Eduardo Mahon

Quem tem medo de avião?

Por 08/02/2020, 13h:00 - Atualizado: 08/02/2020, 13h:01

Dayanne Dallicani

Colunista Eduardo Mahon

Todo mundo tem medo de alguma coisa, não é vergonha admitir. Conheço gente com horror a barata, cachorro, aranha, não importa. Eu tenho medo de avião. Não do aeroplano em si. Eu embarco numa boa. Até gosto do aspecto simétrico dos assentos. Meu problema com aviões começa quando a comissária avisa: atenção, senhores passageiros, fiquem atentos ao aviso de atar os cintos; estamos passando por uma área de turbulência.

É aí que minha coragem se despede. As pernas que, até então, estavam relaxadas, dobram-se esperando o baque. Minha pressão despenca vertiginosamente e fico aguardando o primeiro solavanco. Olho do lado de fora da janela e vejo que estamos no meio de uma nuvem. Não é uma nuvem qualquer, daquelas que formam imagens de ursos fofinhos, mas uma nimbostratus. Não sabe o que é? Mas eu sei. Trata-se de uma enorme, escura e pesada nuvem, grávida de um toró que ainda não se desprendeu.

O avião remexe, chacoalha, pinota como um boi em dia de rodeio. Imediatamente, lavro o decreto: aqui, morri. Tão cedo, coitado de mim. Pai de três filhos pequenos. Não fiz seguro, me condeno pela enésima vez. Não chego a lançar o próximo livro. É pena. Tenho a impressão de que faria sucesso. Será que vai doer? – esses e outros pensamentos entorpecem meu cérebro como uma dose cavalar de morfina.

Meu problema com aviões começa quando a comissária avisa: atenção, senhores passageiros, fiquem atentos ao aviso de atar os cintos

Eduardo Mahon

A pressão que, normalmente, é de 12x8 vai caindo a 10x7, 9x6, 8x5, até que meus lábios começam a ficar arroxeados. Menos mal. Melhor é desmaiar antes do impacto. Penso no meu enterro. Caixão fechado, evidentemente. Naquele momento, se pudesse deixar um recado, eu diria – nada de gérberas. Não suporto. Mandem rosas, copos de leite, gerânios, hortênsias e até girassóis, mas gérberas não.

O avião dá uma sacudida maior e o estômago desliga-se do resto. Embaixo, ainda está o intestino. O resto subiu para se afunilar na garganta. Em questão de segundos, dá-se o contrário: o avião reage, os bofes descem e pressionam a única saída que conhecem, razão pela qual redobro o cuidado com os fundilhos. A nuvem simplesmente não passa. Da janelinha, vejo que estamos no meio de uma massa cinzenta sem passado nem futuro.

Será que o piloto não poderia ter contornado? É muita falta de consideração! – penso ao amaldiçoar o sujeito até a quarta geração. Mas ainda não cheguei no pior. Mais exasperante que ter medo de avião é estar ao lado de quem não tem.

Na minha última viagem que fiz, uma senhora loira muito distinta sentou-se ao meu lado. Avião pequeno, com um par de lugares de cada lado. Ela já estava sentada quando cheguei. Usava óculos escuros de marca, echarpe de seda e, no colo, equilibrava uma bolsa média da qual tirou um livro no meio do voo. Perto do destino, a fatídica campainha: atenção, senhores passageiros, fiquem atentos ao aviso de atar os cintos, estamos passando por uma área de turbulência. Ela continuava a ler.

Estiquei os olhos pela janela e não vi nada além de nuvem. Em dois minutos, estávamos no meio de uma nimbostratus daquelas. Na primeira sacudida, soltei sem querer: ai, meu Deus!, e segurei na poltrona da frente como se estivesse num ônibus imaginário. É uma pena que, nos aviões, não haja um puta-que-pariu, tão útil nos carros. Pelo menos, haveria lugar próprio para segurar no caso de frouxidão.

Pensando bem, que segurança me traria segurar num puta-que-pariu? A mulher parou de ler e soltou um riso discreto. Abri logo o jogo com ela: não suporto isso. Isso o quê?, o avião ou a turbulência? Antes que eu pudesse responder, outro solavanco. Isso!, eu respondi. Estou acostumado a voar, eu fiz questão de dizer para não parecer jeca. Mas não consigo me acostumar a isso. A senhora não tem medo? Não tenho. Não é possível. Nenhum pouco? Medo de quê? De morrer. De forma alguma, prefiro morrer aqui do que na estrada, pelo menos a gente morre de uma vez, bem rápido.

Fiquei mais nervoso. Eu prefiro morrer dormindo, disse. Ela deu de ombros. Mas será que dói? Dói nada! Como é que a senhora sabe? Ela não respondeu. Fiquei com uma péssima impressão. Acabei chegando. Fazendo uma retrospectiva, não tenho tanto medo assim. É mais ansiedade. Afinal, continuo andando de avião. Até consigo rir da situação. Até a próxima turbulência...

Eduardo Mahon é advogado, escritor e escreve exclusivamente neste espaço todo sábado. E-mail: edu.mahon@terra.com.br

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