Eduardo Mahon

E daí?

Por 09/05/2020, 00h:03 - Atualizado: 08/05/2020, 20h:19

Dayanne Dallicani

Colunista Eduardo Mahon

O impacto do coronavírus na Itália chocou o mundo. Os brasileiros quiseram entender. Surgiram os achismos epidemiológicos: 1) a população é mais longeva; 2) as cidades têm maior densidade demográfica; 3) o turismo é intenso. Foram 30 mil mortes. Os teóricos das redes sociais acreditaram que jamais teríamos um número parecido. Negacionistas de todas as seitas apostaram em 6.000 mortes no Brasil. Passaremos de 10 mil até sábado. Por quê? Temos um clima quente, temos a cloroquina, temos um grande território, somos mais jovens...

Fico me perguntando quando o país vai se solidarizar de verdade. Com 20 mil mortos? Com 30 mil? Com 50 mil? Na verdade, tudo isso faz com que o óbvio se imponha. A solidariedade brasileira sempre foi um mito. Um mito essa boa vontade, um mito esse calor humano, um mito esse acolhimento brasileiro. Nunca foi verdade. O brasileiro não se preocupa com iniciativas solidárias. Nem os ricos se somam, nem a classe média. Aliás, os brasileiros não gostam de programas de solidariedade. Atacam-nos incessantemente, seja no governo, seja na iniciativa privada.

Muito ao contrário do que se imagina, o “homem cordial”, descrito por Sérgio Buarque de Hollanda, não se tratava do brasileiro solidário, de um tipo amoroso. Não é nada disso. O que “Raízes do Brasil” traz é um estudo do brasileiro que decide pelo fígado, que se deixa levar pelas emoções e não pela razão. Essa forma de existir nunca foi sinônimo de solidariedade. Ser emotivo não é ser solidário. Aliás, ser emotivo em geral conduz à agressividade.

A falta de empatia de uma significativa parcela da sociedade brasileira já se refletia na misoginia, na homofobia, no bullying, no racismo, enfim, já temos recordes internacionais de agressividade. Nunca lamentamos o ônibus lotado, a falta de saneamento básico, o nível das escolas públicas. O pobre nunca teve voz e quem tem jamais quis se colocar no lugar da pobreza para criar alternativas de combate à desigualdade. Esse nunca foi um “assunto agradável”.

A atual barbarização com o qual se trata as mortes por coronavírus é mais uma amostra dessa truculência histórica

Eduardo Mahon

A atual barbarização com o qual se trata as mortes por coronavírus é mais uma amostra dessa truculência histórica. Nunca fomos ensinados a pensar no outro. Costumamos naturalizar a miséria humana. E quem denuncia? Este será atacado. É muito provável que desqualifiquem esse artigo porque “sou rico”. Então, não posso falar. É o problema do “local de fala” às avessas. Ninguém pode pedir solidariedade que não seja o próprio miserável. Ocorre que o miserável não tem esse espaço.

Continuamos ouvindo muitas vozes perguntando “e daí?”. As pessoas morrem. Sempre morreram. Continuarão morrendo. O desprezo pela morte por coronavírus é o mesmo que havia contra moradores de rua, os dependentes químicos, a prostituição infantil, a violência doméstica. Quantos morrem de dengue? De cólera? De tifo? De sarampo? Se não formos nós, o que isso importa? Não é problema nosso. É assunto para o governo, pensamos assim.

Somos profundamente egoístas. Curiosamente não vamos melhorar. Ao contrário. Tudo indica que a truculência se normalizará na opinião pública. Se há alguns anos surgiu o orgulho pela própria ignorância, há hoje orgulho de exibir o desprezo e a brutalidade. Estamos doentes. A falta de empatia vai se agravar rapidamente e criar tipos psicopatas. Milhares de pessoas vão cuspir na cara do outro e dizer: foda-se. E daí?

Eduardo Mahon é advogado, escritor e escreve exclusivamente neste espaço todo sábado. E-mail: edu.mahon@terra.com.br

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Comentários (5)

  • Paulo Bomfim | Sábado, 09 de Maio de 2020, 19h04
    3
    1

    Para a perfeição absoluta faltou a observação de que as chamadas elites brasileiras é escravocrata. Jamais aceita a igualdade social.

  • Covid no Biroliro | Sábado, 09 de Maio de 2020, 18h59
    3
    0

    Transmitiu um pensamento que deveria ser óbvio para todos. Apenas isso e nada mais. Mas como estamos vivendo tempos de estupidez, muitos tacham essa ideia de comunista.

  • Moreira | Sábado, 09 de Maio de 2020, 15h12
    3
    8

    Só um animal pra escrever umas besteiras dessas, baseadas em recortes de jornais tendenciosos. Cale-se, Eduardo Sabão.

  • Domingos Tabajara | Sábado, 09 de Maio de 2020, 05h51
    4
    2

    Mandou bem Mahon, abs.

  • FRANK SABIÁ | Sábado, 09 de Maio de 2020, 00h43
    4
    2

    Que Texto, meus Amigos ! Tinha que ser um Imortal pra Escrever isso. Também penso assim, mas como o Texto diz, nem todos podem se expressar em certos espaços. Me Representou

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