Henrique Maluf

A música brasileira e a censura no regime militar

Por 13/08/2019, 08h:22 - Atualizado: 13/08/2019, 08h:28

Dayanne Dallicani

Colunista Henrique Maluf

No ano de 1964 os militares, com o apoio dos Estados Unidos, derrubaram o governo de João Goulart e tomaram o poder, estava estabelecida a ditadura. Milhares de pessoas foram agredidas, torturadas e assassinadas, outras simplesmente desapareceram. E toda essa barbárie, sob o pretexto da redemocratização do país, livrando-o de comunistas e outros seres pensantes como artistas e intelectuais. A ditadura durou 20 anos.

Músicos, atores, cineastas, poetas, artistas plásticos, esses eram os principais alvos da censura no Brasil, artistas de uma forma geral eram vistos como deturpadores da ordem, da moral e dos bons costumes

Músicos, atores, cineastas, poetas, artistas plásticos, esses eram os principais alvos da censura no Brasil, artistas de uma forma geral eram vistos como deturpadores da ordem, da moral e dos bons costumes.

Discurso esse que dava as vestimentas de inimigos da pátria não só aos artistas, mas também a professores, jornalistas, escritores ou qualquer atuação que pudesse gerar algum tipo de reflexão do que estava acontecendo no Brasil com os horrores da ditadura militar. Os números da censura foram grandes, neles estavam o cinema, o teatro, as telenovelas, as músicas, a cultura de uma forma geral, um momento delicado e importante da nossa história, qual não devemos nem podemos esquecer.

Mas quero aqui é falar sobre algumas músicas censuradas, foram mais de 4.500 letras. Alguns artistas se tornaram figuras marcadas pelos censores, podemos citar Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Raul Seixas, e esses realmente faziam canções engajadas e com teor de protesto, geralmente contestavam o triste período que enfrentavam, a arte cumpria seu papel: gerar reflexão.

Porem inúmeros outros cantores passaram pela tesoura da Divisão de Censura e Diversões Públicas (DCDP), alguns casos chegam a ser inacreditáveis, como por exemplo a música “Como eu quero”, de Paula Toller e Leoni, na parte em que a personagem diz “tire essa bermuda”, acreditem, isso foi visto como um ataque aos padrões morais e dos bons costumes impostos pelo governos.

Outro caso, que particularmente, além da censura, vejo como preconceito, foram com algumas músicas do sambista Adoniram Barbosa, que usava de uma linguagem caipira e interiorana. A censura quis obriga-lo a adequar suas canções as regras da gramática, colocando-as em linguagem culta e formal, um total desrespeito a liberdade poética do artista, Adoniram disse que preferia esperar pra gravar suas músicas quando a burrice tiver passado, e assim fez.

Além do entretenimento, a arte tem um papel muito importante, que é o de criar reflexões nas pessoas, e sua liberdade, sobre pretexto algum deve ser ameaçada

Os artistas usavam de metáforas e figuras de linguagem para driblar a censura e deixaram para a posteridade seu pesar. Algumas canções viraram verdadeiros hinos de luta e resistência contra o período ditatorial nos anos 60, canções como “Cálice” de Chico e Gil, com a metáfora com o verbo “calar”, disseram ao mundo que a liberdade de expressão estava caçada no Brasil. Outra canção forte na época foi “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, onde enfatizava as injustiças, a presença do exército nas ruas e convocava as pessoas para se unirem na luta contra a ditadura. Geraldo foi preso, torturado e exilado.

Outra canção icônica foi “O bêbado e a equilibrista” de João Bosco e Aldir Blanc, isso já em 1979, que fala sobre o exilio. Uma bela canção que apresenta um retrato do Brasil no final do período ditatorial, com o lamento de mães pela falta de seus filhos, os “Carlitos” tentando sobreviver, de forma oprimida, porem sempre bem humorado e a equilibrista, representando nossa esperança, se equilibrando e sobrevivendo, um hino.

Inúmeras outras canções confrontaram o regime militar. “Panis et Circenses” (de Caetano e Gil), “Apesar de você” (Chico Buarque), “Cartomante” (Ivan Lins), “Ouro de Tolo” (Raul Seixas), “Como nossos pais” (Belchior), “Tiro ao Álvaro” (Adoniram Barbosa), dentre outras, que até hoje reverberam essa triste e infeliz página de nossa história.

Além do entretenimento, a arte tem um papel muito importante, que é o de criar reflexões nas pessoas, e sua liberdade, sobre pretexto algum deve ser ameaçada. Finalizo com o Artigo 5°, inciso IX da Constituição Federal que diz: “É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença.”

Henrique Maluf é músico, produtor cultural e pesquisador em Cuiabá. Escreve nesta coluna com exclusividade às terças-feiras. E-mail: herojama@gmail.com

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