Eduardo Mahon

Bolsonaro nazista?

Por 18/01/2020, 00h:01 - Atualizado: 18/01/2020, 00h:28

Dayanne Dallicani

Colunista Eduardo Mahon

Pouquíssimas pessoas no Brasil chegam a se incomodar. Primeiro, porque não sabem quem foi Goebbels e não sabem o que foi o nazismo

Estava conversando com minha família no café da manhã sobre as declarações do Secretário Nacional de Cultura, Roberto Alvum. Pouquíssimas pessoas no Brasil chegam a se incomodar. Primeiro, porque não sabem quem foi Goebbels e não sabem o que foi o nazismo. Segundo, porque jamais fariam a relação entre um e outro discurso, mesmo que as expressões tenham sido copiadas. Terceiro, porque raciocinam em termos pragmáticos: se a economia está melhorando, tudo o mais vai melhorar. Quarto, porque imaginam que a cu...ltura não é essencial, sobretudo por nunca terem direito de usufruir verdadeiramente dos aparelhos culturais públicos e privados.

Na Alemanha, deu-se exatamente o mesmo. Uma economia arrasada que foi recuperada em pouco tempo. Tudo o mais era apenas um detalhe. Não sabiam que Hitler era um canalha? Claro que sabiam. Mas a classe médica foi, aos poucos, negociando a questão dos costumes e das liberdades civis com o sucesso econômico (bancado pelo Estado). São pequenas concessões, uma a uma, que vão construindo um monstro. O nazismo foi o ápice de uma política eugênica que já vinha fermentando na Europa há mais de 100 anos. Os cidadãos pouco se importavam com as sandices que Hitler escrevia em Minha Luta e tampouco com seus discursos descontrolados.

Na Alemanha, deu-se exatamente o mesmo. Uma economia arrasada que foi recuperada em pouco tempo. Tudo o mais era apenas um detalhe

Qual o conjunto discursivo do nazismo? A evocação de mitos fundadores, o ideário de progresso contínuo, o desenvolvimento de políticas coletivistas, o horror à expressão individualista, a ideia de uma nação forte e expansiva, a crença na organização apolítica dos militares, a higiene racial e a promoção de uma “cultura sadia”. Como se vê, o Secretário Nacional de Cultura usou exatamente as mesmas expressões que Goebbels, Ministro da Propaganda de Hitler, escreveu para que o Führer discursasse. Essa valorização de valores se dá com base num tripé fé-trabalho-família. Aparentemente, não há nada demais. A maioria do povo é religiosa, quer trabalhar e se organiza em famílias. Contudo, a exclusão de todos os outros abre o flanco para o totalitarismo.

Espanta que o Secretário Nacional de Cultura não seja sumariamente demitido. Nem mesmo Bolsonaro alcança o ideário de J. Goebbels. Ele é muito obtuso para isso. Trata-se de um militar de segunda categoria, um oficial menor que apanhou a patente em uma sentença. Elegeu-se com a plataforma armamentista consecutivas vezes e era um dos deputados mais “exóticos” como Clodovil, Feliciano, Jandira e o restante do circo de horrores que acontece na Câmara dos Deputados. Elegeu-se pelo voto contra a quadrilha que espoliava o país. Qual era a plataforma? Nem ele sabia. Tinha ideia de que era preciso cumprir as promessas básicas e libertar a economia de muitas amarras que, de fato, ainda tem. Mais nada.

Nada vale o nazismo. Nem o emprego. Nem o salário. Não podemos deixar de criticar. Em nenhuma hipótese. Não podemos negociar um palmo de liberdade por nenhum outro tipo de valor

O ideário de Bolsonaro é conservador. Nada demais ser conservador. Grandes líderes eram assumidamente conservadores. São raros os líderes progressistas que não sofreram forte questionamento público. Esse não é o problema. Ocorre que a ótica tradicionalista de Bolsonaro – como não se sustenta teoricamente por meio de uma equipe bem preparada – pretende catequizar. Eis aí a tragédia. O Estado vai financiar (já está financiando) um conjunto de medidas que imponham um ponto de vista, desmontando o aporte humanista conquistado pelo país pós-ditadura. Chamando de “libertinagem”, exatamente como Hitler já o fez, querem censurar e sufocar as manifestações diversas. Corta-se financiamento direto e proíbe-se aliados de apoiar, demite-se quem pensa diferente. A receita para o totalitarismo é relativamente óbvia.

Nada vale o nazismo. Nem o emprego. Nem o salário. Não podemos deixar de criticar. Em nenhuma hipótese. Não podemos negociar um palmo de liberdade por nenhum outro tipo de valor. Liberdades civis são inegociáveis. Independentemente do quê esteja em jogo, do quê esteja aparentemente sendo trocado. Essa é uma mensagem clara que, como intelectuais, devemos lançar à sociedade. Não abrimos mão da nossa liberdade. É preciso desligar esse cafajeste da Secretaria Nacional de Cultura e manter a estreita vigilância sobre o germe nazista que está crescendo na sociedade brasileira. Chega a ser irônico. No nazismo, os primeiros que seriam exterminados são os que mais aplaudem.

Eduardo Mahon é advogado, escritor e escreve exclusivamente neste espaço todo sábado. E-mail: edu.mahon@terra.com.br

Postar um novo comentário

Câmara de Barra devolve R$ 100 mil

joao rodrigues 400 presidente c�mara barra do gar�as   A Câmara Municipal de Barra do Garças devolveu à prefeitura R$ 100 mil para serem investidos em medidas de combate ao novo coronavírus. O presidente do Legislativo, vereador João Rodrigues de Souza, o doutor...

Auditor assume Secretaria de Controle

demilson nogueira 400   O auditor Newton Gomes Evangelista, servidor de carreira, é o novo secretário de Controle Interno da Assembleia. Ele já respondeu também pela Auditoria-Geral da Casa. Newton assumiu a Controladoria Interna no lugar do ex-prefeito de Ponte Branca, Demilson Nogueira (foto), que deixou o posto...

Cuiabá é a unica com tudo fechado

emanuel pinheiro curtinha   A pressão sobre o prefeito Emanuel Pinheiro (foto) fica agora mais forte para flexibilizar logo o decreto restrito por causa do coronavírus. Ele é o único dos gestores das maiores cidades mato-grossenses que ainda mantém decisão de fechar praticamente tudo na Capital, com...

Deputado põe aliado no lugar do irmão

ronaldo taveira 400 curtinha   Coube ao próprio deputado Wilson Santos indicar um nome para o lugar do irmão Elias Santos, que na última sexta (3) deixou a secretaria de Gestão de Pessoas da Assembleia para concorrer a vereador em Cuiabá. E o ex-prefeito emplacou no cargo que rende R$ 19,9 mil mensais o velho...

Sem alarde, vereador muda de partido

viniciys clovito curtinha   De última hora e sem alarde, o vereador pela Capital Vinicyus Hugueney (foto) resolveu deixar o PP e se filiou ao Solidariedade. Com isso, o PP não se torna o único com a maior bancada. Está com três vereadores, assim como o PV e o PSDB. No SD, Vinicyus vai concorrer internamente com...

Irmão de Thelma na lista dos traidores

ronaldo pimentel 400 curtinha   Na carta aberta assinada por Ricardo Saad, que preside o PSDB cuiabano, ele reclama de dívidas milionárias herdadas de antecessores, inclusive dos R$ 4 milhões de pendências somente do pleito de 2016, e menciona, entre outras coisas, que "(...) há correligionários, que estavam...

ENQUETE

facebook whatsapp twitter email

Você concorda com a decisão de prefeitos, que começam a decretar estado de emergência, fechando comércio, serviços públicos e o transporte coletivo?

sim

não

sei lá!

Não se trata de pesquisa eleitoral, mas de um mero levantamento de opiniões de leitores do RDNews e do Blog do Romilson, com participação espontânea dos internautas. Resultado sem valor científico.