Eduardo Mahon

O Devir

Por 16/01/2021, 09h:45 - Atualizado: 16/01/2021, 09h:45

Dayanne Dallicani

Colunista Eduardo Mahon

Velhas ideias são como organismos vivos. Em geral, vivem adormecidas na mente, parasitando com parcimônia a energia que circula na cachola. Porém, quando a imunidade cai, elas despertam com força e contaminam o corpo do hospedeiro e, se bobear, de milhares de vítimas. A ideia de “civilização” é um dessas seculares tênias que se pregaram no imaginário de muita gente. Quando menos se espera, a brotoeja do preconceito coça sem parar, levando os intelectuais a formular de diferentes formas os antigos preconceitos sobre a cultura popular. O mais grave sintoma dessa doença está no comprometimento identitário. O brasileiro sente-se exilado no próprio país porque almeja que aqui se torne outro lugar. Sonha fugir. Como não pode, luta para transformar sua realidade local, mimetizando padrões estrangeiros.

O brasileiro sente-se exilado no próprio país porque almeja que aqui se torne outro lugar. Sonha fugir. Como não pode, luta para transformar sua realidade local, mimetizando padrões estrangeiros.

Essa espécie de transferência cerebral não é nada nova. Sentir-se estrangeiro no próprio território foi um diagnóstico de vários intelectuais do passado, muito embora eles mesmos tenham sucumbido à coceira civilizatória que pretendia vencer o caráter rebelde desorganizado, lasso e festivo que seria o Brasil profundo. Contaminado até a pituca com os salamaleques da Belle Époque alheia, o intelectual faz biquinho para falar uma outra língua. Pior que isso: quer pensar em outro idioma. Não é incomum organizarem saraus com direito a piano francês, operetas italianas e declamações de Whitman. No original, é claro. Para termos uma boa radiografia de quem é quem nesse universo de escaramuças, basta radiografar as preferências. Poderemos fazer uma cartografia do gosto.

Na biblioteca, o lugar de destaque é sempre para os clássicos românticos, enquanto os aparelhos de áudio tocam ininterruptas sonatas nostálgicas. Onde vive essa gente? Em que passado? De que lugar? Pior que isso: o que fariam eles se chegassem ao poder? A única certeza que temos é que odeiam o popular. Por certo que também odeiam o povo Onde houver uma aglomeração, não haverá refinamento. Parece que estamos vivendo no tempo de Gobineau. Buffon não deixa por menos. Eles assombram muitos casarões coloniais. Quanto equívoco! Estamos vivendo no século seguinte. No milênio seguinte. No entanto, as ideias de civilização, superioridade, refinamento cultural ainda estão grudadas ao casco vazio do preconceito com poderosas ventosas etnocêntricas.

Antes que nos acusem de tacanhos, nacionalistas, promotores da tão antiga patriotada intelectual, deixamos claro que não queremos reivindicar o “genuíno espírito brasileiro” que, aliás, não existe. Não temos mais paciência para as velhas aulas de OSPB doutrinário em matéria de cultura, façam-nos o favor! Também não seremos nós a reprisar movimentos que engendraram xenofobia recalcada. Aliás, somos partidários da geleia geral. A nossa questão é se opor a uma visão qualitativa de cultura. Isso sim é o suprassumo do atraso mental. Essa é a solitária que engorda no organismo intelectual brasileiro, doença que Nelson Rodrigues apelidou de “síndrome de vira-lata”. A ideia de civilizar um povo, por meio do suposto levantamento cultural, é o pior complexo que podemos agasalhar entre os pensadores brasileiros. Mas que espécie de discurso é esse? Esse papo já tá qualquer coisa, diria Caetano.

Infelizmente, algumas ideias sobrevivem aos ideólogos. São ecos do passado que reencarnam em vozes do presente

Já passou da hora de entendermos que qualquer tradição não passa de ficção construída por determinados grupos de interesses. Se é assim, tomamos consciência de que nossa identidade é uma opção e não um fatalismo racial, geográfico, sexual, religioso ou moral. Consciente ou inconscientemente, os intelectuais optam. São as opções que revelam os escritores por inteiro – apenas para falar de literatura. Que narrativa, que narrador, que local, que tempo, que tema? A quem é dado o protagonismo? Quem fala? Quem cala? Quem domina a narrativa? O intelectual revela-se por inteiro através dos personagens, mesmo que se esconda atrás deles. Tudo é resultado de uma opção. Opta-se em negar a realidade e o presente para cultuar a velha erudição de gabinete, do discurso grandiloquente e enciclopédico e, como não poderia deixar de ser, do chá com bolinhos de chuva. Infelizmente, algumas ideias sobrevivem aos ideólogos. São ecos do passado que reencarnam em vozes do presente. Eu mesmo só sonho com o devir.

Eduardo Mahon é advogado e escritor em Cuiabá.

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