Eduardo Mahon

A negra, a branca, o racismo, o glamour e o patrulhamento

Por 08/08/2020, 08h:27 - Atualizado: 08/08/2020, 08h:34

Dayanne Dallicani

Colunista Eduardo Mahon

A pesquisadora Lilia Schwarcz, reconhecida nacional e internacionalmente pelo precioso levantamento historiográfico e, mais recentemente literário, criticou a compositora e cantora Beyoncé por "glamourizar" a negritude. A artista estaria representando uma imagem descolada da realidade africana. O que pensar sobre isso? Será que Schwarcz que publicou obras sobre a escravização, sobre o autoritarismo e sobre o racismo é, ela mesma, racista?

Inicialmente, a reação às colocações da pesquisadora é a mais pobre possível - Lilia é branca e, portanto, não pode falar sobre negros. Curiosamente, porém, já falou e falou muito sobre a escravização africana e sobre o racismo e, até então, recebeu aplausos dos mais diversos segmentos. É bastante raso esse rebate crítico porque desconhece a enorme contribuição de Schwarcz para o estudo do sequestro africano e, mais recentemente, o valioso estudo sobre o escritor Lima Barreto. Claro que a crítica "ad hominem" é uma reação esperada, ainda mais em tempos de palanque virtual.

Não é a condição pessoal que empresta autoridade ao argumento e sim seu conteúdo consistente. No entanto, quero convidar os leitores a descansarem as armas por um instante. Judeu não pode tecer uma crítica aos evangélicos? Pode. Negro não pode analisar comunidades indígenas? Pode. Brancos não podem criticar negros? Pode. E vice-versa? Claro! Lilia errou. Não por ser branca. Errou porque prescreveu “o que deve fazer” a cantora. Isso é da conta da artista, não da crítica. Ou seja, o sapateiro foi além da sandália. Aliás, culpada pela “prescrição” foi a Folha de São Paulo, não a autora do artigo.

Schwarcz alega que o imaginário de Beyoncé, relacionado ao luxo, à ostentação, não pertence ao imaginário africano real e, portanto, a "glamourização" e a “espetacularização” cria um imagem distorcida dos valores tradicionais. Como carioca que sou, fico sempre a lembrar da máxima de Joãozinho Trinta: “pobre gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual”. Nessa esteira, minhas questões para Schwarcz são de outra ordem: 1) qual o recorte africano a ostentação de Beyoncé não representa? 2) por que o glamour seria incompatível com os povos africanos? 3) estamos falando de todo o universo africano? Só de fazer essas questões, podemos intuir o equívoco nas colocações de Lilia.

Inicialmente, é falso que os povos africanos são ontologicamente primitivos e simplórios. É curioso como se confunde alhos com bugalhos. É a pobreza extrema que caracteriza uma boa parte do continente. O que a maioria não vê é a significativa contribuição (contemporânea, inclusive) em matéria artística, mais especialmente da ourivesaria africana. É até risível pensar que povos do continente não têm esse viés “espetaculoso” quando paramos para pensar na grandiloquência dos faraós. Até onde a geografia ensina, os egípcios continuam sendo africanos. Mesmo que não se pense numa sociedade escravocrata como era o caso, podemos voltar a atenção para Gana, Etiópia e Nigéria, onde mulheres usam pérolas, corais, ouro, prata, diamantes, turmalinas, diamantes, conchas, esmeraldas, penas, numa mistura complexa que sempre inspirou a joalheria “sofisticada” da Europa.

Ora, ora, meus caros leitores! As mulheres africanas são mulheres. Os homens africanos são homens. Ninguém é muito diferente de ninguém, por mais que essa tarja classificatória insista em perdurar. Todo mundo gosta de aparecer, de se destacar, de uma forma ou de outra. Nós temos um pouco (ou muito) de pavão que faz a corte para acasalar.

Eduardo Mahon

Ora, ora, meus caros leitores! As mulheres africanas são mulheres. Os homens africanos são homens. Ninguém é muito diferente de ninguém, por mais que essa tarja classificatória insista em perdurar. Todo mundo gosta de aparecer, de se destacar, de uma forma ou de outra. Nós temos um pouco (ou muito) de pavão que faz a corte para acasalar. Em termos de aparência, panos, joias, adereços, mobiliário, todo o conjunto imagético está presente de diferentes formas para atender o que há de mais humano (ou ainda animal?) que nos caracteriza. O problema é que identificamos o “africano” (que não existe no singular) com o “pobre” (que existe em todo lugar). Daí que passamos a acreditar no “primitivismo” das “tribos”, numa vida destituída de sofisticação. Não é verdade. Já está na hora de virar o disco.

O ser humano surgiu e fez escola na África. Grande parte do que conhecemos de espetáculo, de música, de dança, de pintura, veio do continente africano. De fato, Beyoncé não representa os miseráveis de Biafra como muita gente pensa que toda a África será pelo resto da eternidade. Representa sim não só a ancestralidade que se empetecava dos pés à cabeça na antiguidade, rainhas em seus suntuosos palácios com centenas de escravos, como também uma nova parcela de várias nacionalidades africanas que, sim!, comemora a acumulação capitalista e sua quase inevitável ostentação. Se essa representação é boa ou má, são outros quinhentos. Não vejo problema algum. Diabos! Por que intelectual gosta de celebrar a miséria? Por que não celebrar a riqueza? Parece que a riqueza não “combina” com determinadas cores...

É claro que o nosso mundinho europeizado não consegue encaixar o negro em sua classificação. Não só o negro. A mulher, o gay, o judeu, o transsexual, o muçulmano. É claro que a presença do negro é visto pejorativamente como cota. Mas vamos combinar algumas coisas: 1) é preciso estimular que os negros falem por si mesmos, no entanto falar das questões da ancestralidade africana não é monopólio de negros – esse é um reducionismo intelectual dos mais obtusos; 2) é preciso não misturar as bolas quanto à análise crítica e alvejar uma pesquisadora que pode ter sido infeliz em seus cacoetes estruturais, mas que tem uma contribuição inegável; 3) o negro, o branco, o amarelo, o vermelho, o azul e o multicolorido, gosta do que lhe parece melhor e mais significativo, podendo ou não ser glamourizado e ostentado; 4) a hipérbole é um recurso dos mais usados na arte – a glamourização dos gregos, dos romanos, dos cruzados, dos navegadores, não é nada diferente do que faz Beyoncé; 5) a gente tem que tomar bastante cuidado para não reproduzir um racismo estrutural, de um lado, e para não fazer um patrulhamento sacal, de outro.

Eduardo Mahon é advogado, escritor e escreve exclusivamente neste espaço todo sábado. E-mail: edu.mahon@terra.com.br

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Comentários (1)

  • . | Sábado, 08 de Agosto de 2020, 10h23
    1
    0

    Essa Lilia Sr Mahon, fica só procurando cabelo em ovos, mas nada apresenta de consistente em seu discurso para sensibilizar pessoas inclinadas ao ódio racial, empoderar o povo negro e nem avançar o discurso. Ela só descreve violência no canal que mantém no YouTube. Acho que ela quer holofote, apenas isso. O seu ensaio vale por todos os vídeos que ela posta no YouTube. Vídeos de desserviço histórico e social.

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