Eduardo Mahon

Paus mandados

Por 23/05/2020, 14h:26 - Atualizado: 23/05/2020, 14h:36

Dayanne Dallicani

Colunista Eduardo Mahon

O exército brasileiro ganhou status após a Guerra do Paraguai. No período da independência, as forças armadas não passavam de desorganizadas milícias regionais. Foi na grande guerra platina que os militares adquiriram coesão suficiente para reivindicar um lugar, uma voz e, claro, um soldo. Durante a 1ª República, foram os marechais quem estabilizaram o sistema político, sendo Floriano o “marechal de ferro”. Criminosamente brutal, inaugurou a série que iria marcar períodos tenebrosos da trajetória nacional. Na fase da Velha República, vários presidentes usaram a espada como curriculum, como é o caso de Hermes da Fonseca que posou de farda para a foto oficial. Getúlio, por sua vez, era o desdobramento do tenentismo, movimento político de baixa patente que dava voz à classe média urbana cansada da alternância de paulistas e mineiros no poder.

Na ditatura militar – “regime democrático militar” para os historiadores de botequim – os militares assumiram um cariz técnico. O discurso político foi mitigado pelo viés tecnocrata. Portanto, a comunicação da qual se valiam para legitimar as políticas públicas era de que o Brasil estava na mão de pessoas habilitadas. A legitimidade do staff do primeiro escalão passava pelo escrutínio dos técnicos de cada área. Para o Ministério da Economia, um economista. Para o Ministério da Saúde, um médico. Para o Ministério do Desenvolvimento, um engenheiro. Claro que o sistema era absurdamente contraditório, na medida em que o Presidente da República não era eleito pelo povo e, assim sendo, não era político. Veio da ditadura militar a ideia de que a política é uma atividade intrinsecamente negativa. O político passou a ser sistematicamente depreciado, enquanto o tecnocrata crescia no conceito público.

Bolsonaro consegue destruir tudo o que toca. É o avesso de Midas, o rei condenado por Dionísio a transformar em ouro tudo o que tocava. A atual administração está destruindo os velhos conceitos que uma boa parte dos brasileiros tinham sobre as Forças Armadas. Os valores relacionados à ética e honestidade estão sendo postos de lado para exaltar apenas a obediência hierárquica

Eduardo Mahon

Já sabemos que o modelo militar não funcionou. A planificação da economia (e da vida social) é um equívoco que resulta na tragédia da desigualdade. De fato, a classe média consolidou-se no Brasil, mas a renda concentrou-se e tal disparidade nunca mais recrudesceu. Restaram poucas análises críticas contemporâneas aos militares por razões óbvias. A censura não permitia que outros técnicos pusessem à prova teorias planificadoras de um desenvolvimentismo com base em empréstimos e inflação. O resultado é que Delfim Neto, mentor da política econômica que redundou na brutal desvalorização monetária, hiperinflação e endividamento maciço, ainda é convidado para debates por alguns analistas que babam com as tiradas inusuais do “professor”.

Dificilmente os colaboradores do regime militar são questionados. Os militares foram bem sucedidos em enaltecer a tecnocracia como entidade apartada e superior à política. Hoje em dia, ainda sobrevive o discurso de que é preciso escolher “gente técnica” para cargos políticos. Curiosamente, porém, o que o atual presidente faz é subverter essa lógica e comprometer o legado ideológico das Forças Armadas. Ao abrir as portas para militares ocuparem espaços que eles mesmos legaram aos “técnicos”, Bolsonaro busca o aval externo de um extrato que estava em repouso. O processo de militarização do governo civil faz com que a “expertise” dos militares – um valor caro nas escolas superiores que montaram durante a república – seja duramente questionada. Não se trata de criticar o técnico indicado pelo militar, mas do próprio militar em cargos técnicos.

Bolsonaro consegue destruir tudo o que toca. É o avesso de Midas, o rei condenado por Dionísio a transformar em ouro tudo o que tocava. A atual administração está destruindo os velhos conceitos que uma boa parte dos brasileiros tinham sobre as Forças Armadas. Os valores relacionados à ética e honestidade estão sendo postos de lado para exaltar apenas a obediência hierárquica. É como se os militares não pensassem, apenas obedecessem. Creditava-se aos militares a fama de estrategistas. Atualmente, Bolsonaro reduziu esse conceito, transformando militares em meros paus-mandados. No fundo, o atual presidente desmistifica o militarismo brasileiro e comprova que, antes da honestidade, antes da ética, antes da estratégia, sempre veio a conivência. E a conivência sempre foi e continua sendo um posicionamento político.

Eduardo Mahon é advogado e escritor. E-mail: edu.mahon@terra.com.br

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Comentários (2)

  • waldir caldas rodrigues | Domingo, 24 de Maio de 2020, 08h16
    1
    0

    Pois não é? Sensatez fluiu, fluiu, até jorrou!

  • Covid no Biroliro | Sábado, 23 de Maio de 2020, 17h42
    3
    0

    Militares se rebaixando ao participar de um governo de psicopatas-lunáticos-terraplanistas.

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