará produzindo humanidade. Talvez aí possamos concluir que, ao contrário do que pretendem os dogmas religiosos, não viemos do barro amassado por um demiurgo, mas somos o produto de nossas próprias construções.

Eduardo Mahon é advogado, escritor e escreve exclusivamente neste espaço todo sábado. E-mail: edu.mahon@terra.com.br

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