Eduardo Mahon

Tia Neuza x Cícero

Por 26/09/2020, 09h:43 - Atualizado: 17/10/2020, 09h:39

Dayanne Dallicani

Colunista Eduardo Mahon

Enquanto eu batia os ovos para fazer a omelete deste sábado, fiquei pensando na tia Neuza de Aripuanã e a nota de repúdio que recebi por recomendar a ela que não promovesse aglomeração durante a função noturna em plena pandemia. Tive pena do nosso país. Além de todas as âncoras que nos mantêm estacionados numa realidade violenta, preconceituosa e corrupta, há um complicadíssimo problema de interpretação de texto. Seja pela deficiência no ensino, seja pela má-fé, vivemos diálogos frustrados no mundo contemporâneo. A recepção da mensagem é filtrada por inúmeros coadores ideológicos de linguistas amadores. (Sal e pimenta, antes que me esqueça. Na minha omelete, antes de colocar o queijo parmesão, salpico sal e pimenta).

No ensino fundamental tive a sorte de ter aulas com uma boa professora de português – Gilza Santiago. Ela usava aquele calhamaço chatíssimo do Bechara para ensinar gramática. Lembro de muitas coisas, principalmente do “asteísmo”, uma figura retórica usada diuturnamente por Cícero nos debates que travava no fórum romano. Portador de uma linguagem elegante, o notável tribuno defendia seus clientes ironizando as acusações. O uso do “asteísmo” consiste em dizer o contrário do que se quer e, ao inverter o sentido, causar o riso. Desacredita-se a tese contrária ironizando-a. Diante da esdrúxula propaganda de tia Neuza, recordei das minhas aulas de português e da professora que me chamava de debochado. Tecnicamente é um asteísmo, Eduardo – ela me dizia – Convém não abusar porque há gente que não entende. Ah, se eu tivesse escutado a minha professora... (A cafeteira apitou. Vou me apressar!).

A prostituição não é crime. Felizmente, evoluímos para garantir direitos aos homens e mulheres que vivem do sexo. Costumeiramente, porém, sofre a reprovação social muito mais do que a corrupção, por exemplo. É muito difícil ouvir no meio de uma acalorada discussão a acusação – Corrupto! Corrupta! Como se sabe, rouba-se muito no país. “Suje-se gordo”, quem pode esquecer de Machado de Assis? Mas os restaurantes (e os palácios, parlamentos, tribunais) estão lotados de pequenos e grandes corruptos sem que sejam reprochados de nenhuma forma. Ao contrário: no conto de Machado, o narrador se vê diante da íntima repulsa por julgar um homem que roubou pouco. Todavia, a pecha mais frequente que se pode colocar numa mulher é a prostituição. Rameira, vagabunda, piranha, biscate, um sem-número de expressões para rotular negativamente mulheres. (Coloco umas fatias de pão na torradeira, ralo o queijo parmesão e ponho a mesa para dois. Os meninos ainda dormem).

O uso do “asteísmo” consiste em dizer o contrário do que se quer e, ao inverter o sentido, causar o riso

Eduardo Mahon

A tolerância com a violência contra a mulher – uma antiga e triste epidemia brasileira – migrou para o patrulhamento seletivo. Claro que não se emite notas de repúdio contra a própria tia Neuza ou as outras casas noturnas cujos proprietários poderiam ser investigados por rufianismo. Aliás, uma notinha jurídica: se não houver cobrança sobre o porcentual de faturamento dos profissionais do sexo, não há qualquer delito à vista. Patrulha-se o bom e velho “asteísmo” de Cícero, mesmo quando a ironia condene simultaneamente a prática da aglomeração e do rodízio sexual de mulheres. Minha professora de português, coitada, deve estar se revirando no túmulo. (Faço o café sem açúcar. Há quem adicione açúcar ao pó antes de colocar água quente, o que acho bem estranho. Sobretudo aqui em casa onde se alterna o açúcar refinado com o mascavo).

Cá entre nós, acredito francamente que o caso não reclame a palmatória de Bechara. Antes de lembrar a gramática, o episódio da tia Neuza precisa ser enxergado sobre a lente da nefasta prática de um macartismo enviesado, patrulhamento eletrônico que não alcança as nuances linguísticas de quem pretende criticar a realidade nacional por meio da ironia. A novilíngua é um pesadelo orwelliano, também tratado por Huxley e por Burgess em suas maravilhosas distopias literárias. Essa ortopedia ideológica por meio da repressão linguística, do adestramento da vontade, da supressão de figuras de linguagem: pensamento, sintaxe e som, tudo isso já foi ensaiado por autoritários doentios de Robespierre a Stálin. Não ponho o pé nesse laço e lamento quem embarque nessa canoa furada. (Agora chega. Vou acordar a esposa, tomar o café e arrumar a cozinha. A louça suja é inteiramente minha).

Eduardo Mahon é advogado, escritor e escreve exclusivamente neste espaço todo sábado. E-mail: edu.mahon@terra.com.br

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Comentários (2)

  • Célia Márquez | Terça-Feira, 29 de Setembro de 2020, 00h25
    0
    0

    Célia Márquez , Há expressões agressivas, ofensas e/ou denúncias sem provas. Queira, por gentileza, refazer o seu comentário

  • Pedro felix | Sábado, 26 de Setembro de 2020, 09h51
    1
    0

    Bravo Mahon, "pau na moleira dos que tem ela mole e oca"

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