Henrique Maluf

Adir, Marília, Rodivaldo, Casaldáliga e a efemeridade da vida

Por 11/08/2020, 07h:51 - Atualizado: 11/08/2020, 09h:36

Arte/Dayanne Dallicani

Colunista Henrique Maluf

“Tem dias que eu fico pensando na vida, e sinceramente não vejo saída. Como é por exemplo que dá pra entender, a gente mal nasce e começa a morrer”. Esses primeiros versos do poetinha Vinícius de Moraes na canção “Sei lá a Vida Tem Sempre Razão” ilustram bem o que está se passando pela minha cabeça: a efemeridade de se estar vivo.

Um “sei lá” parece ter toda carga científica e filosófica para explicar toda complexidade dos devaneios e teorias sobre a vida e a morte. Alguém consegue me explicar o que está se passando de fato? Quantas dores, quantas vidas, o que mais teremos que enfrentar, quantos mais teremos que enterrar? Outros 100 mil?

Alguém consegue me explicar o que está se passando de fato? Quantas dores, quantas vidas, o que mais teremos que enfrentar, quantos mais teremos que enterrar? Outros 100 mil?

Enterrar? Não podemos velar parentes, amigos ou quaisquer pessoas. O ritual da despedida é doloroso, a hora em que se fecha o caixão é dilaceradora e ao mesmo tempo é muito importante, nessa hora que passamos a entender o quão real é a morte. Há ali o reconhecimento na dor com os que ficam e a homenagem para os que vão. Os protocolos de segurança não permitem velórios por causa da Pandemia de Covid-19, o que tem tornado a despedida ainda mais doída, a privação do último adeus.

Nos últimos trinta dias quatro pessoas aqui de Mato Grosso fizeram a passagem para o outro plano, nenhuma delas por Covid-19, cada uma com suas histórias, mas que provocaram uma sensação estranha em mim, ao melhor estilo “sei lá” do Vinícius.

“Fica, Pedro!” foi o nome de uma peça da Companhia de Teatro Cena Onze no ano de 2009, eu fui chamado para compor o corpo artístico musical do espetáculo, mas por ocasião na época não dei continuidade. A peça retratava a luta de Dom Pedro Casaldáliga, o bispo emérito de São Félix do Araguaia, contra latifundiários e posseiros de terras, além de sua luta em defesa da democracia em plena ditadura militar. Ali eu descobria a teologia da libertação, Casaldáliga, Leonardo Boff, a “Missa dos Quilombos” com Milton Nascimento, o “Funeral de um Lavrador” com Chico Buarque e todo um universo de lutas e resistência em prol da terra, dos direitos humanos, da luta pela fé num lugar totalmente inóspito, terra de grileiros, madeireiros, garimpeiros e grandes produtores. Ali onde a natureza chora. Pedro Casaldáliga faleceu no último sábado.

Nesta segunda o poeta das cores Adir Sodré foi quem nos deixou. Uma partida rápida, infarto, ao que parece. Uma semana atrás eu o convidei para participar do meu programa de bate papo no instagram “E por falar em arte...”. Adir ficou feliz com o convite, disse que assistiu alguns e que ficara feliz em participar, mas que naquele momento se sentia com medo, que não entendia qual a lição que o vírus queria nos dar, reforçou o desejo e a necessidade da fé. Disse que quando estivesse mais animado participaria e me deixou um “Até brevíssimo tempo”, com algumas fotos de suas obras e outra com as mãos “sujas” de tinta, me senti muito feliz com aquele simples e significativo gesto.

As outras duas pessoas foram a musicista e professora Marília Cortez e o jornalista Rodivaldo Ribeiro, duas personalidades da nossa terra. Ela, uma mulher de luta, educadora, que defendia com garra a educação pública de qualidade além de criar e vivenciar projetos sociais com música. Ele um inveterado da cena underground cuiabana, por vezes proseávamos no Cavernas Bar, era “tocador de rock”, escritor de mão cheia, além de ser figura carimbada nos maiores jornais do estado, aqui no RD News, assinou por anos as pautas ligadas a cultura. Duas pessoas estudiosas, dedicadas e que usavam dos seus talentos para melhorar um pouco o mundo ao seu redor.

Eu não tinha grande amizade com nenhum deles, mas amargo um luto, pela luta deles

Quatro pessoas pelas quais eu nutro uma grande admiração pelo esforço de viver e lutar por um lugar melhor para viver. O “sei lá” eu ainda não sei explicar, só sei dizer que me sinto enfraquecido com essas perdas, sinto como se um pouco da minha vontade de mudar o mundo está indo partindo com eles. Eu não tinha grande amizade com nenhum deles, mas amargo um luto, pela luta deles.

A Dama-da-noite é uma flor que nasce de noite, vive de madrugada, murcha e morre pela manhã. O cheiro que ela exala é exuberante e atrai muitos animais de hábitos noturnos, inclusive os humanos. Mesmo morta no dia seguinte ela contou lindas histórias ao longo da noite, resistiu pela manhã e sucumbiu à própria efemeridade do tempo, da vida, porém a flor existiu e sempre me lembrarei dela, do seu cheiro, do toque aveludado de suas pétalas. Ainda na canção de Vinícius “A Vida Tem Sempre Razão” aqui finalizo: “Nada renasce antes que se acabe”.

Henrique Maluf é formado em Música pela UFMT, produtor cultural, pesquisador de cultura regional e arte educador. Escreve nesta coluna com exclusividade às terças. E-mail: herojama@gmail.com

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