Henrique Maluf

A preservação das tradições culturais

Por 24/12/2019, 07h:43 - Atualizado: 31/12/2019, 07h:27

Dayanne Dallicani

Colunista Henrique Maluf

“Prezo insetos mais que aviões. Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis. Tenho em mim esse atraso de nascença. Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos. Tenho abundância de ser feliz por isso. Meu quintal é maior do que o mundo”.

Esse é um trecho do belíssimo poema “Apanhador de Desperdícios” do nosso observador das pequenezas, Manoel de Barros, cuiabano, pantaneiro, um dos maiores nomes da literatura contemporânea brasileira, um vanguardista de mão cheia, mas que buscou nas suas raízes a cerne de sua poesia, sendo um poeta todo “modernoso” e ao mesmo tempo um regionalíssimo.

Mas essas não são palavras sobre nosso poeta, e sim sobre a importância da preservação das nossas tradições culturais, dos valores ancestrais que construíram o que é a nossa memória e história.  Arte, culinária, vestimentas, manifestações religiosas, festas populares são alguns dos aspectos que podemos citar como formadores das tradições culturais.

A globalização tem um valor muito importante pra humanidade, a velocidade da informação, as novas gerações altamente conectadas, a ciência e tecnologia dando significativos passos. Só que todo esse desenvolvimento traz consigo um ônus que custa caro pra nossa cultura.

As tradições culturais estão cada dia mais esquecidas e ficando deixadas de lado pela sociedade de um modo geral, o que era comum tornou-se tradição e agora está ganhando status de exótico, um caminho que pode levar ao desaparecimento das tradições de um povo.

Ao pensar em cultura do nosso país temos uma aquarela das mais diversas cores, um Brasil de inúmeras tradições, costumes e culturas. Sendo bem superficial, ao falar da região Norte posso citar o Festival Folclórico de Parintins, o Círio de Nazaré em Belém, as guitarradas dos mestres paraenses, a caliente lambada, a cachaça de jambu e comidas como Pato do Tucupi, Tacacá e o Açaí.

Moderno é tradição, como disse nosso moderno poeta pantaneiro, Manoel de Barros, “meu quintal é maior que o mundo”

Henrique Maluf

Ao falar de Nordeste, facilmente lembro de manifestações culturais como o maracatu, caboclinho, coco, frevo, capoeira, da literatura de cordel, das rendas, dos pratos como mungunzá, baião de dois, acarajé, vatapá.

O Sudeste, por ser a região que teve uma grande influência de imigrantes, tem sua cultura regional já bem misturada, festas populares como a Festa do Divino, Páscoa, festa dos santos padroeiros, Cavalhadas, o que passam desapercebidas perto do fenômeno que é o Carnaval do Rio de Janeiro ou da Festa de Peão de Barretos.

O Sul do Brasil sofre um fenômeno parecido com o do sudeste, mais diferente por não ser uma região de forte imigração de todas partes do mundo, como por exemplo a cidade de São Paulo. O Sul, como gostam tanto de falar, parece uma Europa no Brasil, tanto que seus principais festejos populares são a Festa da Uva (italiana) e a Oktoberfest (alemã), além das tradicionais festas gaúchas embaladas por fandango, tirana e chula.

Aqui no Centro-Oeste temos tradições culturais bem típicas, como cavalhadas, congadas, o sertanejo raiz de Goiás, o pequi, dentre outros, e nossas tradições mato-grossenses, como o Siriri e Cururu, a Dança dos Mascarados, Congo, o Rasqueado e Lambadão, e as festas de santos espalhadas pelo Estado. Uma culinária rica a base de peixe, artesanato e toda cultura de fronteira que formou nosso povo.

Eu, como pesquisador da cultura, percebi que é altamente revelador desvendar o universo das tradições, pois, normalmente, dialoga com questões importantes no contexto das produções identitárias, vindo a reboque do próprio interesse da História Cultural pelas produções em torno da história regional.

Os tempos estão mudando e existem inúmeros novos fazeres culturais, nas mais diversas camadas da sociedade, a tão falada diversidade, principalmente com o desejo de pertencimento a um grupo, nesse sentido, fazer parte de um grupo cultural social é fundamental, é o que cria o presente, o futuro e perpetua o passado.

Hoje em dia uma grande parte de pesquisadores nas universidades públicas dedicam profundos estudos no campo da hibridez cultural e da constituição identitária, ou seja, os processos de surgimento de uma cultura, e de quão se faz necessária a preservação da cultura e tradição de um povo. Moderno é tradição, como disse nosso moderno poeta pantaneiro, Manoel de Barros, “meu quintal é maior que o mundo”.

Henrique Maluf é músico, produtor cultural e pesquisador em Cuiabá. Escreve nesta coluna com exclusividade às terças-feiras. E-mail: herojama@gmail.com

Postar um novo comentário

Vereadores de ROO e trocas de siglas

fabio cardozo 400 curtinha   Em Rondonópolis, praticamente a metade dos vereadores está aproveitando a janela, que se encerra neste sábado, para mudar de partido, e já com as atenções voltadas à reeleição. E, com a dança das cadeiras, o Solidariedade do prefeito Zé do...

Podemos absorve a turma do barulho

O Podemos conseguiu juntar no seu diretório em Cuiabá a turma do barulho. Dela fazem parte dois com mandatos cassados, Abílio Júnior, que perdeu a cadeira de vereador por quebra de decoro, e a senadora Selma Arruda, cassada por caixa 2 e abuso de poder econômico, mas que ainda continua no cargo. Selma impôs condições para seguir no partido. Chegou a negociar ida para o PSC. E ganhou a presidência municipal do Pode, forçando o...

Secretário, furtos e a incompetência

rodrigo metello 400 curtinha   O secretário de Transporte e Trânsito de Rondonópolis, Rodrigo Metello (foto), filiado ao MDB e pré-candidato a vereador, corre risco de ser acionado na Justiça por centenas de pessoas que tiveram motocicletas apreendidas e que depois acabaram furtadas do Pátio Rondon. O local...

Vereador na base e críticas a Leonardo

leonardo 400 curtinha   Chico 2000, vereador pela Capital, assegura que não procede a informação de que o seu Partido Liberal irá romper com o prefeito Emanuel, não o apoiando à reeleição. Segundo ele, foi Leonardo Oliveira (foto), que participou na quarta de uma reunião do...

Embates sobre a cadeira da discórdia

selma arruda curtinha 400   A cadeira da senadora Selma Arruda (foto), que está cassada há um ano mas, mesmo assim, continua no cargo, vem dividindo opinião de vários líderes políticos, uns torcendo logo para a Mesa do Senado decretar a vacância para Carlos Fávaro assumir a vaga, outros...

PL avisa Chico que não apoiará EP

chico 2000 curtinha   O vereador Chico 2000 (foto), único do PL na Câmara de Cuiabá e governista de carteirinha, se mostrou  desconfortável politicamente quando foi informado nesta quinta que a legenda liberal não vai apoiar a reeleição do prefeito Emanuel, do MDB. O partido é comandado no...

ENQUETE

facebook whatsapp twitter email

Você concorda com a decisão de prefeitos, que começam a decretar estado de emergência, fechando comércio, serviços públicos e o transporte coletivo?

sim

não

sei lá!

Não se trata de pesquisa eleitoral, mas de um mero levantamento de opiniões de leitores do RDNews e do Blog do Romilson, com participação espontânea dos internautas. Resultado sem valor científico.