Eduardo Mahon

Mister, Lula e Bolsonaro

Por 28/12/2019, 08h:15 - Atualizado: 28/12/2019, 08h:24

Dayanne Dallicani

Colunista Eduardo Mahon

 

Tenho a lamentar a confusão que se dá entre “seguidores” e “eleitores”. Não é de hoje, entretanto. Ainda assim, com o surgimento das redes sociais, o caso pulou do divã do psicanalista para o campo político. Desde que o mundo é mundo, seguidor é quem entrega-se de corpo e alma para seguir. Acredita com todo o coração, devota-se. As religiões surgem com seguidores, assim como as torcidas organizadas de futebol. Há seguidores displicentes como os atuais católicos que vão à missa aos domingos, mas consultam os signos antes de sair de casa e há seguidores violentamente apaixonados como os hooligans ingleses que mais parecem uma vara de javalis selvagens. Se vão seguir Krishna, Maomé, Hitler ou Fidel é uma questão de circunstância.

Os seguidores dão a vida pela fé como Pedro, coitado, pregado à cruz de cabeça pra baixo. A causa não importa tanto. Os seguidores sempre estarão à disposição para o sacrifício: os cangaceiros por Lampião, os fanáticos por Jim Jones, os grevistas de fome por Lula ou a torcida coreografada por Bolsonaro. É tudo uma coisa só – seguidores de uma crença que se personifica no líder. Nas festinhas de amigo-oculto ouço comentários do tipo “sempre fui de esquerda” que me fazem lembrar “sempre fui Flamengo”, ou ainda, “sou de direita, mas liberal” me soe da mesma forma que “sou espírita, mas kardecista”. É que, no ofício de seguir, é preciso ser específico: há seguidores liberais nos costumes e intervencionistas na economia; outros são conservadores nos costumes, mas liberais na economia. Importa seguir a cartilha, a voz de um deus oculto.

O seguidor nas redes sociais é o que adere sem pestanejar. Replica notícias de sites especializados em vocalizar o que o partido/milícia pensa. Chega-se ao extremo de compartilhar piadas, desde que todos concordem que a piada alheia é puro mau gosto.

Eduardo Mahon

Na política brasileira, lamentavelmente, os eleitores viraram seguidores. Adere-se tanto a uma determinada ideologia que o conjunto de valores agrega-se ao nível ontológico. O seguidor passa a “ser” de direita ou de esquerda como condição existencial prévia. Como ninguém nega o que é, a saída no debate é defender a própria existência e, por isso, o debate político ganha foros de arena de combate. Luta-se para existir. O “ser de esquerda” luta com o “ser de direita” como gladiadores. Quem ganhar provará ao adversário que a verdade de sua fé e, de outro lado, a mistificação da crença alheia. Daí que todos os atos dos adversários são nulos, desprovidos de qualquer mérito. A vitória do Fluminense será sempre roubada, a fé umbandista será sempre superstição e Cuba sempre o melhor país da América Latina.

Não se trata da projeção da religião na política. Não me refiro à bancada evangélica com suas bíblias de sovaco em pleno Congresso Nacional. Não estou querendo espicaçar as missas de louvor com adeptos fantasiados de monges medievais. A assunção da religião na política brasileira tem alguns anos e vai crescer, interpretando a laicidade constitucional da mesma forma que o STF interpreta a prisão de segunda instância. O grotesco não é a pauta principal desse artigo. O que me assusta é a figura do “seguidor” na política porque fazem da política uma religião em si. Noutras palavras: aprofundam a mera participação da comunidade religiosa na política partidária (o que é natural em qualquer lugar do mundo onde haja partidos conservadores).

O seguidor nas redes sociais é o que adere sem pestanejar. Replica notícias de sites especializados em vocalizar o que o partido/milícia pensa. Chega-se ao extremo de compartilhar piadas, desde que todos concordem que a piada alheia é puro mau gosto. O seguidor não cria repertório próprio porque não pensa. O seguidor é aquele que se ajoelha para receber a comunhão da opinião consagrada. O seguidor é incondicional no apoio. Os bolsonaristas justificam a idiotia patológica do presidente seja comparando com a gestão anterior, seja relativizando-a frente aos descalabros de corrupção do passado recente (como se Bolsonaro fosse, ele mesmo, uma vestal). Os petistas justificam a óbvia desonestidade da cúpula religiosa relativizando o trabalho do Judiciário (que só é bom quando embarga ações do time adversário) e do Ministério Público (que só presta quando aciona a família do inimigo).

A política deixou de ser o espaço pensado por Aristóteles para reunir as diferenças e fazer refletir diversidade. Tornou-se um templo de dogmas, emanados de concílios partidários. Maria era virgem? Lula é inocente? Bolsonaro é honesto? Os seguidores são todos milicianos, armados por metralhadoras que cospem palavras de ordem: Lula-Livre, Deus-Acima-de-Tudo-e-o-Brasil-acima-de-todos, Pátria-Educadora, Ame-o-ou-Deixe-o e outras burrices do mesmo calibre. Números? Índices? Sentenças? Tudo é relativizado. Depende do “local de fala” de quem pesquisa, de quem interpreta e de quem sentencia. É muito provável que o “Mister” (apelido do atual técnico do Flamengo) seja eleito o próximo Presidente da República. Para os seguidores, ele é muito melhor que Lula e Bolsonaro. Afinal, “tem até Jesus no nome”. Não é ótimo?

Eduardo Mahon é advogado, escritor e escreve exclusivamente neste espaço todo sábado. E-mail: edu.mahon@terra.com.br

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