Eduardo Mahon

Esquerda e Direita: qual a diferença?

Por 12/10/2019, 00h:00 - Atualizado: 19/10/2019, 06h:43

Dayanne Dallicani

Colunista Eduardo Mahon

A esquerda ganhou em Portugal. Claro que essa afirmativa é relativa. Ser esquerda, hoje em dia, é mais defender interesses corporativos do que propriamente pensar numa alternativa para a sociedade. Isso significa, em resumo, que não se faz mais a esquerda como antigamente. “Ser de esquerda”, há 50 anos, era o mesmo que bater-se contra o mercado.

Ninguém é maluco de pregar uma sandice dessas, até por causa de inúmeros exemplos de retumbante fracasso ao confiar no Estado para dirigir uma empresa que atuasse no mercado livre. Portanto, o que é “ser de esquerda”, na verdade? Procurei conversar com gente simples aqui de Portugal para entender exatamente o que eles mesmos pensam sobre o que os brasileiros nunca souberam direito.

Normalmente, a resposta converge – esquerda é o partido que cuida dos trabalhadores. E a direita é o grupo que pretende valorizar o livre mercado e o empresariado. Os ricos, em resumo. Mas cuida dos trabalhadores de que forma?, pergunto em seguida. Trata-se sempre da previdência. Os trabalhadores com quem dialoguei – taxistas, faxineiras, garçons, secretários, motoristas, comerciantes – preocupam-se em receber a contribuição atual. São poucos que citam outra pauta de esquerda como o conjunto assistencial que o Estado desembolsa.

Diante da coincidência nas respostas, questiono em seguida – e os trabalhadores portugueses recebem o mesmo valor dos altos funcionários? Claro que não!, respondem todos em uníssono. Aí está o problema que nem sequer é percebido por quem é questionado.

É certo que “ser de esquerda”, no dizer de Bobbio, é privilegiar a igualdade sobre a liberdade, enquanto “ser de direita” é valorizar a liberdade mais do que a igualdade. Evidentemente, cada sistema tem uma sutil regulagem entre livre iniciativa e a equalização social. O Brasil, por exemplo, não tem nenhum dos dois valores acentuado: somos uma sociedade profundamente burocratizada com a mentalidade cartorial e, de outro lado, temos um abismo social entre a ostensiva riqueza e a pobreza obscena. Vivemos num país que não pode se dar ao luxo de ter uma identidade política marcada porque nunca fomos nem “de direita”, nem “de esquerda”. A verdade é que, de ambos os lados, fomos simplesmente roubados, independentemente da verborragia que sai da boca da classe política.

No entanto, independente do drama político brasileiro, quero voltar às minhas andanças em solo lusitano. Não há equiparação?, prossigo perguntando sobre a previdência. Não! Há trabalhadores de classes diferentes, poucos beneficiados com 4 a 5 mil euros por mês, além de acumularem mais de um recebimento – recebo como resposta.

Ora, então o que se defende é esse sistema previdenciário que beneficia poucos?, pergunto por fim. O resultado da conversa inevitavelmente redunda em vagos lamentos sobre a injustiça. No Brasil, guardadas as proporções, dá-se exatamente o mesmo. Os trabalhadores mais simples identificam na “esquerda” o resguardo de garantias relacionadas ao salário e previdência social, mesmo que o sistema permaneça profundamente injusto. Por quê?

Minha hipótese é simples: escondem-se nas fileiras da “esquerda” o funcionalismo de elite, geralmente ligado ao Poder Judiciário e Legislativo, além de alguns privilegiados do Executivo. São esses quem dão o tom dos discursos que são reproduzidos sem qualquer reflexão pelos milhões de trabalhadores que nunca tiveram qualquer expectativa de ganhar mais de 5 salários de aposentadoria.

É preciso refletir: afinal, quem se beneficia verdadeiramente com o atual sistema?

Eduardo Mahon

Curioso é que a pauta da “esquerda” com base em supostos “direitos conquistados” diz respeito à minoria absoluta do povo, mesmo que seja defendida em praça pública por milhares de trabalhadores que jamais gozaram das mesmas condições ou se beneficiaram com o sistema desigual e injusto. No bom português, o povo não passa de boi de piranha, massa de manobra para uma ínfima parcela da burocracia aburguesada.

É preciso refletir: afinal, quem se beneficia verdadeiramente com o atual sistema? Não é anacrônico um “proletariado de direita”? O que dizer de uma “burguesia de esquerda”? Não tenho qualquer dúvida de que um país tão pobre como o nosso precisa de doses cavalares de liberdade e de igualdade, em proporções iguais.

O problema é que não temos nem estímulo à livre iniciativa privada, nem a igualdade entre os trabalhadores. Numa das pontas do sistema, a regulação estatal é insuportavelmente onerosa e esconde a fragilidade empresarial de muitos segmentos da “direita” à míngua dos costumeiros subsídios e, na outra ponta, os privilégios trabalhistas e previdenciários acalentam na “esquerda” uma burguesia hipócrita que esconde o gordo contracheque. Conclusão: no Brasil, quem mama no Estado é ambidestro.

Eduardo Mahon é advogado, escritor e escreve exclusivamente neste espaço todo sábado. E-mail: edu.mahon@terra.com.br

Postar um novo comentário

Will sai do PSDB e adere ao Podemos

itamar Will 400   O líder comunitário do bairro Pedro 90 Itamar Will, conhecido por fazer a defesa apaixonada do ex-governador Pedro Taques nos grupos de Whatsapp, apresentou carta de desfiliação do PSDB após 22 anos de militância  e está aderindo ao Podemos. Agora, passa a ser...

Advogado de MT toma posse no CARF

thiago dayan curtinha advogado 400   O advogado Thiago Dayan (foto) tomou posse no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), em Brasília, na última terça (15). Ele se tornou o único representante de Mato Grosso no Conselho Federal, responsável por julgar decisões de instância administrativa,...

Dutrinha será reinaugurado só em abril

francisco vuolo curtinha 400   Convocado a comparecer nesta quarta à reunião da Comissão de Trabalho, Administração, Serviços e Obras da Câmara Municipal, para explicar sobre a situação do estádio Dutrinha, especialmente em relação ao andamento das obras, o...

Botelho, vaidade e implante capilar

Eduardo Botelho _ 400   Vaidoso, o presidente da AL Eduardo Botelho vai se submeter a um procedimento estético. Se afasta por uma semana para realizar um implante capilar. Bem humorado, anunciou que ficará fora alguns dias para atender pedidos femininos. Depois, disse que vai usar boné e pediu para não ser fotografado...

CPI da Energisa e resultado incerto

elizeu_curtinha_400   O deputado de primeiro mandato Elizeu Nascimento (foto) vai presidir os trabalhos da CPI da Energisa, que realiza a sua primeira reunião nesta 4ª. Thiago Silva, Paulo Araújo e Carlos Avalone vão atuar ativamente nas investigações, sendo membros titulares, mas o resultado ainda é...

Prefeito Pátio tira verba da Santa Casa

jose medeiros 400 curtinha   O ex-senador e deputado federal José Medeiros (foto) reclama da postura oportunista do prefeito Zé do Pátio, de Rondonópolis. Explica que, por meio de emenda de bancada, foram destinados R$ 12,9 milhões para a Santa Casa atender pacientes do SUS da região Sul, compreendendo 20...

ENQUETE

facebook whatsapp twitter email

O que você acha das denúncias, principalmente sobre pagamento de propina, feitas pelo ex-presidente da AL José Riva, que tenta fechar delação?

São verdadeiras

Nem tudo é verdade

Acho que ele está mentindo

Não sei

Não se trata de pesquisa eleitoral, mas de um mero levantamento de opiniões de leitores do RDNews e do Blog do Romilson, com participação espontânea dos internautas. Resultado sem valor científico.