Eduardo Mahon

É óbvio

Por 11/04/2020, 09h:45 - Atualizado: 11/04/2020, 09h:51

Dayanne Dallicani

Colunista Eduardo Mahon

Tempos horríveis em que é preciso dizer o óbvio. Como escreveu Nelson Rodrigues, óbvio ululante. Óbvio que o presidente da República se chama Jair Bolsonaro e foi ele quem ganhou as eleições com a maioria dos votos válidos. Óbvio que se elegeu com a plataforma conservadora nos costumes e liberal na economia. Óbvio que sua conturbada biografia militar já adiantava alguém de trato rústico. Óbvio que a eleição deu-se também por rejeição ao arco de aliança de centro-esquerda e pela corrupção em níveis industriais. Tudo isso era muito óbvio. Mas também é óbvio algumas outras coisas. Bolsonaro tenta, com relativo sucesso, transformar política em religião. Engana-se quem pensa que estou a me referir à fé pessoal do presidente, ostensivamente pontificada no exercício do cargo público.

Estou me referindo ao nosso país, uma democracia de milhões de eleitores, com imprensa livre, voto direto, órgãos de controle e um desequilibrado sonhando em promover uma migração de um regime democrático para um odioso autoritarismo militar, regime que obteria integral apoio dos seguidores

O giro político se radicalizou para além da própria política. Isto é: não há apoiadores do líder. O que há são seguidores. Óbvio que são coisas diferentes. O apoiador torce para que sua opção política dê certo, inclina-se para compreender as ações governamentais, retarda a crítica e capricha no elogio. Essa é uma atitude racional, politicamente alinhada a uma determinada plataforma. Para o apoiador, há companheiros e adversários. O seguidor aplaude toda e qualquer iniciativa e faz mais: critica o crítico, elege inimigos, quer eliminá-los. Até mesmo os apoiadores são olhados com desconfiança. Importante é seguir o líder, depositar nele uma confiança incondicional, descartar os mediadores políticos, jurídicos, técnicos. O líder reúne características de salvador e os seguidores começam a se comportar como apóstolos na esperança da salvação.

Para o seguidor, tudo vale a pena. Se o líder não tem sucesso em uma determinada empreitada, projeto ou ponto de vista, a culpa é dos outros. É o Congresso que chantageia, o Judiciário que torpedeia, os Tribunais de Conta que atrapalham. É a imprensa brasileira a culpada, junto com a mídia internacional, os outros líderes políticos, os intelectuais e as universidades, os artistas nacionais, todo um conjunto caracterizado como inimigo. E o inimigo, como já anotei, é mais do que um adversário. O inimigo precisa ser destruído, deve desaparecer, ter a voz e a representatividade extinta. O inimigo é identificado por uma doença, um organismo invasor e hostil. Não há convivência nem diálogo possível com os inimigos.

O radicalismo é tão intenso numa política messiânica que os aliados passam por um criterioso escrutínio de lealdade. Devem pensar como o líder, falar como o líder, agir como o líder. A discrepância levanta imediatamente a suspeição. A suspeição aparta o aliado do grupo, depois o transforma em inimigo. É o caso do inimigo íntimo, um traidor que precisa ser removido o quanto antes para não contaminar o restante da equipe com sua voz discrepante. Esse aliado-inimigo, ao olhos dos acólitos, quer roubar o fogo divino, competir com os deuses e apunhalar o líder. As redes civis de apoio miram pesada artilharia contra o divergente, inventam biografias demeritórias, criam o complô que o líder precisa desarmar para sobreviver ao ataque insidioso interno, mais perigoso do que as críticas dos inimigos convencionais.

O Brasil contemporâneo está acometida por uma profunda paranoia coletiva. Teses ditadas pelo líder são imediatamente incorporadas à fala dos seguidores: 1) é preciso eliminar a esquerda; 2) é preciso reduzir os direitos sociais; 3) a oposição se dá por interesses escusos; 4) os atores políticos estão sob eterna suspeita; 5) os órgãos de controle estão dominados por interesses políticos oposicionistas; 6) o sistema político precisa ser desmontado; 7) a imprensa deve passar por uma seleção política e ter a concessão cassada, se não reproduzir as verdades do líder; 8) os aliados devem dar mostras constantes de obediência; 9) os centros de conhecimento devem levar um duro arrocho para reestruturá-los ideologicamente; 10) os intelectuais precisam ser etiquetados de inimigos porque não representam o pragmatismo do líder.

O Brasil contemporâneo está acometida por uma profunda paranoia coletiva

Parece que estou bancando uma Hanna Arendt? Não estou. Parece que estou me referindo aos regimes fascistas? Não estou. Parece que estamos no conturbado período entreguerras? Não estamos. Estaria eu falando sobre o stalinismo? Não estou. Ou ainda sobre o maoísmo? Também não. Quem sabe sobre o castrismo? Definitivamente não. Fiz uma análise sobre o regime pseudodemocrático russo? Não. Fiz considerações sobre as tragicômicas ditaduras bolivarianas? De forma alguma. Estou me referindo ao nosso país, uma democracia de milhões de eleitores, com imprensa livre, voto direto, órgãos de controle e um desequilibrado sonhando em promover uma migração de um regime democrático para um odioso autoritarismo militar, regime que obteria integral apoio dos seguidores. É óbvio.

Eduardo Mahon é advogado, escritor e escreve exclusivamente neste espaço todo sábado. E-mail: edu.mahon@terra.com.br

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Comentários (1)

  • Covid no Biroliro | Sábado, 11 de Abril de 2020, 11h16
    6
    1

    Boa análise sobre o atual governante do Brasil, o BIROLIRO. Aliás, muito preocupante se ter um desmiolado orientando o comportamento e a opinião de um séquito de futuros iludidos, que são muitos.... sobre o texto, parece que o autor plagiou o uso do termo ÓBVIO do filme O POÇO (2019). De qualquer forma isso não tira a qualidade do texto e nem desmerece a intelectualidade do autor.

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