Eduardo Mahon

A tentação de Júlio César

Por 02/05/2020, 10h:20 - Atualizado: 02/05/2020, 10h:28

Dayanne Dallicani

Colunista Eduardo Mahon

O totalitarismo não é uma novidade. Não era nem mesmo para Mussolini que quis reviver os tempos romanos de fasci di combatimento. No mundo clássico, Péricles foi acusado de tentar concentrar o poder em plena democracia. Como? Queria dispensar a representação política convencional para falar ao povo sem mediadores. Surgiu a demagogia. Não chega a ser uma ditadura, mas representava um abalo na credibilidade da política. Júlio César acreditava na república romana, desde que dela fosse o chefe vitalício. Nunca se saberá ao certo se tencionava realmente dar um golpe de estado para perpetuar-se ditador, mas o fato é que Augusto foi o primeiro imperador por mais que insistisse dizer que vivia numa república. Não é curioso como a linguagem pode ser manipulada para representar o oposto da semântica original?

O desprezo pela multilateralidade inerente à política não é de hoje, portanto. Muitas vozes sugerem confusão, falta de objetividade, perda de eficiência. Parece ser mais fácil confiar numa única pessoa o poder suficiente para realizar, concretizar, guiar. Nessa lógica, a política passa a ser um empecilho para o avanço de uma nação porque está permeada de interesses difusos. Como resultado, não só a política como o político profissional é considerado inimigo e identificado com toda a ineficiência da administração. De quem é a culpa por um país não dar certo? Da política e dos políticos, evidentemente. Qual a solução? Não há outra alternativa que não seja dispensá-los. Não sem, antes, rotulá-los como inimigos.

Nesse caldo instável, os cidadãos pretendem respostas objetivas, ações executivas sem mediação, emendas, alterações – amarras em geral. Passa a enxergar na democracia um “defeito” de percurso. O sistema representativo que não é perfeito, transforma-se em “problema insolúvel”. Costumeiramente, aponta-se para a falha na verossimilhança da representação, isto é, o político não seria o verdadeiro representante do eleitor. Essa crítica não deixa de ser verdade, mas não espelha a totalidade dos casos. Quem seria o representante da vontade do povo?

Nesse caldo instável, os cidadãos pretendem respostas objetivas, ações executivas sem mediação, emendas, alterações – amarras em geral. Passa a enxergar na democracia um “defeito” de percurso. O sistema representativo que não é perfeito, transforma-se em “problema insolúvel”. Costumeiramente, aponta-se para a falha na verossimilhança da representação, isto é, o político não seria o verdadeiro representante do eleitor. Essa crítica não deixa de ser verdade, mas não espelha a totalidade dos casos. Quem seria o representante da vontade do povo? O líder, o chefe, o monarca ou o presidente. Se é apenas uma pessoa o “verdadeiro” representante, para que existir outras vozes? A política torna-se um freio para o progresso e o político, sua trava. A culpa pelo fracasso administrativo não é do governante que sempre quer o bem para o povo e sim do Legislativo e do Judiciário.

São os parlamentares responsáveis pelos obstáculos ao desenvolvimento de uma política pública. Os juízes, por sua vez, impedem a implementação de ações mediante o cotejo de detalhes desimportantes. Esse é mais um “defeito” da democracia: permitir que outros poderes interfiram na vontade executiva cujo representante foi eleito de forma direta, sem intermediários e, portanto, enfeixa a verdadeira vontade popular. Curiosamente, todavia, os críticos da democracia não enxergam que é a soma dos parlamentares que obtém grande parte dos votos, enquanto o executivo ganha apenas a maioria simples. De outro lado, não percebem que juízes não pautam políticas públicas, mas são responsáveis por analisar se projetos e ações coadunam-se com a vontade popular expressa na constituição jurídica fundamental do país.

O defeito da democracia embala o sonho da ditadura. São visões completamente diferentes. A política transforma-se em suporte para o governante, os políticos servem para reforçar a plataforma central enquanto os juízes ratificam ações executivas. O problema não são as falhas da democracia que estão ligadas fundamentalmente à representatividade. O problema é ver na democracia um defeito em si. Não suportar o questionamento severo de uma política “por razões políticas” parece um paradoxo impossível de ser contornado. Usar a política para extinguir a política, querer representar a despeito da opinião dos representados, rejeitar julgamentos técnicos, afastar-se da vontade constitucional originária é o caminho certo para a ditadura.

Esse caminho é pavimentado culpabilizando a “política profissional”. Rejeitar a linguagem política, o jogo parlamentar de forças, a liberdade midiática de crítica, a fiscalização técnica, o juízo especializado e, sobretudo, manipular a opinião pública para creditar os “defeitos da democracia” aos parlamentares e aos juízes, são estratégias conhecidas. Em momentos de crise, a tentação de Júlio César ferve no sangue dos líderes. A democracia só é boa, se não houver questionamento, empecilho, fiscalização, contramarcha, julgamento e crítica. Há muita gente querendo a ditadura porque acredita que nela encontrará estabilidade, segurança, progresso e, claro, um interesse popular genuíno, livre de corrupção. Nada mais ilusório.

Eduardo Mahon é advogado, escritor e escreve exclusivamente neste espaço todo sábado. E-mail: edu.mahon@terra.com.br

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Comentários (1)

  • Edivaldo Rocha dos santos | Sábado, 02 de Maio de 2020, 17h39
    1
    0

    Parabéns pelo artigo.

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