Eduardo Mahon

Natureza e Natura

Por 01/08/2020, 00h:02 - Atualizado: 31/07/2020, 14h:58

Dayanne Dallicani

Colunista Eduardo Mahon

Nesse mundo-arena que vivemos, a polêmica do momento é a adoção da imagem de um homem trans para a campanha publicitária do Dia dos Pais da empresa Natura. Mas Natura não quer evocar Natureza? Homem trans? Não é antinatural? Não é desnaturar a natureza? Vejamos as nuances do caso. Homens trans nasceram num corpo feminino, mas não se identificam com ele. É claro que nasceram biologicamente diferentes do que a mente informa, sinaliza, identifica, realiza e, justamente por isso, denominam-se trans. Ao contrário do que se pensa, não se trata de uma mera “escolha”. Ninguém escolhe ser macho ou fêmea, mas pode escolher se tornar homem ou mulher. Como assim?

Há muitas prisões na mente humana, tantas que os recalques podem consumi-la. A mais comum é a ilusão de que estamos fadados a um destino. Esse “destino” era comumente identificado com a “vontade divina” nas sociedades mais antigas, mas com o avanço da ciência passou estar próximo com os ditames da biologia. Somos como somos por um imperativo biológico? Sim e não. De fato, ninguém escolhe nascer, nem onde nascer, muito menos como nascer. Da mesma forma que uma criança não pode eleger a família, a região geográfica ou a condição financeira, não lhe é oferecida a opção pela condição sexual.

O ser humano não deve ter um “destino manifesto”, isso não passa de um papo furado da política. Nada “está escrito” como querem muitos religiosos. “Maktub”, vírgula, o ser humano sempre pode escolher uma existência diferente da que nasceu e tem todo o direito de lutar por suas escolhas. Poderia também me socorrer de estudos científicos apontando para o descompasso entre a condição sexual deslocado do corpo biológico para fazer o contraponto essencialmente científico e, então, cairíamos numa outra polêmica onde erguem-se outras igrejas com novas cruzes.

Nem a ciência. Nem a religião. Nada pode subtrair do ser humano o direito de ser o que quiser

Eduardo Mahon

Macho não é homem, fêmea não é mulher. São categorias próximas, mas macho e fêmea dizem respeito aos animais e não alcança o ser humano em sua complexidade. O pior desse problema é considerar qualquer aparente descompasso entre a realidade e o que se espera dela como uma doença. Não é doença. Trata-se de um preconceito recheado de discursos autolegitimadores. A questão, do meu ponto de vista, ultrapassa a própria ciência (que já tornou a transexualidade um fato comprovado) e diz respeito à liberdade, um valor essencialmente ético. Também não quero enveredar por exemplos que a natureza oferece porque poderia gastar meu espaço aqui listando animais que mudam de sexo durante a vida.

Para quem não entendeu ainda a minha colocação, vou tentar ser claro como um dia de sol. Tudo o que diz respeito ao ser humano precisa, antes de mais nada, ser tratado sob o ponto de vista da ética. A menos que reduzamos o homem à condição de uma pedra ou de um inseto, somos seres conscientes e livres para tomar decisões. Portanto, seres éticos. Como seres éticos, precisamos garantir ao outro a existência, isto é, o direito de ser diverso. Sim, pode ser minoria. Sim, pode ser exceção. Sim, pode não representar a tradição. E daí? O transsexual não tem direito de existir? Não tem direito de representar um pai, uma mãe? É claro que tem. Não preciso nem citar os milhões de brasileiros que não têm pai na certidão de nascimento e, mesmo tendo, não gozam da companhia dos mesmos durante a vida. Somem-se os milhares de abusos sexuais de pais (machos) contra filhos e filhas na intimidade do lar.

A desaprovação ontológica – relacionada ao ser – é tão velha quanto a humanidade, mas nem por isso devemos repetir os mesmos erros que deveriam ser quinquilharia histórica. As diferenças físicas, raciais, sexuais foram eliminadas na sociedade espartana, nas tribos esquimós, em algumas comunidades indígenas, várias sociedades africanas, pelos romanos, por colonizadores europeus e, claro, pelo regime nazifascista. Os erros do passado não servem para justificar os erros do presente. Nem a ciência. Nem a religião. Nada pode subtrair do ser humano o direito de ser o que quiser. Parabéns à Natura que está se mostrando mais do que copiar os manuais de biologia do século passado porque prefere expressar e reafirmar a singular e complexa natureza humana.

Eduardo Mahon é advogado, escritor e escreve exclusivamente neste espaço todo sábado. E-mail: edu.mahon@terra.com.br

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